‘Valor do litro de leite não compra um copo de água mineral’, diz produtor
Produtores de leite presentes no evento ‘Minas Grita pelo Leite’, no Expominas, na última segunda-feira (18) relatam como o excesso de importação do produto tem impactado suas produções

Carlos Aurélio Ferraz Veneno é produtor rural em Almenara, no Vale do Jequitinhonha, distante 750 km da capital mineira. Ele também preside o Sindicato Rural da cidade que tem pouco mais de 70 associados. No último domingo (18), ele fretou um ônibus de turismo com 40 produtores da região e encarou mais de 15h de estrada com destino a Belo Horizonte. Eles e outros cerca de 7 mil produtores rurais de várias partes do Estado vieram participar do “Minas Grita pelo Leite”, evento organizado pela Federação da Agricultura de Minas Gerais (Faemg), para protestar contra o excesso de importação de leite em pó no país.
“Em todo o mundo, o leite destinado à importação é subsidiado. Não temos como competir com essa realidade”, disse Carlos. Segundo ele, o preço médio pago pelo litro do leite na região varia entre R$ 1,50 e R$ 1,80. “Ou seja, o valor de um litro de leite proveniente de um animal, que é um ser vivo e precisa ser cuidado, alimentado e vacinado, não compra um copo de água mineral”, disse o presidente, acrescentando que essa realidade impacta diretamente na autoestima do produtor e até mesmo em sua sobrevivência.

Percepção semelhante tem Frank Barroso Mourão, que também é produtor rural, vice-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Sabinópolis, na região do Serro, e presidente da Comissão Técnica do Queijo Minas Artesanal da Faemg. “Recentemente, percorremos as 15 regiões produtoras de QMA do Estado e as reclamações de prejuízos, desânimo e baixa autoestima estão em toda parte. Os produtores não conseguem pagar suas contas e estão no ‘negativo’ há 15 meses. A reserva de bezerros e vacas está sendo vendida para pagar os custos do dia a dia. E ainda há empréstimos bancários a vencer. Não é conversa. Eles estão mesmo vendendo o gado para quitar dívidas e as propriedades estão sendo abandonadas”, relatou, Frank. “Se nada for feito, a médio ou longo prazo, vai faltar leite”, avisa.
Grande produtora também não consegue pagar custo total

No outro extremo do Estado, em Boa Esperança, sul de Minas, a produtora Beatriz Pacheco relata que o preço médio do leite a R$ 2,00 paga apenas o custo operacional, não cobrindo as despesas com a recria de animais e investimentos em tecnologia e outras estruturas na propriedade. Quarta geração produtora de leite em sua família, ela tira cerca de 10 mil litros de leite/dia e, portanto, não se enquadra na categoria de pequena produtora. “Quando você entrega um volume maior de leite para o laticínio, ele acaba remunerando melhor. Mas a situação é tão grave que, mesmo a gente tendo uma vantagem competitiva, o valor recebido não cobre o custo total”. Beatriz disse que ainda se mantém na atividade pela aptidão da fazenda, tradição familiar e todo um montante de investimentos feitos ao longo de anos’. “Só não sei por mais quanto tempo vamos conseguir segurar”.
Diretor se solidariza e entende situação dos produtores
João Ferreira Neto é amigo de Beatriz e diretor da Cooperativa dos Produtores de Leite de Boa Esperança (Capebe). Presente ao ‘Minas Grita pelo Leite’, ele lembrou que o último mês de fevereiro foi o que o Brasil mais importou leite, do ano passado pra cá. “Ou seja, a coisa só piora. A rentabilidade do produtor está seriamente afetada. Eu me solidarizo e me preocupo muito com eles”.
De acordo com João, a Capebe recebe leite, hoje, de 200 produtores e a remuneração é definida de acordo com o volume entregue e as variáveis de CBT (contagem bacteriana total) e CCS (contagem se células somáticas) gordura e proteína. São 200 famílias que trabalham assiduamente, de domingo a domingo, fazendo ordenhas de manhã e à tarde. “Quando uma dessas propriedades deixa de funcionar, a família, em geral, vai para a cidade e isso não é interessante para ninguém. Impacta o sistema de saúde, a segurança pública. Eu espero que o Governo Federal olhe para esse problema com mais carinho”.
Mão de obra é outro desafio e também desanima
Próximo a Sabinópolis, no Serro, na região de mesmo nome, Roberto de Castro, o “Maravilha” é exemplo de produtor que já deixou a atividade leiteira. Ele produzia um Queijo Minas Artesanal com Selo-Arte e entregava nas melhores lojas de queijo do Mercado Central em Belo Horizonte. Mas, nesse caso, o preço pago pelo litro do leite na região - cerca de R$ 2,50 - não foi o fator determinante e sim a dificuldade de encontrar mão de obra especializada. “Enquanto eu dei conta, eu fiz. Agora, aos 70 e poucos anos, não consigo mais e não se encontra gente disposta a fazer com seriedade e comprometimento. Esse país não tem desemprego, tem gente que não quer trabalhar”, desabafou.
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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.



