Cientistas criam ‘biofábrica’ de colágeno para salvar jumentos da extinção no Brasil

Pesquisa inédita da Universidade Federal do Paraná (UFPR) utiliza fermentação de precisão para produzir matéria-prima de US$ 1,9 bilhão exigida pela China

Fermentação de precisão utiliza micro-organismos geneticamente modificados

Uma tecnologia desenvolvida no Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) promete transformar o futuro dos jumentos no Brasil. Com o uso de fermentação de precisão, pesquisadores conseguiram criar em laboratório o colágeno idêntico ao extraído da pele desses animais, atendendo à crescente demanda da indústria de beleza e saúde chinesa sem ameaçar a sobrevivência da espécie.

Após concluir as etapas laboratoriais de bancada em 2025, a equipe busca captar US$ 2 milhões para escalar a produção em biorreatores e validar o processo em nível industrial.

‘Corrida’ contra a extinção

O cenário para a espécie no Brasil é crítico. Dados da FAO e do IBGE revelam que a população de jumentos no país despencou 94% entre 1996 e 2024. “De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, alerta Patricia Tatemoto, coordenadora da pesquisa e PhD pela USP.

Atualmente, o abate ocorre de forma extrativista para alimentar o mercado de ejiao — uma gelatina da medicina tradicional chinesa. O setor de ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de dobrar de valor até 2032. A técnica brasileira surge como a única alternativa capaz de suprir esse mercado bilionário sem levar a espécie ao desaparecimento total.

Como funciona a tecnologia

A fermentação de precisão utiliza micro-organismos geneticamente modificados para produzir proteínas específicas.

  • Biofábrica: O DNA do colágeno do jumento é inserido em uma levedura.
  • Processo: Semelhante à produção de cerveja, a levedura passa a produzir a proteína em grandes quantidades dentro de biorreatores.
  • Vantagem: O produto final é altamente purificado e dispensa fazendas, pastagens e o abate de animais.

“Já avançamos nas etapas mais complexas. Agora estamos prontos para transformar a levedura em uma biofábrica”, explicou Carla Molento, coordenadora do laboratório.

Impacto econômico e sustentabilidade

A produção em laboratório é considerada muito mais eficiente que o modelo convencional. Em um único galpão com biorreatores, é possível produzir volumes superiores de proteína com menos insumos e impacto ambiental reduzido.

O objetivo dos pesquisadores é apresentar a “prova de conceito” (produção das primeiras miligramas integrais) até dezembro de 2026. Se o investimento de US$ 2 milhões for concretizado, a produção em escala piloto poderá ser iniciada já em 2027, permitindo a transferência da tecnologia para o mercado global no modelo B2B (venda para empresas que fabricam os produtos finais).

O projeto conta com financiamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência mundial em proteínas alternativas.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde

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