Aftosa na China: surto em rebanho pode forçar revisão de cotas para carne brasileira
Casos no país asiático podem ocasionar uma flexibilização nas salvaguardas aplicadas à importação da proteína

O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China confirmou, nesta quinta-feira (2), a detecção de dois novos focos de febre aftosa em províncias distintas do país. Segundo o comunicado oficial, os surtos envolveram um rebanho total de mais de seis mil bovinos, dos quais 219 animais apresentaram sintomas clínicos da doença.
Os casos foram validados pelo Centro Chinês de Prevenção e Controle de Doenças Animais em 28 de março, após análises no Laboratório de Referência para Febre Aftosa. As ocorrências estão localizadas no condado de Yining (Xinjiang) e no condado de Gulang (Gansu).
Detalhes dos surtos e resposta emergencial
De acordo com o ministério, a distribuição dos casos ocorreu em duas frentes: na província de Xinjiang, o foco foi identificado em um mercado que abrigava 513 bovinos, dos quais 142 manifestaram a doença, enquanto na província de Gansu o surto atingiu uma fazenda de gado com um total de 5.716 animais, resultando em 77 bovinos com sintomas apresentados.
Em resposta imediata, as autoridades locais ativaram protocolos de emergência que incluem o abate sanitário, desinfecção das áreas, descarte seguro das carcaças e monitoramento epidemiológico rigoroso para conter o avanço do vírus. Estes casos ainda aguardam registro no sistema da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). O último relato oficial de aftosa no país havia ocorrido em outubro de 2025, sendo encerrado em dezembro daquele ano.
Impacto no comércio internacional e no Brasil
A notícia surge em um momento sensível para as relações comerciais entre Brasil e China. Recentemente, o governo chinês impôs salvaguardas e cotas de importação para a carne bovina. Para os fornecedores brasileiros, a cota fixada para 2026 é de 1,1 milhão de toneladas — volume abaixo do total embarcado no ano anterior.
Mesmo com as restrições, o setor exportador brasileiro vive um período de alta. Em fevereiro, o Brasil registrou um recorde nos embarques, somando 267,3 mil toneladas e uma receita de US$ 1,44 bilhão. A China continua sendo o destino principal: apenas no primeiro bimestre de 2026, os portos chineses já receberam mais de 370 mil toneladas de proteína brasileira, o que representa 33% da cota anual permitida.
Expectativa de reavaliação das cotas
Lideranças do setor frigorífico brasileiro acompanham a situação com atenção. Avaliações de bastidores indicam que a confirmação da doença em território chinês pode pressionar Pequim a reavaliar as cotas de importação. Caso a produção interna da China seja significativamente afetada pelos abates sanitários e pela restrição de movimentação de animais, o país poderá ser forçado a elevar as compras externas para garantir o abastecimento e a segurança alimentar de sua população.
Atualmente, a China possui uma cota global de importação de 2,6 milhões de toneladas para diversos fornecedores, das quais 23,3% já foram preenchidas até o final de fevereiro.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



