E se os imóveis antigos de BH voltassem a viver? IA recria espaços e arquiteto resgata história

Com ajuda da Inteligência Artificial, Felipe Martins, recria espaços fechados da capital e reacende memórias e debates sobre as possibilidades do que poderia ocupar ali

Imagens foram publicadas no peril @madeinbeaga, loja especializada em produtos artesanais e criativos feitos em Belo Horizonte

O uso de Inteligência Artificial (IA) tem ajudado a imaginar novos futuros para lugares que, apesar da arquitetura imponente, acabam passando despercebidos na rotina corrida após anos de portas fechadas em Belo Horizonte. Nas redes sociais, um arquiteto e designer fez essa provocação ao recriar digitalmente alguns desses espaços, resgatando memórias e mostrando como poderiam estar hoje: cheios de gente, com comércio e atividades culturais.

“A ideia surgiu assim, acho que foi espontaneamente”, contou Felipe Martins, fundador da marca Made In Beagá, que comercializa produtos que fazem referência à vida e à cultura belo-horizontinas e vem publicando nas redes sociais imagens de lugares hoje pouco usados ou fechados há anos.

“Eu vi as duas lojas lá da Praça Raul Soares (no Barro Preto, na Região Centro-Sul) - que foi a primeira postagem que a gente fez nesse sentido -, tirei foto e falei assim: ‘Ah, deixa eu testar aqui pela inteligência artificial. Deixa eu ver se vai conseguir, se a gente vai conseguir simular alguma coisa aqui’. Simulei e falei: ‘Ah, ficou legal, vou postar’”, disse.

E as publicações bombaram, com milhares de curtidas e “muito pano pra manga” sobre a ocupação - ou a falta dela - desses espaços, despertando curiosidade e levantando perguntas como: o que funcionava nesses endereços e desde quando estão fechados?

Entre os locais, a Itatiaia selecionou três emblemáticos: o prédio da Rua São Paulo, 325, no Centro; o antigo cinema da Avenida Cristóvão Colombo, 315, na Savassi (Centro-Sul); e a Casa Verde da Avenida do Contorno, 4.383, no bairro Serra (Centro-Sul), para contar suas histórias e no que se tornaram ao longo do tempo antes encerrarem atividades.

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Edifício projetado pelo arquiteto Ricardo Wriedt em 1925 na Rua São Paulo

Edifício azul na Rua São Paulo, 325

Na esquina entre as ruas São Paulo e Caetés, no hipercentro da cidade, os tapumes escondem a fachada do imponente edifício azul, que está fechado. De acordo com Ulisses Morato, doutor em Arquitetura pela Universidade de Lisboa e especialista em Construção Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o edifício foi projetado pelo arquiteto Ricardo Wriedt em 1925, em estilo eclético, e inaugurado em 1928.

“No local havia o importante Cine Teatro Comércio, que marcou o uso cultural da rua dos Caetés e da cidade, demolido para a construção do novo banco. O antigo Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais é uma das mais belas e imponentes construções ecléticas de Belo Horizonte”, disse.

Posteriormente, sediou o Banco Nacional e a Delegacia da Receita Federal. “Um dos destaques do prédio é a ornamentação das fachadas, com a presença da figura de Mercúrio (deus do comércio na mitologia romana), que segura um bastão com duas serpentes (caduceu), símbolo associado ao comércio e à contabilidade”, contou.

Ainda de acordo com o especialista, em 2019 o espaço foi anunciado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc-MG) para abrigar uma escola cívico-militar, mas o projeto foi abandonado em julho de 2023. “Antes disso, o edifício já havia sediado a Orquestra de Câmara do Sesc-MG. Atualmente, Sesc e PBH negociam a futura destinação do prédio”, disse.

A reportagem entrou em contato com o Sesc e com a PBH, mas não havia tido resposta até o fechamento do material.

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Casa verde na Avenida do Contorno, 4.383 (Villa Rizzi)

O major Antônio Zeferino da Silva construiu sua residência em 1929, na Avenida do Contorno, esquina com as ruas do Ouro e Pouso Alto, com projeto elaborado por Octávio Roscoe

Ulisses explicou que, em 1929, o major Antônio Zeferino da Silva construiu sua casa na Avenida do Contorno, esquina com as ruas do Ouro e Pouso Alto. O projeto, assinado por Octávio Roscoe e aprovado pela prefeitura em 7 de novembro daquele ano, seguia o estilo eclético tardio, parecido com o das pequenas vilas comuns na época. Por isso, o imóvel ficou conhecido como Villa Rizza.

