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Violência contra mulher: região de MG com mais registros tem 35 casos por mil habitantes

Série da Itatiaia “O raio-x da violência contra a mulher em Minas Gerais” é encerrada neste sábado, com mapeamento de atendimentos a vítimas por região

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Atendimentos de vítimas no sistema de saúde de MG escancara gravidade da situação
Atendimentos de vítimas no sistema de saúde de MG escancara gravidade da situação • Fernando Frazão/Agência Brasil

"Todo final de semana ele me batia. Era só ele beber que começava a me bater e me chamar de puta, me chamar de velha". O relato é de Andréia Alves da Silva, de 46 anos, moradora de Ibirité, na Grande BH. Cansada de apanhar do marido, Adalberto Ribeiro, de 42 anos, ela reagiu a mais uma agressão e matou o companheiro no último domingo (26).

Apesar do desfecho incomum, a violência sofrida por Andréia está longe de ser fato isolado. Dados coletados pela Itatiaia no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), da Secretaria de Saúde de Minas, mostram que 134.213 mulheres vítimas de violência foram atendidas pelo sistema de saúde somente na Grande BH, entre 2010 e 2025. O número total de atendimentos de vítimas de violência em 15 anos passa de 430 mil, dado que representa cinco casos por hora no estado.

Os dados compilados pela reportagem embasam a série da Itatiaia “O raio-x da violência contra a mulher em Minas Gerais”, encerrada neste sábado (2). Apesar de a Grande BH ter o maior número de registros, as regiões Central, Sul e Campo das Vertentes têm o maior número de casos por mil habitantes. Nesse mesmo recorte, a RMBH ocupa a antepenúltima posição, à frente do Norte e do Jequitinhonha.

Os dados cruzados pela reportagem apontam vários tipos de crime, como estupro. Com população de 447 mil pessoas, a Região Central de Minas registrou 15.724 casos, pouco mais de 35 por mil habitantes. Foi nessa região que a Polícia Civil prendeu, nesta semana, um homem de 51 anos suspeito de estuprar a sobrinha-neta, de 6 anos, na cidade de Mariana.

A mãe da vítima procurou a Polícia Civil para relatar mudanças no comportamento da filha. A criança contou que, nos momentos em que ficava sob os cuidados de uma prima, na residência do investigado, o homem a levava para um quarto ou para o terraço do imóvel, onde praticava atos libidinosos diversos. A polícia ouviu quatro testemunhas. Uma delas, integrante da mesma família, confirmou que também foi vítima de abusos cometidos pelo investigado quando ainda era criança, entre os 7 e 10 anos.

Subnotificação

Para a juíza de Direito da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica (COMSIV) do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a situação pode ser ainda mais grave, uma vez que pode ocorrer subnotificação.

Ela também ressalta que regiões com o sistema de saúde mais estruturado tendem a registrar mais casos, justamente pelo acesso aos serviços.

“Quando utilizamos dados da saúde, estamos olhando para onde a vítima conseguiu chegar. E não necessariamente onde a violência mais acontece. Regiões com maior estrutura de atendimento, como Triângulo, Alto Paranaíba e Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), tendem a registrar mais casos porque há mais portas de entrada, profissionais capacitados e maior acesso das vítimas aos serviços. Já em regiões com menor cobertura ou mais vulnerabilidade, como Jequitinhonha e o Norte de Minas, pode haver subnotificação. Ou seja, a violência existe, mas não chega a ser registrada”, ponderou a magistrada, que completou:

“Para a Justiça, essa situação reflete a importância de fortalecer a rede de proteção em todo o estado, garantindo que todas as vítimas, independentemente da região, consigam acessar os serviços e tenham seus direitos assegurados”.

Ludmila Ribeiro, professora do departamento de Sociologia da UFMG e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos sobre Violência, Justiça e Prisões, faz avaliação semelhante. Ela destaca o número de crimes sexuais. São quase 58 mil atendimentos, a maioria (34 mil) contra crianças e adolescente de 0 a 14 anos.

A professora pontua ainda que, em regiões onde o serviço é mais distante, a vítima muitas vezes depende de um responsável para chegar ao atendimento médico, o que se torna um obstáculo quando o agressor é o próprio familiar que a acompanha.

"Também chama a atenção o fato de que, tanto no caso da violência sexual, eu iria muito mais pelo quão difícil é você procurar, você primeiro ver que há ali uma violência, você ver que deixou uma lesão, que deixou uma marca e procurar um serviço. Então, sobretudo quando a gente pega as regiões com menor incidência do ponto de vista da violência sexual, que são as regiões Noroeste, Sudoeste e Vale do Mucuri, a gente está falando também das regiões em que o serviço de saúde é mais espraiado (estendido) no território”, analisou.

Médico da família

Ludmila aponta que, nesses locais mais distantes, até mesmo o médico da família, que visita os pacientes nos próprios domicílios, tem obstáculos complexos quando o cenário envolve abusos sexuais domésticos. O entrave ocorre principalmente porque a estrutura do atendimento pressupõe que a família esteja toda ali.

“Muitas das vezes está a criança, o adolescente com o seu agressor. Então, você não tem como falar sobre essa violência. Então talvez seja mais difícil falar porque o serviço está mais longe e é mais difícil chegar até o serviço. E (a vítima) está sempre acompanhada de um responsável, especialmente nessa faixa etária sem autonomia. Como vou dizer que essa pessoa que me leva para esse serviço (atendimento de saúde) me violentou?”

Base de dados

A base de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) é diferente da obtida nos sistemas de segurança pública e, por isso, há uma discrepância nos números. Na base de saúde, a riqueza de detalhes é maior e permite a análise a partir dos recortes abordados ao longo da série.

Leia as outras matérias da série:

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Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.