Abuso sexual atinge mais jovens de 11 a 15 anos em MG; pais estão entre os agressores
Levantamento da Itatiaia, com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), detalha o perfil da violência contra menores e mostra que agressores exploram a confiança dentro da família

Apenas em abril, pelo menos dois casos de abuso sexual cometidos por pais contra as próprias filhas foram investigados pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG). Em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, um homem de 55 anos foi indiciado por estuprar a filha dos 12 aos 15 anos. Ele ameaçava a jovem e a mãe para que não denunciassem. Em Caraí, no Vale do Jequitinhonha, outro pai, de 34 anos, foi preso por estupro de vulnerável contra a filha de 5 anos, após a escola identificar mudanças no comportamento da criança e acionar as autoridades.
Longe de serem episódios isolados, esses exemplos são o reflexo de uma realidade escancarada pelas estatísticas: são 57.782 casos em 15 anos tempo. A faixa etária de 11 a 15 anos concentra o maior número de ocorrências, com 16.440 registros, seguida por crianças de 0 a 5 anos (9.748) e de 6 a 10 anos (8.191). Juntas, essas três faixas somam mais da metade dos casos registrados, revelando um padrão devastador no qual o agressor, na maioria das vezes, não é um estranho, mas alguém em quem a vítima deveria confiar — o pai, o irmão, o tio ou um amigo da família.
Esta é a terceira reportagem da série “O raio-x da violência contra a mulher em Minas Gerais”, produzida pela Itatiaia e publicada de segunda-feira (27) a sábado (2). O material traz um levantamento detalhado, com base em dados do sistema de saúde de Minas Gerais entre 2010 e 2025 — compilados por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) — e revela uma face cruel e silenciosa da violência, que muitas vezes acontece dentro de casa.
Ludmila Ribeiro, professora do departamento de Sociologia da Universidade Federal de Minas (UFMG) e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos Sobre Violência, Justiça e Prisões, destaca que um dos desafios no combate a esse tipo de crime é desmistificar a ideia do “agressor desconhecido na rua escura”.
Leia as outras matérias da série:
- Curva crescente: Minas teve quase 50 mil casos de violência contra a mulher em 2025
- Quase 500 mil casos em 15 anos: Itatiaia faz Raio-X da violência contra a mulher em MG
"Quando a gente olha para esses dados, na verdade é completamente oposto. Ou seja, a chance de você ser vítima de violência sexual dentro desse imaginário coletivo, no meio da rua, uma pessoa que vai vir do nada e te atacar ou uma pessoa na porta da escola que vai dizer pra menina: 'Tá aqui um chocolate, mas vamos ali comigo'. Isso quase nunca acontece. [...] O grande problema é a casa. [...]."
Os dados confirmam essa análise: 58% dos casos de violência sexual ocorrem no domicílio da vítima. Em seguida, aparecem via pública (6.983), locais classificados como “outros” (6.798) e registros com local ignorado (6.637). Ambientes como escolas (1.350), bares (776) e estabelecimentos comerciais (582) também figuram entre os locais mencionados.
Por isso, o agressor costuma ser um “homem comum”, muitas vezes visto como alguém acima de qualquer suspeita. Isso dificulta a denúncia e a identificação do crime, tanto para as famílias quanto para o Estado. “A violência sexual, especialmente na faixa etária de 0 a 15 anos, é um dos problemas públicos mais graves, porque estamos falando de uma violência perpetrada por pessoas da família, ou seja, por quem tem acesso à casa dessa menina e é de confiança dos familiares”, disse.
Conduções feitas pela PCMG mostram extamente isso. Veja os últimos casos
- 01/04 – São Gotardo: homem, 26 anos, companheiro da babá, indiciado por abusar de criança de 8 anos. A rápida reação da vítima, que aproveitou um momento de interrupção do ato para enviar mensagens de socorro à mãe e ligar para a avó, que realizou o resgate.
- 09/04 – Patrocínio: homem, 38 anos, preso por abusar de, ao menos, sete crianças - 10 a 14 anos - entre 2022 e 2024. A vítima principal era sua enteada. O padrão serial da ação, que vitimou não apenas a enteada do suspeito, mas também amigas da menina.
- 10/04 – Coronel Fabriciano: prisão preventiva de um homem, de 33 anos, investigado por crimes sexuais contra a cunhada, 12 anos. A investigação teve início após a vítima denunciar o recebimento de mensagens de conteúdo pornográfico enviadas pelo próprio suspeito.