“A construção apresenta cobertura formada por dois telhados perpendiculares de telhas francesas, duas janelas altas com elemento fixo na parte superior e um alpendre com telhado independente. A fachada é marcada por ornamentação geométrica, com faixas decorativas simples ou duplas emoldurando alguns elementos.”, disse.

O imóvel foi parcialmente demolido no início dos anos 1990, mesmo após ter sido tombado pela prefeitura, e parte dele acabou virando ruína. “Posteriormente, o imóvel abrigou restaurante, espaço de eventos, café e um posto de gasolina (com intervenção contemporânea nos fundos), quando pertencia à Petrobras Distribuidora, entre 2005 e 2019, ano em que foi leiloado pela distribuidora e adquirido por particular”, explicou.

Ulisses disse que não sabe se existem planos atuais para um novo uso do imóvel. A reportagem tentou contato com a Petrobras, mas não recebeu resposta até a publicação da matéria.

Antigo cinema na Avenida Cristóvão Colombo, 315

O arquiteto Raphael Hardy Filho projetou, em 1942, o imóvel em estilo Art Déco

Entre os imóveis que ganharam uma nova versão com ajuda da IA, este é o único que ainda está em funcionamento — mas com uso diferente do planejado: em vez de cinema (Cine Pathé), virou estacionamento. Segundo o arquiteto, o prédio foi projetado em 1942 por Raphael Hardy Filho, em estilo Art Déco, com fachada marcada por linhas e molduras típicas desse estilo.

Ulisses conta que Raphael Hardy Filho foi formado pela Escola de Arquitetura de Belo Horizonte (EABH) em 1937, na primeira geração de arquitetos formados na capital, e foi um dos responsáveis pela difusão da arquitetura moderna na cidade.

“Além de projetar diversas habitações unifamiliares e multifamiliares, foi responsável por edifícios icônicos em BH, como a sede do IPSEMG (atual Escola de Design da UEMG, na Praça da Liberdade), a sede da Usiminas (com István Farkasvölgyi e Álvaro Hardy), a Secretaria do Tribunal de Justiça, na rua Goiás, e o Edifício Helena Passig, na Praça Sete”, contou.

O Pathé foi inaugurado em 1948 e era conhecido como um cinema de arte, que exibía principalmente filmes europeus e produções independentes.

O cinema fechou suas portas em 1999 e atualmente abriga um estacionamento.

Tombamento protege a história dos imóveis

Apesar da importância histórica e arquitetônica, os três imóveis ainda não têm um novo uso definido. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), todos são bens culturais tombados pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município (CDPCM-BH), e a Secretaria Municipal de Política Urbana informou que não há projetos aprovados para esses endereços.

Ulisses explica que um imóvel é tombado quando o poder público reconhece que ele tem valor histórico ou arquitetônico importante para a sociedade. Por isso, ele passa a ser protegido por lei e não pode ser demolido ou alterado sem autorização.

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“Nesse sentido, todas as intervenções nesses imóveis necessitam de licenciamento junto ao órgão tombador (municipal, estadual ou federal), desde uma simples pintura até reformas e restaurações. O arquiteto é o profissional legalmente habilitado para conduzir projetos e obras de intervenção no patrimônio edificado tombado. Vale lembrar que um imóvel tombado pode ser vendido ou alugado, mas o proprietário tem o dever legal de mantê-lo em bom estado de conservação e pode, conforme a legislação, solicitar que os serviços sejam executados pelo poder público caso comprove não dispor dos recursos necessários”, explicou Ulisses Morato.

Para ajudar a bancar os custos de manutenção desses imóveis, a legislação prevê alguns benefícios, como isenção de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), acesso a recursos por meio de leis de incentivo à cultura, possibilidade de usar a Transferência do Direito de Construir (TDC) e até isenção da tarifa de energia usada na iluminação das fachadas, entre outros.

“O fato de não haver projetos de licenciamento em andamento para determinados imóveis tombados pode indicar a ausência de novas ocupações em curto prazo, mas não significa que algumas atividades não possam ser iniciadas nesses edifícios com suas configurações arquitetônicas atuais”, disse.

Imaginar para transformar a cidade

Para Felipe Martins, fundador da Made In Beagá, do ponto de vista do poder público, seria importante criar incentivos para a ocupação desses imóveis, como operações urbanas e limites no valor dos aluguéis. A ideia seria facilitar novos usos e, quem sabe, ver esses espaços ganhando vida novamente, como ele imaginou com a ajuda da tecnologia.

Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.

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