Carros elétricos usados vendem mais rápido que híbridos leves, aponta estudo
Levantamento da Indicata mostra que BYD Dolphin, King e Dolphin Mini lideram a liquidez entre modelos com até quatro anos; híbridos leves registram maior tempo de estoque e enfrentam pressão sobre os preços

O mercado brasileiro de veículos usados passa por uma mudança na percepção de risco de revenda. Embora a eletrificação esteja avançando, os diferentes tipos de motorização apresentam comportamentos bastante distintos em relação à desvalorização e à velocidade de comercialização. É o que aponta a edição de outubro de 2026 do relatório Market Watch, elaborado pela Indicata, empresa do grupo Autorola.
O levantamento mostra que os veículos híbridos leves (MHEV) enfrentam uma das situações mais desfavoráveis do mercado. O índice de preços no varejo dessa categoria caiu para aproximadamente 82 pontos, considerando janeiro de 2024 como base 100. A queda é de quase seis pontos em relação ao mesmo período do ano passado.

Além da desvalorização, os MHEVs apresentam dificuldade para encontrar compradores. O indicador Market Days Supply (MDS), que estima quantos dias seriam necessários para vender todo o estoque disponível considerando o ritmo atual de comercialização, chegou a 88 dias. É o maior prazo entre as motorizações analisadas.
Os carros elétricos (BEV), por outro lado, apresentam um cenário diferente. Apesar de também registrarem um índice baixo de preços, de 81,65 pontos, o tempo médio de estoque é de 55 dias. Isso indica que determinados modelos conseguem encontrar compradores rapidamente, mesmo em um cenário de pressão sobre os valores de revenda.
BYD lidera ranking de liquidez entre usados eletrificados
O destaque do levantamento está na presença de três modelos da BYD entre os veículos com até quatro anos de fabricação que apresentam o menor tempo de estoque.

O BYD Dolphin aparece na primeira posição, com MDS de apenas 29,9 dias. Na sequência está o BYD King, híbrido plug-in, com 31,3 dias. O Dolphin Mini completa o ranking, com 34,7 dias.
O resultado demonstra que os modelos eletrificados mais acessíveis já conquistaram espaço no mercado de usados. Segundo a Indicata, o interesse está relacionado também ao menor custo de utilização, principalmente em trajetos urbanos e para motoristas profissionais, incluindo aqueles que trabalham com aplicativos de transporte.

Entretanto, o giro rápido não significa necessariamente menor desvalorização. O relatório ressalta que a liquidez precisa ser analisada separadamente da preservação do valor de revenda.
Híbridos convencionais mantêm estabilidade
Entre as tecnologias eletrificadas, os híbridos convencionais (HEV) apresentam o comportamento mais equilibrado. O índice de preços está em 89,82 pontos, ligeiramente acima do registrado em outubro de 2025. O tempo médio de estoque permanece próximo de 61 dias.

Já os híbridos plug-in (PHEV) enfrentam maior pressão. O índice de preços caiu para 83,64 pontos, enquanto o MDS aumentou de aproximadamente 67 para 71 dias em um ano. Dessa forma, a categoria combina perda de valor com maior dificuldade de comercialização.
O estudo indica que não é mais possível tratar todos os veículos eletrificados como um único grupo na avaliação de risco. A geração, o segmento, o preço de compra e a aceitação de cada modelo influenciam diretamente o desempenho no mercado de usados.
Carros flex dominam mercado de usados
Entre os veículos com motor a combustão, os modelos flex continuam dominando as vendas brasileiras. Eles representam 81,01% das comercializações e 78,64% do estoque disponível.
O índice de preços dessa categoria está em 100,29 pontos, praticamente estável na comparação anual. O tempo médio de estoque permanece próximo de 61 dias.

O cenário é diferente para veículos exclusivamente a gasolina e a diesel. Os primeiros registram índice de preços de 90,77 pontos e MDS de aproximadamente 78 dias. Já os modelos a diesel apresentam índice próximo de 92 pontos e tempo médio de estoque de 74 dias.
Entre os modelos com até quatro anos de uso mais vendidos em volume, o Chevrolet Onix registra MDS de 52,9 dias, seguido pelo Volkswagen Polo (48,6 dias), e Hyundai HB20 (50,5 dias).
Mercado de usados fica mais jovem
Outro dado relevante do relatório é a mudança na idade dos veículos comercializados. Os modelos com até dois anos de uso representam 37,75% das vendas de usados, contra aproximadamente 34% um ano antes. Em contrapartida, a participação dos automóveis com cinco anos ou mais caiu para 42,80%.
Apesar do aumento da presença de veículos mais novos, o mercado apresenta sinais de desaceleração. O crescimento acumulado das transações de usados passou de 7,7% até o fim de julho para 5,4% até o encerramento de setembro.

A Indicata também destaca o avanço dos eletrificados no mercado de zero quilômetro. Em setembro de 2026, eles representaram 19,8% dos emplacamentos de veículos leves, contra 9,2% no mesmo mês de 2025. O cálculo considera elétricos, híbridos plug-in e híbridos convencionais, sem incluir os híbridos leves.
As vendas diretas responderam por 49,1% dos emplacamentos de veículos novos no período, incluindo compras corporativas e de frotas. Parte desses automóveis deverá chegar gradualmente ao mercado de usados nos próximos anos.
Para a consultoria, esse movimento exigirá maior atenção de concessionárias, locadoras e instituições financeiras na avaliação dos valores residuais. A conclusão é que o risco de desvalorização já não depende apenas do tipo de combustível, mas também da tecnologia empregada, da idade e da aceitação comercial de cada modelo.
Guilherme Silva gosta do meio automotivo desde que se conhece por gente, mas começou a trabalhar no setor por acaso. São mais de 15 anos de experiência na área, com passagens por iCarros, Carsale, Webmotors, KBB e Mobiauto, além de ter colaborado com as tradicionais revistas Autoesporte, Motor Show e Quatro Rodas, produzindo matérias de diferentes temas e cobrindo eventos e salões no Brasil e no exterior.



