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Violência contra a mulher em MG: 66% das vítimas têm idade reprodutiva

Sistema de Saúde de Minas atendeu, em 15 anos, 286 mil mulheres vítimas de violência

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Sistema de saúde é, muitas vezes, canal para descobrir violência contra a mulher
Sistema de saúde é, muitas vezes, canal para descobrir violência contra a mulher • Marcelo Camargo/Agência Brasil

Quase 70% das mais de 430 mil mulheres vítimas de violência atendidas na rede de saúde em Minas Gerais, de 2010 a 2025, têm entre 16 e 40 anos. Os dados estão publicados no portal aberto do Governo de Minas por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), foram compilados pela reportagem e embasam a série da Itatiaia “O raio-x da violência contra a mulher em Minas Gerais”, veiculada nesta semana.

Os dados gerais mostram que os atendimentos de mulheres entre 16 e 40 somam 286.916 casos, 66,64% do total registrado em 15 anos. No recorte entre 16 e 25 anos, os atendimentos chegam a 25.245 (29,08% do total).

Ludmila Ribeiro, professora do departamento de Sociologia da UFMG e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos sobre Violência, Justiça e Prisões, atribui esse fenômeno à fase em que as mulheres conquistam maior autonomia: começam a circular mais pela cidade, ingressam no primeiro emprego e iniciam a vida sexual.

“Quando a gente olha para a curva de faixa etária, os dados mostram também que, a partir dos 35 anos, essa violência começa a cair de uma forma mais abrupta. E a gente está falando de mulheres em idade sexualmente reprodutiva. E aí vem toda a discussão sobre o corpo feminino. Ou seja, é a faixa etária em que o corpo feminino é apresentado como um corpo atraente e como um corpo desejável. Não estou dizendo que é só a violência sexual, mas a gente está falando de todas essas violências relacionadas, muitas vezes, a dinâmicas de disputa no âmbito doméstico”, disse a pesquisadora, que completou:

“Estamos falando de mulheres que têm algum tipo de autonomia, que conseguem procurar os serviços e que, exatamente por isso, estão trazendo mais a público esse serviço ou estão tentando entender e sair um pouco dessa dinâmica de violência. Acho isso bem importante.”

Casos de violência contra a mulher por faixa etária
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Mulheres pretas e pardas representam mais de 50% do total das vítimas:

raça
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Violência silenciosa e complexa

Mais de 320 mil casos foram registrados dentro dos lares, especialmente crimes sexuais contra crianças. Para a juíza de Direito da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica (COMSIV) do TJMG, Dayse Mara Silveira Baltazar, este é um grande desafio a ser superado.

“O grande desafio da Justiça nesses casos é lidar com a violência extremamente silenciosa e complexa. Quando falamos de crianças e adolescentes, especialmente dentro de casa, muitas vezes o agressor é alguém de confiança, o que dificulta a denúncia e a própria revelação dos fatos. Por isso, o Judiciário precisa atuar com ainda mais sensibilidade e técnica, garantindo uma escuta protegida, evitando a revitimização e dando respostas rápidas para interromper o ciclo de violência. Além disso, é fundamental a atuação integrada com a rede de proteção — escola, saúde, assistência social — porque, na maioria das vezes, são esses atores que conseguem identificar os primeiros sinais e levar esses casos até o Judiciário”, destacou.

A preocupação da juíza também é compartilhada pela professora Ludmila Ribeiro, que avalia o cenário de violência sexual no estado como ‘gritante’, especialmente para vítimas entre 0 e 15 anos, faixa que concentra mais de 50% dos casos registrados.

“Quando a gente pensa, sobretudo, na violência sexual, seja de crianças, adolescentes, jovens ou mulheres adultas, vem a ideia da rua escura, o homem que vai atacar essa mulher e você não vai ter para onde correr. Mas, quando a gente olha para esses dados, é completamente o oposto. A chance de você ser vítima de violência sexual nesse imaginário coletivo (no meio da rua, por uma pessoa que vai surgir do nada e te atacar ou de uma pessoa na porta da escola que vai oferecer um chocolate e dizer ‘vamos ali comigo’) quase nunca acontece. Não é que não aconteça. Acontece, e os dados mostram isso. Mas o grande problema é a casa”, alertou.

“O que chama muita atenção é como a gente está falando de violências que acontecem mediadas por relações de confiança. Ou seja, é o meu primo, é meu tio, é o meu pai, é o meu padrasto. Ou seja, são pessoas em quem eu confio plenamente”, disse.

Importância do SUS

A base de dados disponibilizada pela Secretaria de Estado de Saúde tem números diferentes das tabelas da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), abastecidas por ocorrências policiais. Além das diferenças nos números finais, destaca-se a possibilidade de filtros qualitativos.

Para a psicanalista Natália Marques, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem papel estratégico no acolhimento de vítimas e também para identificar casos de violência que não chegam à polícia. Segundo a especialista, o ambiente hospitalar é, muitas vezes, o primeiro ponto de contato de mulheres e crianças que sofreram agressões, o que exige um preparo rigoroso das equipes de atendimento. A capacitação ao longo dos últimos 15 anos pode identificar, por exemplo, o número de casos registrados em 2010 (4485) e em 2025 (48846).

"O mais importante é o treinamento de equipe... uma equipe que saiba identificar o que é uma violência sexual, quando uma pessoa está numa situação de violência e está ali, muitas vezes, com vergonha de falar", afirmou a psicanalista.

Um desafio ainda a ser superado é o que Natália classifica como machismo institucional que ainda permeia o atendimento público. Nesse sentido, ela destaca a necessidade de “deixar para trás os preconceitos e toda a visão machista sobre o tema, para evitar que a mulher se silencie justamente no local onde deveria receber amparo”.

Crianças

A professora Ludmila Ribeiro demonstra mais preocupação com crianças de 0 a 5 anos.

“É um problema público dos mais graves, porque a gente está falando de uma violência que é perpetrada por pessoas da família, ou seja, por pessoas que têm acesso à casa dessa menina e são da confiança da família. Então, o sistema de saúde, nesse ponto, cumpre um papel ainda mais fundamental, porque essa menina pode não saber que está sendo vítima de violência, a mãe pode não saber que está sendo vítima de violência, mas vê que a menina está sempre com algum problema, alguma questão, uma ferida que nunca cicatriza, muito choro, e aí vai procurar o sistema de saúde. E é nesse momento que a mãe e a criança vão descobrir que está acontecendo algum tipo de violência ali dentro”, disse.

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Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.