Rentável e dócil: criação de búfalos ganha força e se destaca na Megaleite 2026
Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB) traz dinâmica prática, degustação de produtos e debate sobre a viabilidade econômica da espécie na maior feira do leite da América Latina

A robustez e as vantagens econômicas da bubalinocultura ganham destaque na 21ª edição da Megaleite 2026, aberta oficialmente nesta terça-feira (2) no Parque da Gameleira, em Belo Horizonte. Organizada pela Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, a feira — principal vitrine do agronegócio do leite na América Latina — reforça sua proposta de integrar diferentes segmentos do setor ao abrir espaço estratégico para a Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB).
Instalada no estande P-34 (Galpão B-1), a ABCB estruturou uma programação robusta com recepção ao público, palestras técnicas, encontros setoriais e degustação de queijos e carnes de origem bubalina. No pavilhão, 50 argolas abrigam os animais, permitindo que criadores, estudantes e técnicos vejam de perto as aptidões da espécie.
De acordo com Celso Menezes, superintendente executivo da Girolando, a inclusão destaca a visão macro da feira sobre a cadeia produtiva nacional. "A bubalinocultura não poderia ficar de fora deste que é o principal evento do agronegócio do leite na América Latina. O Brasil tem aproximadamente 2 milhões de búfalos, sendo mais de 200 mil cabeças destinadas à pecuária leiteira", afirmou Menezes.
O trunfo da proteína e a dinâmica prática
Pelo quarto ano consecutivo marcando presença no evento, a ABCB aposta em novidades interativas para atrair o público. O presidente da associação, Simon Riess, ressaltou que o grande diferencial competitivo do búfalo está alinhado com a demanda global por alimentos de alto valor nutricional.
"Para nós é um prazer estar mais um ano, pelo quarto ano seguido, para poder apresentar todas as raças, a docilidade do nosso animal e mostrar o potencial da espécie. Trouxemos para este ano uma dinâmica dentro do pavilhão apresentando para os criadores, e até para quem é curioso, o tratamento com os bezerros e a realidade de campo", explicou Riess à Itatiaia.
O presidente enfatizou o apelo de mercado dos derivados: "Hoje o mundo está ligado à proteína, e a gente sai em destaque porque naturalmente os nossos produtos, tanto o leite quanto a carne [de búfala], têm uma maior expressividade nesse nutriente. Esse é o grande diferencial que a cadeia pode trazer para todo mundo".
Menos volume, mais sólidos: a conta fecha para o produtor?
Uma das principais dúvidas de quem planeja ingressar na atividade diz respeito ao volume produtivo do búfalo em comparação com as vacas leiteiras convencionais. Segundo Renato Amaral, superintendente técnico da ABCB, a resposta está no rendimento industrial e no valor pago pelo litro do leite.
"O búfalo é uma alternativa viável para você ter uma produtividade economicamente vantajosa. Em volume geral, ele produz menos que o bovino. Mas ele compensa porque o leite de búfala tem mais sólidos. Na indústria, você precisa de praticamente metade do volume de leite de búfala para fazer 1 kg de queijo, comparado ao bovino. Por isso, o preço pago ao produtor é maior", esclareceu Amaral.
O superintendente técnico também detalhou a geografia e a genética da espécie no país:
- Maiores rebanhos: Região Norte (Pará, Maranhão e Amazonas).
- Maior bacia leiteira: Região Sudeste (liderada por São Paulo e Minas Gerais).
- Raças registradas: Carabao (focada em tração no Norte); Jafarabadi (trabalhada para corte e leite); além de Murrah (origem indiana) e Mediterrânea (origem italiana), as duas últimas amplamente predominantes na produção leiteira.
Para quem está indeciso, o conselho do técnico é direto: "Estude, visite várias propriedades. Normalmente os criadores de búfalos são muito abertos para receber. Tenha conhecimento técnico e venham criar búfalo, que eu aconselho".
De produtor de Girolando a entusiasta do búfalo: um caso de sucesso
O preconceito em relação ao temperamento dos búfalos — muitas vezes retratados em vídeos na internet como animais bravos ou difíceis de conter — cai por terra quando se observa o manejo correto.
O criador Marcelo Pimenta Mascarenhas, que hoje produz quase 5.000 litros de leite por dia divididos em três propriedades, já acumula quase 40 anos de trajetória na atividade leiteira. Durante a maior parte dessa história, ele lidou exclusivamente com a raça bovina Girolando, até iniciar a migração para a bubalinocultura em 2010, impulsionado por sua atuação no mercado de consultoria técnica.
"Eu sempre fui produtor de leite, há mais de 40 anos. Eu trabalhava com Girolando e, em 2010, através dos dados, das informações e das conversas com um cliente da nossa empresa de consultoria que havia transformado seu rebanho todo, vi que era uma atividade interessante. Então, resolvemos começar com o búfalo como uma segunda atividade", contou Marcelo.

O que começou de forma tímida logo provou seu valor no bolso e na rotina do campo, fazendo com que o produtor e seu sócio mudassem em definitivo os rumos do negócio.
"A gente cresceu aos poucos. Até que fizemos a conta e, vendo o dia a dia das duas atividades, resolvemos terminar com o rebanho de gado bovino leiteiro e ampliamos a criação de búfalo até chegar ao que está hoje", explicou. "A pecuária bovina leiteira também é muito rentável quando bem feita. No nosso caso, optamos pelo búfalo porque é um manejo mais tranquilo, um animal mais rústico e que tem um custo de produção mais baixo. Nosso sistema é baseado em pastagem, quase que exclusivamente a pasto, com suplementação na seca".
Sobre o mito da agressividade, Marcelo é enfático ao defender a docilidade do rebanho: "O preconceito não é totalmente infundado porque tem muita gente que cria mal, com deficiência nutricional. O búfalo com fome, ou sem acesso à água, que ele tanto gosta, pode dar problemas. Mas quando é bem cuidado, como os animais que estão aqui na feira, eu posso afirmar: ele é muito mais fácil e muito mais dócil do que a média dos rebanhos bovinos. Além de prazeroso, tornou-se um negócio altamente rentável e lucrativo para nós", concluiu Mascarenhas.
A Megaleite 2026 segue com portões abertos até sábado (6), consolidando a inserção dos búfalos como uma realidade robusta, sustentável e lucrativa para o ecossistema leiteiro nacional.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde

























