Caso Brumadinho: sobreviventes relatam fuga da lama e ausência de sirene no 4° dia de audiências

Motorista e operador descreveram momentos do rompimento da barragem e os impactos físicos e psicológicos após a tragédia que matou 272 pessoas

Sete anos após tragédia, Bombeiros encerraram buscas em Brumadinho e entraram em fase de desmobilização

O quarto dia de audiências da fase de instrução do processo criminal sobre o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, nesta sexta-feira (06), foi marcado pelos depoimentos de sobreviventes que relataram os momentos de fuga da lama e as consequências deixadas pela tragédia que matou 272 pessoas.

Um dos depoentes foi o operador de máquinas William Isidoro de Jesus, que trabalhava no empilhamento de vagões no dia do rompimento. Ele contou que havia acabado de retornar do refeitório quando ouviu gritos no rádio e percebeu a movimentação de colegas tentando fugir.

Segundo William, a lama chegou a alcançá-lo e atingiu a máquina que ele operava. O equipamento tombou, mas ele não ficou soterrado. “Só quem viveu aquilo lá sabe o que foi essa tragédia”, afirmou.

O operador disse que viu colegas soterrados e conseguiu ajudar a desenterrar um deles, identificado como Leandro, que também deveria depor nesta sexta-feira, mas se ausentou. William relatou ainda que não ouviu a sirene de emergência e que os pontos indicados como locais seguros também foram atingidos pela lama.

“A gente era operador de máquina, não tínhamos informações, apenas víamos movimentações de trabalho na barragem. Toda barragem a gente fica inseguro, quando vê movimentação é pior ainda”, disse.

Ele também contou que participou de treinamentos teóricos e simulados promovidos pela Vale em 2015, mas afirmou que não tinha acesso a informações sobre a segurança da barragem por causa da função que exercia.

Motorista subiu em tanque de caminhão

Outro sobrevivente ouvido foi Waldson Gomes da Silva, motorista de caminhão-tanque de uma empresa terceirizada. Ele relatou que chegou à mina por volta das 11h30 e ouviu o rompimento pouco depois do meio-dia.

Waldson contou que viu a lama avançando rapidamente e tentou fugir com o caminhão, mas acabou subindo no tanque do veículo para tentar se proteger.

Segundo ele, o caminhão foi atingido e arrastado por cerca de dez metros. “Se o caminhão não tivesse sido levado — se tivesse travado — ele ia tombar e jogar a gente na lama”, relatou.

O motorista disse ainda que viu dois conhecidos tentarem fugir em uma caminhonete, mas que eles não conseguiram escapar. Waldson também ajudou no resgate de um colega após o rompimento e foi retirado do local cerca de uma hora depois por um helicóptero do Corpo de Bombeiros.

Ele afirmou que não ouviu a sirene de emergência no momento do desastre e contou que, após a tragédia, ouviu de outras pessoas que havia manutenção sendo feita na barragem. “Ouvi de alguém, depois do acidente, que estavam fazendo uma manutenção na barragem e colocando drenos”, disse.

Waldson relatou ainda que sofreu uma lesão no pé e recebeu atendimento psicológico oferecido pela Vale, mas precisou pagar pelo próprio tratamento do ferimento. “Machuquei o pé, recebi assistência de psicólogo da Vale, mas tive que arcar com o tratamento do pé e não fui reembolsado”, afirmou.

A terceira testemunha prevista para depor nesta sexta-feira, Leandro Borges Cândido, não compareceu à audiência por abalo emocional.

As audiências fazem parte da fase de instrução do processo criminal, etapa dedicada à produção de provas e à oitiva de testemunhas e sobreviventes antes da decisão sobre os próximos encaminhamentos do caso. O cronograma prevê ao todo 76 sessões, que devem ocorrer até maio de 2027 no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), em Belo Horizonte.

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Graduado em jornalismo e pós graduado em Ciência Política. Foi produtor e chefe de redação na Alvorada FM, além de repórter, âncora e apresentador na Bandnews FM. Finalista dos prêmios de jornalismo CDL e Sebrae.

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