Pai de Alice relata indignação após juíza desconsiderar transfobia: ‘Querem culpar a vítima’
Alice Alves morreu aos 33 anos após ser espancada por garçons de bar na Savassi, em BH; Arthur Caíque foi pronunciado e vai responder pelo crime em liberdade

Após a Justiça desconsiderar transfobia na morte de Alice Alves, o pai dela, Edson Alves Pereira, de 66 anos, disse ter recebido a decisão com “muita indignação". Alice Alves morreu aos 33 anos após ser espancada por garçons de um bar na Savassi, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Dois homens foram denunciados pelo crime, mas apenas Arthur Caíque foi pronunciado nesta quarta-feira (7).
O garçom vai responder pelo crime em liberdade. Willian Gustavo de Jesus do Carmo foi impronunciado, isso porquê a juíza entendeu que não há provas suficientes para submetê-lo ao júri neste momento. A magistrada ainda afirmou não ter encontrado elementos suficientes para concluir que Alice foi agredida em razão da sua condição de mulher trans.
Em entrevista à Itatiaia, o pai de Alice, Edson Alves, disse esperar que o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) recorra da decisão. “Eles tão querendo culpar a vítima. (...) Agrediu, não quer assumir a culpa, e nós estamos aqui sofrendo sem a presença da Alice e sem a assistência jurídica do estado”, afirmou.
Edson também disse que existem fatos concretos que comprovam as agressões e a autoria das agressões. “Estou muito indignado com tal fato. Queremos que o Ministério Público recorra e mantenha esse indivíduo preso porque ele é um risco para sociedade e tem que ficar preso até o julgamento”, pediu o pai da vítima.
A defesa de William comemorou a decisão. Em nota, a advogada do homem defendeu que ele foi indevidamente associado ao caso e injustamente exposto perante a opinião pública.
“A defesa de William Gustavo agradece ao Poder Judiciário pelo reconhecimento técnico da ausência de indícios de autoria e reafirma que continuará combatendo toda e qualquer acusação injusta ou sem lastro probatório”, escreveu em nota.
A Itatiaia entrou em contato com a defesa de Arthur Caíque, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno. O conteúdo será atualizada quando o posicionamento chegar.
Transfobia desconsiderada
A juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza excluiu as qualificadoras de feminicídio/transfobia e meio cruel que haviam sido apresentadas pelo Ministério Público, no caso Alice Martins Alves, mulher trans que morreu depois de ser espancada por garçons em Belo Horizonte.
A juíza afirma que não encontrou elementos suficientes para concluir que Alice foi agredida em razão da sua condição de mulher trans. Na mesma decisão, a magistrada revoga a prisão preventiva de Arthur Caique Benjamin de Souza, que vai responder em liberdade com tornozeleira eletrônica.
Já Willian Gustavo de Jesus do Carmo foi impronunciado, ou seja, a juíza concluiu que não há provas suficientes para submetê-lo ao júri neste momento.
O Ministério Público (MPMG) denunciou a dupla por feminicídio praticado por motivo fútil, com emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima.
A magistrada ainda citou depoimentos que apontam que: “o acusado foi criado por seu tio, que é homoafetivo e que Arthur jamais apresentou qualquer conflito relacionado a essa temática”.
Em outro trecho ela continua: "Além disso, o local dos fatos é um estabelecimento comercial no qual a maioria do público atendido é composta por pessoas da comunidade LGBTQI+, sem qualquer notícia de postura discriminatório ou odiosa do réu em relação a tais pessoas por qualquer motivo".
A juíza também ressaltou que o uso de pronomes masculinos pelo acusado, isoladamente, não é suficiente para configurar crime de ódio.
“Apesar de causar muita indignação uma pessoa ser agredida por valor tão ínfimo, que dificilmente causaria abalo na situação financeira de alguém, diante da situação apresentada, não vislumbro nos autos comprovação de que Alice tenha sido agredita em razão da sua condição de mulher trans, e sim em razão de um motivo que causa tanta tristeza quanto, que seria prejuízo financeiro insignificante”, aponta a decisão.
Qualificadora de meio cruel também foi retirada
A magistrada afastou a qualificadora de meio cruel. Segundo a decisão, a quantidade de golpes sofridos pela vítima, por si só, não comprova intenção específica de causar sofrimento excessivo ou prolongado.
No dia da agressão Alice sofreu lesões graves, incluindo costelas quebrada. Ela chegou a ir para o hospital mas foi liberada.
Segundo a Policia Civil de Minas Gerais, com o passar dos dias, o estado de saúde de Alice piorou. Ela perdeu cerca de 10 kg, teve dificuldade para se alimentar e sentia dores intensas.
No dia 8 de novembro, uma nova internação identificou uma perfuração no intestino, causada pelas agressões. Alice morreu pouco dias depois, em um hospital particular de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
A Justiça manteve duas qualificadoras:
- Motivo fútil;
- Recurso que dificultou a defesa da vítima.
A decisão aponta que Alice estava embriagada no momento das agressões, o que teria reduzido sua capacidade de reação.
Jornalista formada pelo UniBH, é apaixonada pelo dinamismo do factual e pelo poder das histórias bem narradas. Com trajetória que inclui passagens pelo Sistema Faemg Senar, jornal Estado de Minas e g1 Minas, possui experiência em múltiplas plataformas e linguagens. Atualmente, integra a redação da Rádio Itatiaia, onde acompanha os principais acontecimentos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo
Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu conteúdos para as editorias editorias Turismo, Gastronomia e Emprego & Concursos. Atualmente, colabora com as Minas Gerais, Brasil e Mundo.




