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‘Quero o apartamento para mim’, disse suspeito de matar jovem na Savassi, em BH

Namorado de jovem encontrada morta disse isso para a amiga dela quando estava tentando convencê-la a escrever uma carta para ele ajuizar uma união estável

Por e 
Giovanna Neves Santana Rocha, de 22 anos, foi encontrada morta em 9 de fevereiro • Imagens enviadas à Itatiaia

“Quero o apartamento para mim". Foi isso que Adalton Martins Gomes, o namorado de Giovanna Neves Santana Rocha, encontrada morta em imóvel na Savassi, disse à amiga dela, conforme a própria amiga contou para a Itatiaia. Ela, que preferiu não se identificar, foi quem encontrou o corpo de Giovanna, de 22 anos, no dia 9 de fevereiro. A princípio, o caso foi interpretado como suicídio, mas contradições do namorado da jovem e o resultado do laudo de necropsia fizeram com que o ocorrido passasse a ser investigado como homicídio, segundo divulgado pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) nessa terça-feira (19). Adalton, de 45 anos, foi preso temporariamente na última sexta-feira (15) suspeito de ter cometido o crime. 

A amiga conta que, inicialmente, também acreditava que o caso se tratava de autoextermínio, visto que Giovanna tinha histórico de tentativas. No entanto, para ela, as coisas começaram a ficar estranhas a partir do enterro da jovem. “No velório em si, deixei claro que não queria ver [o corpo] porque estava muito abalada. Ele sabia que eu não queria ver. Ele foi me arrastando, me fez ver o corpo, e eu fiquei muito mais desestabilizada do que já estava.”

Além disso, a amiga relata que, logo após a morte da jovem, Adalton expressou o desejo de ajuizar uma união estável. Para isso, ele queria uma carta da amiga contando da relação dos dois. Ela relembra que ele disse: “Queria mostrar que a Giovanna foi amada, queria fazer uma união estável para ela saber que foi amada”. A amiga destaca que o namorado foi amável com ela quando falou, assim como ele era em grande parte da relação com a jovem, conforme contou a amiga. “Ele só demonstrou essa segunda face depois que ela morreu”, disse. 

A amiga conta que Adalton passou a cobrar o texto, dizendo até como ela deveria fazê-lo. “Ele queria que eu narrasse a convivência dele com a Giovanna, que ele pagava as contas, que ele pagava coisas pra ela, que viviam juntos”, contou. No entanto, a amiga afirma que depois de um tempo começou a estranhar a vontade de o homem querer fazer união estável, especialmente porque ele conhecia Giovanna há apenas quatro meses. 

“Não era o que ela queria. A Giovanna tinha planos de terminar esse relacionamento, ela não queria esse relacionamento para sempre ", disse. Segundo a amiga, a jovem queria até voltar com o ex-namorado. 

Ela afirma que tentou mostrar para Adalton, de forma gentil, que não era isso que a Giovanna desejava. “E aí ele começou a ficar mais insistente e até certamente meio agressivo. [Ele começou a falar] assim: ‘Não estou pedindo sua opinião, estou pedindo para você fazer. A casa era minha sim porque eu estava aqui com a Giovanna, eu vou atrás do apartamento porque eu quero o apartamento para mim, quero o dinheiro para mim’”. Segundo ela, foi essa frase que fez “a chave dela virar”. 

Versões diferentes

Desconfiada, a amiga conta que decidiu conversar com outras amigas de Giovanna, momento em que descobriram que o namorado havia contado versões diferentes para elas. “Para mim ele disse que a Giovanna tinha bebido demais, que tinha passado mal, pediu para dormir com ele de conchinha, dormiu falando que amava ele e que amanheceu morta e ele não percebeu”, conta. Para as outras amigas, Adalton teria dito que a jovem não tinha bebido ou falou que ela bebeu pouco. 

Além disso, ele teria dito para todos que Giovanna tinha morrido nos braços dele, conforme contou a amiga, que percebeu a contradição, já que ela encontrou o corpo, por volta de 14h30. A delegada  responsável pelo caso, Ariadne Elloise Coelho, também apontou a contradição. 

À imprensa, a delegada da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) contou que, desde o início, as amigas da vítima suspeitaram que o caso não se tratava de suicídio. Além disso, “em observância às tratativas internacionais e nacionais sobre morte de mulheres, não se pode descartar um possível feminicídio de antemão”, explicou ela, que é titular do núcleo especializado de investigação de feminicídios vinculado ao Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Laudo de necropsia

As suspeitas de que o caso não se tratava de autoextermínio se confirmaram com o laudo de necropsia, que indicou que houve asfixia por sufocação direta. “Houve obstrução externa dos orifícios respiratórios, seja por meio de um travesseiro, seja por meio das próximas mãos”, explicou a delegada.

Segundo Ariadne Elloise Coelho, há indícios que o homicídio teve motivações patrimoniais. A polícia também apura informações de que a jovem tinha cerca de R$ 200 mil para receber de uma negociação imobiliária. 

Suspeito preso 

Adalton, que é servidor concursado e formado em tecnologia da informação, foi preso na última sexta-feira (15) suspeito de ter matado Giovanna. De acordo com a delegada, a relação entre a vítima e o suspeito foi investigada. Foi constatado que eles começaram o namoro em outubro de 2025.  Segundo Ariadne Elloise Coelho, já no primeiro mês de relacionamento o suspeito se mudou para a casa de Giovanna, sem o convite dela, mas levando os pertences aos poucos. Logo no início ele também passou as contas do condomínio para o nome dele.

“As amigas, familiares e a mãe da vítima falam que ela mudou totalmente o comportamento a partir do momento que teve um relacionamento com o investigado. Ou seja, era uma menina interessada, engajada na questão acadêmica, fazia duas faculdades — uma de psicologia e outra de gestão da saúde — era vaidosa, tinha um engajamento muito forte no feminismo e, a partir do momento [que inicia o namoro], ela se retrai socialmente, muda até até o tipo de roupa que usa”, relatou a delegada responsável pelo caso.

A delegada afirma que Adalton passou a ter um certo controle sobre a vida da jovem. Segundo Ariadne Elloise Coelho, ele levava os filhos que tinha com outra mulher para o apartamento da vítima, mesmo ela não gostando.

Além disso, porteiros do prédio onde a vítima morava  relataram que, cerca de um mês após a morte da estudante, o homem passou a levar outras mulheres ao apartamento e teria impedido a entrada de pessoas ligadas à vítima no imóvel.

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Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.

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Jornalista formado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH). Na Itatiaia desde 2008, é "cria" da rádio, onde começou como estagiário. É especialista na cobertura de jornalismo policial e também assuntos factuais. Também participou de coberturas especiais em BH, Minas Gerais e outros estados. Além de repórter, é também apresentador do programa Itatiaia Patrulha na ausência do titular e amigo, Renato Rios Neto.

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Repórter policial e investigativo, apresentador do Itatiaia Patrulha.