Pesquisa avalia efeitos de nanopartículas de prata na agricultura
Estudo da Embrapa avaliou efeitos das partículas em microalga e sementes de alface como bioindicadores

As nanopartículas de prata vêm ganhando espaço na agricultura por suas propriedades antimicrobianas e pelo potencial de aplicação no controle de microrganismos que causam doenças em plantas. Ao mesmo tempo, o uso desses materiais levanta questões sobre seus possíveis impactos no ambiente. Para avaliar esses efeitos, pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente estudaram a ação de nanopartículas de prata sobre uma microalga e sementes de alface, organismos utilizados como bioindicadores ambientais.
As nanopartículas de prata, também conhecidas como AgNP, apresentam propriedades ópticas, elétricas, térmicas e antimicrobianas. Na agricultura, podem ser empregadas em formulações destinadas à desinfecção de sementes e ao controle de doenças causadas por bactérias. No entanto, depois de utilizadas, essas partículas podem chegar ao solo e à água, tornando importante conhecer seus efeitos sobre organismos presentes nesses ambientes.
Apesar do potencial de aplicação da AgNP na agricultura, sua utilização também pode representar riscos aos ecossistemas aquáticos, podendo afetar organismos não-alvo, incluindo peixes, plantas, crustáceos e microrganismos, entre outros. Entre os efeitos adversos relatados estão o estresse oxidativo, alterações histopatológicas, distúrbios fisiológicos e reprodutivos, além de possíveis alterações na estrutura e no funcionamento das comunidades microbianas.
Microalga e alface como bioindicadores
Para avaliar a resposta dos organismos às nanopartículas, os pesquisadores utilizaram a microalga unicelular Pseudokirchneriella subcapitata e sementes de alface. A microalga é utilizada em estudos de ecotoxicologia aquática, enquanto a alface pode ser empregada como bioindicador em avaliações relacionadas a ambientes úmidos.
Os resultados mostraram que o efeito das nanopartículas depende da concentração. Em doses mais baixas, entre 0,1 e 1,0 miligrama por litro, foi observada bioestimulação do crescimento da microalga. Nas sementes de alface, uma das respostas observadas foi o alongamento das raízes na concentração de 0,01 miligrama por litro. Quando aplicada em baixas concentrações (40 mg por litro de solução de pulverização ou 40 g/ha através da água de irrigação), a AgNP deixa de agir apenas como um agente antimicrobiano e passa a funcionar como um bioestimulante vegetal.
Nos estudos realizados com os dois bioindicadores, o aumento da concentração levou a efeitos inibitórios. Para avaliar essa resposta, os pesquisadores calcularam a concentração efetiva média, conhecida como EC50, que indica a concentração capaz de provocar uma redução de 50% na taxa de crescimento do organismo avaliado.
Na microalga, a EC50 foi de 3,67 miligramas por litro após 168 horas de exposição. Para a alface, o valor foi de 35,31 miligramas por litro após 96 horas. Os resultados indicam, portanto, maior sensibilidade da microalga às nanopartículas de prata nas condições avaliadas.
Resultados ajudam a estabelecer limites ambientais
O estudo também determinou a concentração sem efeito observado, conhecida pela sigla NOEC (No Observed Effect Concentration). Esse parâmetro corresponde à maior concentração testada na qual não foram observados efeitos estatisticamente significativos sobre os organismos avaliados.
Para Pseudokirchneriella subcapitata, o valor encontrado foi de 0,58 miligrama por litro. Para Lactuca sativa, foi de 1,45 miligrama por litro. Segundo os autores, essas informações podem contribuir para a definição de níveis máximos permitidos de nanopartículas de prata em sistemas aquáticos e em áreas próximas a esses ambientes.
O trabalho foi realizado por Claudio Jonsson, Rodrigo Castanha, José Henrique Vallim e Vera Castro, da Embrapa Meio Ambiente. Foi publicado na revista Asian Journal of Agricultural and Horticultural Research, em maio de 2026.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



