A imagem da prisão de Vitor Hugo Oliveira Simonin,
A frase “regret nothing” (não me arrependo de nada, em tradução livre para o português), propagada pelo influenciador Andrew Tate, coach assumidamente misógino com acusações de estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores na Romênia e no Reino Unido, tornou-se um lema para este núcleo chamado “machosfera”.
Segundo definição feita pela ONU Mulheres, “a machosfera é um termo guarda-chuva para comunidades online que têm promovido definições cada vez mais estreitas e agressivas do que significa ser homem, além de sustentar a falsa narrativa de que o feminismo e a igualdade de gênero ocorreram às custas dos direitos dos homens”.
A criação desse tipo de comunidade reforça a prática de misoginia, que pode ser entendida como o desprezo, o ódio, o controle e a aversão às mulheres, um conjunto de ideias e práticas culturais disseminadas predominantemente por homens, mas também por mulheres.
Red Pill
Uma subcultura da “machosfera”, como define o “Relatório do Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais”, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz referência a uma cena do filme Matrix (1999).
Na trama da ficção, um dos personagens oferece ao outro uma pílula azul e a outra vermelha: com a azul, o protagonista segue em um mundo de ilusões, sem “acordar para a realidade”, enquanto a vermelha mostra a “profundidade da toca do coelho”, uma realidade supostamente sem máscaras, mais próxima de uma “verdade oculta”.
Para os red pills, eles são pertencentes a uma parcela da população que optou pela “pílula vermelha da realidade” que, para este grupo, representa uma sociedade em que as mulheres carregam diversos privilégios em relação aos homens, enquanto os “blue pills” seguem submissos a essa suposta realidade.
Em 2025, 1.568 casos de feminicídio foram registrados no Brasil, uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Dentre as vítimas, 62,6% delas são mulheres negras e 66,3% das ocorrências foram dentro de casa.
Segundo a Procuradoria Especial da Mulher, desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas em razão da condição de sexo feminino.
Incel
A palavra incel, resultado da fusão das palavras “involutary celibate” (celibatário involuntário, em tradução livre para o portugês), representa um subgrupo que entende ser preterido pelas mulheres heterossexuais, que escolheriam homens apenas pelo que chamam de “lookismo”, a mera preferência por interesse físico e sexual.
Como resultado, esses
“Eu já aceitei que a Matrix já não me aceita, me rejeita, então, o que é que eu faço? Eu dou risada também. Antigamente, eu me machucava, mas hoje quando eu vejo as pessoas fazendo piadinha, eu rio também. Eu já recebi tantos xingamentos, tanto bullying na minha vida e chegou o momento que eu ‘coringuei’. Eu falei ‘dane-se’, eu não vou tentar me igualar às outras pessoas”, pontua o autor do comentário.
“Coringar” faz referência ao personagem Coringa, antagonista do Batman, famoso por rir em situações inadequadas, como de alta tensão, e pelos crimes praticados no decorrer da trama.
MGTOW
Uma sigla menos divulgada no cenário brasileiro, Men Going Their Own Way (MGTOW, homens seguindo o próprio caminho, em português), representa homens que acreditam que o movimento feminista fez com que mulheres prejudicassem o mundo dos homens.
Por isso, defendem que os homens devem adotar uma postura de autopreservação, priorizando o próprio desenvolvimento pessoal. Segundo o relatório da UFRJ, são comuns deste grupo
‘Machosfera’ possui estratégia para popularização
De 137 canais “red pills” no YouTube, segundo maior site da internet, mapeados pela UFRJ, 107 deles são comandados por homens e 66% dos produtores de conteúdo mostram os rostos nas redes sociais, como forma de criar identidade com o público que desejam alcançar. Mulheres são 3,5% das criadoras deste tipo de conteúdo.
Constantemente, os criadores de conteúdo criticam homens com posturas progressistas, que são acusados de fracos e submissos às companheiras. Os pesquisadores mostram que há, inclusive, termos específicos para se referir a esses homens, como “bentinho”, “beta”, “gado”, “escravoceta”, “mangina”, entre outros. Os membros deste grupo diminuído seriam parte da “blue pill”.
Enquanto isso, alguns vídeos promovem técnicas para se tornar um homem Alfa, Sigma, Moderno ou Ideal, que entendem ser características de um homem “red pill”, que busca entender esta suposta realidade masculinizada.
Dentre os temas abordados nas publicações desses canais, estão também assuntos como:
- Culpabilização e relativização da violência contra a mulher;
- Inferiorização e submissão feminina;
- Antifeminismo e ataques aos direitos das mulheres.
Um dos criadores de conteúdo viralizados no YouTube com este tipo de conteúdo é o Thiago Schutz, conhecido como
No título de seus vídeos, é possível observar diversas formas de diminuição do público feminino e com imagens que fazem convocações para os homens e determinam ações a se tomar com determinados “grupos de mulheres”.
Vídeos apresentam supostos comportamentos que homens deveriam ter em relação às mulheres, de acordo com a filosofia red pill
No levantamento de 2024 da UFRJ, 137 mapeados canais somavam 19.505.210 inscritos. Hoje, são 123 que acumulam mais de 23 milhões de inscritos, ou seja, houve um crescimento de aproximadamente 18,55%, com 3.618.086 novos inscritos.
Atualmente, os canais somam 130 mil vídeos publicados, 25 mil vídeos a mais que o número de 2024, quando somavam 105 mil publicações. Vinte desses canais mudaram de nome desde então, e alguns retiraram referências à “machosfera” dos títulos.
No momento da pesquisa inicial, em 2024, os 14 canais removidos somavam 1,37 milhão de inscritos.
Relembre o caso que ocorreu em Copacabana
O crime ocorreu dia 31 de janeiro. A vítima contou em depoimento que
A menor foi recebida pelo ex na portaria do prédio e disse que o encontro teria a presença de outras pessoas, mas a menor disse à polícia que não teria concordado com a proposta. Já no apartamento, ela teria sido obrigada a praticar atos sexuais com quatro jovens maiores de idade.
A vítima afirmou que também foi agredida e impedida de sair do quarto. O exame de corpo de delito confirmou lesões nas partes íntimas da menor. A polícia acredita que a adolescente foi vítima de uma emboscada.
A Justiça aceitou as denúncias do Ministério Público, e os quatro acusados vão responder por estupro coletivo qualificado, por se tratar de uma menor de idade e por manter a vítima em cárcere privado.
(Sob supervisão de Alex Araújo)