O Estado de São Paulo registrou, entre janeiro e outubro de 2025, o segundo maior número de mortes provocadas por policiais militares em serviço ou de folga dos últimos cinco anos. Ao todo, foram 628 ocorrências em dez meses, segundo dados reunidos pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
O número fica abaixo apenas do registrado no mesmo período de 2024, quando houve 645 mortes, ano marcado pela alta letalidade da Operação Verão, realizada na Baixada Santista. Considerada uma espécie de reedição da Operação Escudo, que deixou ao menos 28 mortos no fim de 2023, a ação resultou em 56 mortes apenas no início do ano passado, tornando-se uma das incursões policiais mais letais da história do Estado.
Ao menos dez policiais envolvidos nas duas operações foram denunciados pelo Ministério Público por indícios de abuso.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que todas as ocorrências com morte são rigorosamente investigadas pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. A pasta informou ainda que, desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos por desvios de conduta.
Em entrevista recente ao Estadão, o novo secretário da Segurança Pública, delegado Osvaldo Nico Gonçalves, negou que as ações na Baixada Santista tenham caráter de “operação vingança” em resposta à morte de policiais na região. Segundo ele, as incursões buscaram restabelecer o controle de áreas de cidades como Santos e Guarujá, marcadas pela atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Nico também minimizou a alta nas mortes decorrentes de intervenção policial nos últimos dois anos, período em que a pasta era comandada por Guilherme Derrite. “Houve realmente confrontos que a gente não quer. Mas a polícia também não pode perder”, disse. “Prefiro que o policial saia vivo.”
Entre os casos de maior repercussão neste ano está a morte de Guilherme Dias dos Santos Ferreira, de 26 anos, baleado por um policial militar no início de julho, em Parelheiros, na zona sul da capital. Segundo a investigação, o jovem corria para pegar um ônibus após sair do trabalho quando foi atingido. À Polícia Civil, o PM afirmou ter confundido Guilherme com um dos assaltantes que teriam tentado roubá-lo momentos antes. A vítima carregava uma sacola com marmita e talheres e morreu no local. O policial responde ao processo em liberdade.
Outro caso que gerou grande repercussão foi a morte de Igor Oliveira, de 24 anos. O Ministério Público denunciou quatro policiais militares por participação em uma ação que resultou na morte do jovem quando ele já estava rendido, com as mãos na cabeça. O episódio provocou uma série de protestos em Paraisópolis, também na zona sul da capital.
De acordo com os dados do MP-SP, 2022 e 2023 foram anos marcados por queda nas mortes decorrentes de intervenção policial, com 311 e 370 registros, respectivamente. Pesquisadores apontam que o período coincide com efeitos da pandemia da covid-19, além do avanço de comissões de mitigação e da ampliação do uso de câmeras corporais portáteis (COPs), que aumentam a transparência da atuação policial.
Em 2021, foram registradas 488 mortes em ações policiais, enquanto em 2020 o número chegou a 708. Historicamente, os índices envolvendo a Polícia Militar são mais elevados do que os da Polícia Civil, em razão do caráter ostensivo da atuação da PM.
Em nota, a SSP afirmou que desenvolve ações contínuas para aperfeiçoar o trabalho policial e reduzir a letalidade. Segundo a pasta, nos últimos dois anos, o Estado registrou 1.061 mortes em confrontos com policiais em serviço, o que representa uma redução de quase 25% em relação aos primeiros anos da gestão anterior.
A secretaria destacou ainda investimentos em novas tecnologias e na aquisição de equipamentos de menor potencial ofensivo, como 3.500 armas não letais, além da ampliação do uso das câmeras corporais, cuja implementação, segundo a pasta, segue acordo firmado no Supremo Tribunal Federal (STF).
* Informações com Estadão