- 14/04 – Betim: homem, 55 anos, indiciado por abusos cometidos contra a própria filha dos 12 aos 15 anos. O diferencial: A natureza de longo prazo do crime e o histórico de ameaças que o suspeito fazia à mãe e à jovem, que formalizou a denúncia aos 24 anos.
- 16/04 – Caraí: homem, 34 anos) preso por estupro de vulnerável contra a própria filha, 5 anos. O diferencial: A intervenção da escola; funcionários notaram comportamento retraído, dificuldade de locomoção e sinais de negligência na criança, acionando as autoridades.
- 23/04 – Betim: um homem, de 55 anos, foi indiciado por estupro de vulnerável contra a enteada, de 9 anos. O abuso ocorria em casa, de forma sistemática desde que o suspeito iniciou o relacionamento com a mãe da criança.
- 27/04 - Mariana: a PC cumpriu mandado de prisão contra um homem de 51 anos, investigado por crime de estupro de vulnerável contra a sobrinha-neta, uma criança de 6 anos.
Criança pode não compreender a violência
A psicanalista Natália Marques afirma que, quando o agressor está inserido na própria família, isso pode gerar confusão na criança e dificultar ainda mais a denúncia. “Muitas crianças não denunciam porque são ameaçadas ou porque não conseguem compreender o que estão vivendo. Elas sentem que é errado, mas não sabem nomear. O medo, a culpa e a vergonha fazem com que sofram em silêncio, muitas vezes por anos.”
Onde acontece a violência -Menores e maiores de idade
As consequências disso podem se manifestar a curto, médio e longo prazo. De acordo com a psicanalista Natália, estudos apontam que o trauma pode gerar sintomas somáticos, como distúrbios do sono, insônia e outros problemas físicos relacionados à culpa e à vergonha.
“As marcas da violência sexual não ficam na infância — elas atravessam a vida inteira”, afirma a especialista. Ao longo da vida é comum o desenvolvimento de transtornos como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e crises de pânico. “Esse trauma pode se transformar em adoecimentos físicos e emocionais, distorcer a autoestima e a forma como a pessoa se vê no mundo. Em casos mais graves, pode levar a consequências extremas, como pensamentos suicidas”, disse.
Desigualdade racial
Segundo Ludmila, isso reflete lacunas nas políticas de proteção estatal, como a falta de creches e de ensino em tempo integral, o que obriga mães a buscarem arranjos informais de cuidado enquanto trabalham, expondo crianças a riscos maiores.
Desiqualdade territorial
Na análise regional, o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba apresenta a maior taxa proporcional de ocorrências, com 4,16 casos por mil habitantes, seguido pela Região Metropolitana de Belo Horizonte, com 3,05.
Em números absolutos, a região metropolitana lidera, com 21.050 registros. Outras regiões, como Jequitinhonha (2,60), Zona da Mata (2,56) e Norte de Minas (2,42), também apresentam taxas relevantes, enquanto Campo das Vertentes (1,50) e Noroeste de Minas (1,71) registram os menores índices.
“Quando a gente observa regiões com menor incidência de violência sexual, como Noroeste e Sudoeste de Minas e o Vale do Mucuri, também estamos falando de locais onde os serviços de saúde são mais espalhados no território. Isso pode dificultar a identificação e a busca por atendimento. Muitas vezes, o médico vai até a casa e a criança ou adolescente está ali junto do próprio agressor, o que impede qualquer relato. Além disso, especialmente nessa faixa etária sem autonomia, a vítima depende de um responsável para chegar ao serviço. E como denunciar se é justamente essa pessoa que a levou até ali quem cometeu a violência?”
Como denunciar
Em caso de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. A denúncia também pode ser feita pelo Disque 100, para violações de direitos humanos, especialmente envolvendo crianças e adolescentes, ou pelo Ligue 180, no caso de violência contra mulheres. Os dois canais funcionam 24 horas.
Em Minas, denúncias anônimas podem ser feitas pelo 181. Também é possível registrar ocorrência pela Delegacia Virtual de Minas Gerais ou pelo aplicativo MG App.
Em Belo Horizonte, a Polícia Civil mantém a Delegacia Especializada de Investigação à Violência Sexual, que atende pelo telefone (31) 3330-5720.
Outros recortes mais específicos serão abordados na série ao longo da semana. Veja o cronograma:
- 30/04 - Recorte dos casos por idade
- 01/05 - O perfil do agressor
- 02/05 - Onde acontecem os casos em Minas Gerais
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.
Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.


