Falsas promessas, violência e ameaças: como Kat Torres escravizou mais de 20 jovens brasileiras nos EUA?
Ex-modelo e influenciadora foi condenada a oito anos de prisão por tráfico humano e escravidão; Kat usava a vida de glamour, passarelas internacionais e celebridades hollywoodianas para passar confiança e enganar as vítimas

Promessas de felicidade e sucesso, sessões de coaching, poderes espirituais, cartas de tarô e uma vida de glamour, confirmada por meio de uma foto com astro hollywoodiano Leonardo Di Caprio. A influenciadora Kat Torres usava desses artifícios para conquistar a confiança de dezenas de jovens brasileiras que sonhavam com uma vida melhor.
Investigada pelo FBI (polícia federal dos EUA), Kat foi presa nos Estados Unidos e deportada para o Brasil. No dia 28 de junho deste ano, a influenciadora foi condenada a oito anos de prisão por submeter uma dessas mulheres a tráfico humano e condições análogas à escravidão. Atualmente ela cumpre pena no Complexo Penitenciário Santo Expedito, em Bangu, no Rio de Janeiro.
Kat Torres criava vínculo de confiança com vítimas
Em um primeiro contato com as vítimas, Kat estabelecia uma relação de confiança com as jovens, que muitas vezes passavam por relacionamentos abusivos e problemas familiares. A influenciadora se apresentava como a solução de todos os problemas das seguidores.
Segundo a mulher, ela se sentiu atraída pela história da influenciadora, que teria saído de uma infância pobre, em uma favela de Belém (PA), para uma vida de glamour, em passarelas internacionais e festas com celebridades de Hollywood. "Ela dizia que já tinha superado vários relacionamentos abusivos e era justamente isso que eu tava buscando", contou Ana.
Influenciadora prometia ser capaz de ajudar a resolver 'qualquer problema'
Segundo o documentário, Kat Torres publicava vídeos nas redes sociais com conselhos sobre relacionamentos, bem-estar, sucesso nos negócios e espiritualidade, incluind hipnose, meditação e exercícios. Por S$ 150 adicionais (o equivalente a R$ 817), a influenciadora agendava consultas individuais com os seguidores. Ela afirmava ser capaz de resolver qualquer problema.
"Todas as minhas dúvidas, meus questionamentos, minhas decisões: sempre levava primeiro para ela, para que pudéssemos tomar decisões juntas", relatou Amanda, outra vítima de Kat Torres.
Porém, os conselhos da guru mudavam completamente a vida das jovens. A medida que Ana, Amanda e outras vítimas da influenciadora faziam as sessões individuais, elas se viam cada vez mais isoladas psicologicamente de amigos e familiares, e estavam dispostas a fazer tudo o que Kat dissesse.
Mudança para os EUA e o terror vivido
Ana morava em Boston, nos Estados Unidos e cursava faculdade de nutrição. Porém, Kat pediu que ela se mudasse para a casa dela em Nova York, em 2019. A ideia é que Ana trabalhasse como assistente da influenciadora, cuidando dos pets dela, além de lavar, cozinhar e limpar a casa. O salário oferecido era de US$ 2.000 (cerca de R$ 10.900).
Assim que chegou ao apartamento da influenciadora, Ana percebeu que as condições de trabalho eram bem diferentes. "Foi chocante porque a casa estava muito bagunçada, muito suja, não cheirava bem", diz ela.
Ana tinha que ficar a disposição da influenciadora o tempo todo. A estudante só podia dormir por algumas horas em um sofá com urina de gato. Para conseguir descansar melhor, Ana se escondia na academia do prédio e cochilava em colchonetes usados de exercício. "Agora vejo que ela estava me usando como uma escrava", diz Ana, que nunca foi paga pelo trabalho.
Brasileiras desaparecidas
Kat Torres começou a ser investigada pelo FBI, em setembro de 2022, após as famílias de duas brasileiras, Desirrê Freitas e Letícia Almeida, denunciarem o desaparecimento das jovens.

O esquema para recrutar as duas seguiu o mesmo padrão: Kat atraiu as jovens com promessas de uma vida melhor. Assim, Desirrê saiu da Alemanha, e Letícia do Brasil, e foram morar com a influenciadora.
À polícia, Desirrê contou que, poucas semanas após chegar em Nova York, a influenciadora a pressionou para trabalhar em um clube de strip. Caso a jovem não a obedecesse, a Kat disse que ela teria que devolver o dinheiro gasto com ela em passagens aéreas, hospedagem, móveis para seu quarto e até mesmo rituais de "bruxaria" feitos pela guru.
Com medo, a jovem cedeu à pressão. Ela conta que além de não ter o dinheiro para devolver para Kat, ela também acreditava nos poderes espirituais que a influenciadora dizia ter. À BBC, o gerente do clube de stip revelou que Desirrê trabalhava sete dias por semana, durante muitas horas por dia. A jovem também conta que era obrigada a entregar todo o dinheiro que ganhava para Kat.
"Muitas perguntas me assombravam: 'Será que eu poderia parar quando quisesse? E se a camisinha estourasse, eu pegaria alguma doença? Poderia [o cliente] ser um policial disfarçado e me prender? E se ele me matasse?", escreveu Desirrê em seu livro.
Kat nega as acusações
"Eu tive crises e mais crises de riso com tanta mentira que eu escutei. Todo mundo na sala podia ver que as testemunhas estavam mentindo. As pessoas me chamam de guru falsa, mas ao mesmo tempo elas falam: ela é muito perigosa. Cuidado com ela, porque ela pode mudar o que as pessoas pensam", afirmou à equipe de reportagem.
"Ainda não estou totalmente recuperada, tive um ano desafiador. Fui explorada sexualmente, escravizada e presa. Espero que minha história sirva de alerta", escreve Desirrê nas páginas finais do seu livro.
Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.


