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Como as mudanças climáticas transformam a Amazônia e o ciclo seca-fogo-degradação

Entenda os processos científicos que prolongam estações secas, intensificam incêndios florestais e ameaçam a biodiversidade na maior floresta tropical do mundo

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Fernando Frazão/ Agência Brasil

Cenários climáticos projetados para décadas à frente já se tornam realidade na Amazônia brasileira. Pesquisas científicas revelam transformações estruturais no ecossistema: estações secas que se estendem além do natural, padrões de chuva alterados e um ciclo perigoso que conecta seca, fogo e degradação florestal.

Esses processos não acontecem isoladamente. Eles formam uma cadeia de retroalimentação que enfraquece progressivamente a capacidade da floresta de se recuperar. Compreender essa dinâmica é essencial para entender os desafios climáticos que a Amazônia enfrenta e os riscos que eles representam para a biodiversidade, recursos hídricos e o equilíbrio climático global.

O prolongamento das estações secas na Amazônia

Estudos conduzidos por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) documentam mudanças significativas na duração das estações secas amazônicas. A região sudoeste da floresta, que abrange o Acre e partes do Amazonas e Rondônia, registra prolongamento da estação seca de quatro para até seis meses.

Esse aumento vem acompanhado de déficit hídrico que ultrapassa -150 milímetros no período. Em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, as projeções indicam déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século.

O estresse hídrico se intensifica especialmente entre junho e setembro. Esse agravamento produz maior instabilidade climática e eventos extremos fora do padrão sazonal tradicional.

O que é déficit hídrico e por que ele importa

O máximo déficit hídrico acumulado, conhecido pela sigla em inglês MCWD (*Maximum Cumulative Water Deficit*), representa um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais. Essa métrica mensura a diferença acumulada entre a água que entra no sistema (precipitação) e a que sai (evapotranspiração).

Quando o déficit aumenta e persiste por períodos prolongados, as árvores enfrentam dificuldades crescentes para manter suas funções vitais. Isso resulta em maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade.

A floresta também reduz sua capacidade de atuar como sumidouro de carbono. Esse efeito reforça um ciclo perigoso de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.

Modelagem climática e os caminhos socioeconômicos compartilhados

Para compreender cenários futuros, pesquisadores utilizam ferramentas sofisticadas de modelagem climática. Uma delas envolve os Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs, na sigla em inglês), avaliações desenvolvidas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

Essas modelagens incorporam dinâmicas regionais específicas, mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas. O objetivo é fornecer projeções mais precisas dos riscos climáticos que a Amazônia enfrenta.

Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca, sobretudo na porção sudoeste da floresta.

O ciclo seca-fogo-degradação e seus impactos

Análises de períodos de seca extrema entre 2023 e 2024 revelam um padrão preocupante. A seca intensifica a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação florestal.

Os dados mostram crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal. No pico da seca, até 4,2 milhões de hectares foram impactados por fogo.

Esse ciclo se fortalece progressivamente, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer. Segundo a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe, "estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente".

Degradação florestal versus desmatamento

É fundamental distinguir dois processos distintos que afetam a Amazônia. O desmatamento remove totalmente a cobertura vegetal, eliminando completamente a floresta de determinada área.

A degradação florestal, por sua vez, enfraquece a floresta sem destruí-la por completo. O fogo está cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento.

Esse processo de degradação produz impactos diretos sobre a floresta: maior mortalidade de árvores, perda de biodiversidade e redução da capacidade de armazenar carbono. A floresta permanece visualmente presente, mas perde progressivamente suas funções ecológicas essenciais.

A região sudoeste da Amazônia sob pressão

O sudoeste amazônico, que abriga áreas com mais de 90% de cobertura florestal, está sob forte pressão de desmatamento. A região compreende o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia.

As projeções indicam estações secas mais longas e intensas nessa área específica. O aumento do estresse hídrico entre junho e setembro agrava os riscos para um ecossistema já vulnerável.

Essa pressão combinada de mudanças climáticas e atividades humanas coloca em risco não apenas a biodiversidade local, mas também o reabastecimento de reservatórios naturais de água e o funcionamento geral da floresta.

Retroalimentação entre degradação e aquecimento global

Um dos aspectos mais críticos das mudanças climáticas na Amazônia é o ciclo de retroalimentação que elas criam. À medida que a floresta se degrada, sua capacidade de atuar como sumidouro de carbono diminui.

Árvores enfraquecidas absorvem menos dióxido de carbono da atmosfera. Quando morrem ou queimam, liberam o carbono armazenado ao longo de décadas. Isso intensifica o aquecimento global.

O aquecimento, por sua vez, agrava as condições de seca, estendendo estações secas e aumentando déficits hídricos. Esse círculo vicioso acelera a degradação florestal e pode levar a mudanças irreversíveis no ecossistema amazônico.

Governança integrada do fogo e sistemas de alerta

Pesquisadores destacam a necessidade de abordagens integradas para enfrentar esses desafios. A governança do fogo precisa reunir indicadores climáticos aos sistemas de alerta existentes.

Essa integração fortalece a coordenação institucional e permite incorporar a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação. Não basta combater incêndios isoladamente; é necessário compreender e intervir no ciclo completo.

Segundo a bióloga Liana Anderson, pesquisadora no Inpe, "é preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável".

Da ciência à ação prática

Iniciativas como o programa "Fogo em Foco" demonstram possibilidades de conexão entre pesquisa científica e ação prática. A parceria reúne forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) com instituições de pesquisa.

Essa aproximação permite aliar conhecimento científico com a realidade de quem atua na linha de frente. Estratégias de prevenção e combate se tornam mais eficientes quando fundamentadas em dados e modelagens climáticas.

Anderson destaca que "tentamos costurar ciência e ações na sociedade". Pesquisas sobre perdas econômicas derivadas do fogo, incluindo questões florestais, de saúde e impactos sociais, ampliam a compreensão dos custos reais da degradação amazônica.

O papel da comunidade científica
Cientistas enfrentam uma dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas e as respostas para sua mitigação e contenção. A mobilização da comunidade científica busca contribuir e mostrar alternativas.

Como observa Anderson, "a questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas". As projeções e os dados existem. O conhecimento sobre processos e riscos está disponível.

A crise climática abre oportunidades de repensar caminhos e acelerar iniciativas sustentáveis que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. O desafio está em traduzir esse conhecimento em políticas integradas e ações efetivas.

*com informações da Agência FAPESP

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