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Pantanal terá cheia abaixo da média, mas com impacto positivo no campo

Embrapa aponta recuperação parcial dos rios na Bacia do Alto Paraguai e benefício para a pecuária bovina

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Pantanal
Raquel Brunelli / Embrapa

A Bacia do Alto Paraguai (BAP) deve recuperar parcialmente os níveis dos rios durante a estação chuvosa de 2025–2026 (outubro a março). Entretanto, o montante ainda é insuficiente para restabelecer uma cheia próxima ao padrão histórico sazonal do Pantanal. A cheia parcial beneficiará, principalmente, a pecuária bovina.

Segundo o pesquisador Carlos Padovani, da Embrapa Pantanal, essa cheia não deverá prejudicar a navegação e as atividades que dela dependem, como o transporte de cargas e o turismo. Além disso, a pecuária bovina praticada nas áreas próximas ao Rio Paraguai será beneficiada. "Nessas áreas, os solos mais férteis e a boa disponibilidade de água favorecem o desenvolvimento das pastagens nativas, principal fonte de alimento dos animais".

Por outro lado, a ocorrência de uma cheia pequena é desfavorável à produção pesqueira. Sabe-se que a produção de peixes em ambientes inundáveis como o Pantanal é dependente da altura e tempo de permanência da inundação. De acordo com dados de pesquisas da Embrapa Pantanal, cheias grandes e de longa duração significam maior produção pesqueira.

O estudo compõe a dissertação de mestrado “Modelos de aprendizado de máquina para predição de dinâmicas populacionais de plantas daninhas em sistemas ILP”, desenvolvida por Gomes Luz na Univali, sob a orientação de Oliveira e da professora Anita Maria Fernandes.

A pesquisa aponta a necessidade de práticas sustentáveis na produção alimentícia para atender ao crescimento populacional. “Estima-se que, até 2050, a população mundial será de 9 bilhões de pessoas. Nesse contexto, entre os diversos obstáculos enfrentados na produção agrícola, destacam-se as plantas daninhas. Existem diferentes métodos de manejo para o controle dessas pragas e, atualmente, o controle químico é o mais utilizado. Contudo, ao mesmo tempo em que se procura aumentar a produção de alimentos, busca-se também reduzir a poluição ambiental causada pelos herbicidas”, explicou o pesquisador Ramon Costa Alvarenga, responsável por sistemas ILP na Embrapa Milho e Sorgo.

Irregularidade das chuvas

Os dados da pesquisa indicam que a estação chuvosa de 2025–2026 promoveu uma recuperação parcial na Bacia, mas não suficiente para reverter o déficit acumulado desde 2019. A cheia observada em 2026 caracteriza-se, portanto, como inferior ao padrão sazonal histórico, refletindo tanto a irregularidade das chuvas recentes quanto a condição antecedente do sistema.

Na estação fluviométrica de Ladário (MS), referência para o monitoramento da planície pantaneira, o nível observado foi de 1.95 metros em 19 de abril deste ano. Esse valor corresponde a uma cheia cerca de 1,2 metro abaixo da mediana histórica para a data, estimada em aproximadamente 3,18 metros. Essa diferença evidencia um desvio significativo em relação ao comportamento típico do sistema para o período.

Segundo Padovani, a análise das chuvas de toda a Bacia do Alto Paraguai/Pantanal (nos estados de MT e MS), da série histórica de 1981 a 2026, mostra que o acumulado entre outubro de 2025 e março de 2026 foi cerca de 10% a 12% inferior à média e à mediana histórica da série para toda a BAP.

“Além do déficit acumulado, observa-se forte irregularidade intra-sazonal, com destaque para o mês de janeiro de 2026, que apresentou anomalia negativa expressiva (pouca chuva), contrastando com fevereiro, quando houve recuperação pontual das chuvas”, detalhou Padovani..

Esse padrão indica que, embora não tenha ocorrido um colapso pluviométrico, a distribuição temporal das chuvas foi insuficiente para sustentar um pulso de inundação contínuo e espacialmente integrado na bacia. “No contexto hidrológico do Pantanal, a geração de cheias depende não apenas do volume total precipitado, mas da persistência das chuvas ao longo de extensas áreas do planalto e da sincronização das contribuições hidrológicas”, explicou o pesquisador.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.