Café especial ganha espaço no Sul de Minas e produtores apostam em agricultura regenerativa
Casal que vive há mais de quatro décadas da cafeicultura conta como a produção mudou, os desafios provocados pelo clima e o crescimento do interesse dos consumidores por cafés de qualidade

O café especial vem ganhando cada vez mais espaço entre os consumidores brasileiros e mudando a rotina dos produtores no Sul de Minas. Na Fazenda dos Tachos, em Varginha, a família deixou para trás a produção voltada exclusivamente para o mercado de commodity e, desde 2008, investe na produção de cafés especiais.
A história da propriedade começou ainda no século XVIII. A fazenda existe desde 1780, mas o cultivo de café só começou no início do século XX. Hoje, Adelino e Zezinha representam uma geração de produtores que acompanhou de perto as transformações da cafeicultura.
Casados há 48 anos, os dois se conheceram justamente por causa do café e continuam trabalhando juntos na atividade.
“Até 2008 nós trabalhávamos com commodity. A partir daí passamos a trabalhar com cafés especiais. A gente sabia que a nossa região é muito propícia para café”, conta Adelino.
Consumidor quer novas experiências
A mudança na produção também acompanha uma transformação no comportamento de quem consome café. Segundo o produtor, o público está mais interessado em conhecer diferentes variedades e experimentar cafés com características próprias.
“Cada vez mais as pessoas estão querendo novidades, variedades novas, variedades exóticas, cafés exóticos”, afirma. O crescimento do mercado de cafeterias também ajuda a aproximar o produto de um público mais jovem.
“Os jovens estão indo para tomar café, bater papo, se reunir na cafeteria. Isso foi uma evolução, porque o café especial vai ganhando terreno dia após dia”, destaca Adelino.
Na Fazenda dos Tachos, os consumidores podem encontrar os produtos principalmente pelas redes sociais. A propriedade mantém um perfil no Instagram e também possui divulgação por meio da Emater.
Clima é um dos principais desafios
Apesar do avanço do mercado de cafés especiais, produzir café continua sendo uma atividade marcada por riscos. Adelino afirma que as condições climáticas estão entre os principais problemas enfrentados pelos produtores.
“Você faz uma programação e, de repente, vem um fenômeno e desestrutura tudo”, explica.
O produtor cita uma sequência de eventos adversos desde 2021, como geadas, chuvas de granizo e períodos de seca. Mesmo sem ter sofrido diretamente com a geada por causa da altitude da propriedade, a lavoura sentiu os efeitos das condições climáticas na produção e na florada.
“Desde 2021 que a cafeicultura está sofrendo”, afirma.
O seguro rural ajuda a reduzir parte das perdas, mas, segundo Adelino, nem sempre é suficiente para cobrir todo o prejuízo causado por um evento climático.
Financiamento ainda faz parte da realidade do produtor
Para manter a produção e investir em equipamentos, a família também já recorreu ao Funcafé, linha de financiamento voltada ao setor cafeeiro.
Adelino explica que os recursos são importantes para produtores que nem sempre possuem capital próprio para fazer todos os investimentos necessários.
“A gente nem sempre tem capital para comprar um equipamento”, conta.
Apesar de reconhecer a importância do financiamento, o produtor diz que o objetivo é, no futuro, conseguir produzir sem depender de empréstimos.
“Se Deus quiser, um dia vou ficar livre disso aí, não precisar. É o sonho. Eu nem quero olhar para a cara de banco”, brinca.
Agricultura regenerativa é aposta para o futuro
A busca por maior eficiência e resistência às mudanças climáticas também levou a família a investir em práticas de agricultura regenerativa e tecnologia.
Para Adelino, as duas estratégias caminham juntas. O uso de drones, por exemplo, permite aumentar a eficiência das operações e reduzir a necessidade de máquinas pesadas dentro da lavoura.
“Um completa o outro. Hoje, por exemplo, com drone, uma pessoa só faz quantos hectares em um dia. Não precisa daquele trator compactando o solo, gerando CO₂ com a queima de diesel”, explica.
O produtor resume a importância da conservação do solo para a atividade com uma frase da agrônoma Ana Maria Primavesi, referência em agricultura sustentável: “Solo sadio, planta saudável.”
Na avaliação dele, práticas que aumentam a qualidade do solo também ajudam a proteger a lavoura e o meio ambiente.
“Quanto melhor o solo, quanto melhor a proteção do meio ambiente, melhor para o café”, afirma.
Para Adelino, a agricultura regenerativa deve se tornar cada vez mais presente nas propriedades rurais.
“Eu tenho a impressão que a agricultura regenerativa é um caminho sem volta.”
Café como profissão e paixão
Depois de décadas dedicadas à atividade, Adelino resume em poucas palavras o significado do café na vida da família. “Eu vivo disso. Eu vivo do café, tenho prazer.”
Zezinha compartilha da mesma relação com a atividade. “É a alegria que a gente tem de trabalhar com o café. Dá muito trabalho, mas dá muita alegria para a gente.”
O casal também encontra nos concursos de qualidade uma motivação para continuar aperfeiçoando a produção. As premiações, segundo eles, servem como reconhecimento e também como incentivo para buscar resultados melhores a cada safra.
“Concurso incentiva a gente. A gente está desanimado, ganha um concurso e pensa: ‘Meu Deus!’”, conta Adelino. Mesmo quando não vence, a competição deixa um aprendizado para a próxima colheita. “A gente quer fazer melhor. Todo ano faz”, conclui o produtor.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



