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Arqueólogos acham no Egito 'porta falsa que leva ao além'

Descubra como as portas falsas funcionavam no Egito Antigo, conectando vivos e mortos; saiba sobre a tumba de Sekhentiu-Ptah em Saqqara

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Arqueólogos acham no Egito "porta falsa que leva ao além"
Arqueólogos acham no Egito "porta falsa que leva ao além" • Unsplash

Sekhentiu-Ptah ocupava cargos de prestígio há cerca de 4 mil anos no Egito Antigo. Guardião dos segredos reais, supervisor de obras e chefe dos escribas, ele tinha acesso às informações mais confidenciais da corte. Sua tumba, recém-descoberta em Saqqara, não possui pirâmides monumentais, mas revela elementos arquitetônicos que expõem sua posição social e as crenças sobre o além.

O achado mais impressionante é a chamada "porta falsa": uma estrutura que não leva a lugar nenhum, mas funcionava como ponto de ligação espiritual. Esse elemento arquitetônico tinha função religiosa precisa no Egito Antigo: permitir que o espírito do falecido transitasse entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Este guia explica como funcionavam as tumbas da elite egípcia, o que significavam seus elementos rituais e por que Saqqara continua revelando tesouros arqueológicos.

A descoberta da tumba de Sekhentiu-Ptah em Saqqara

A escavação ocorreu na região do Bubasteion, a oeste da necrópole de Saqqara, ao sul do Cairo. Em períodos posteriores, essa área ficou associada ao culto da deusa-gata Bastet.

Os arqueólogos seguiram um programa científico rigoroso que incluiu escavação estratigráfica, documentação arquitetônica e fotográfica, digitalização de achados e estudos linguísticos. A coordenação ficou a cargo de Hisham Al-Lithi, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades.

Além da tumba principal, os pesquisadores localizaram vários poços funerários contendo restos humanos e mais de cem ushabtis de faiança. Essas pequenas estatuetas eram colocadas nas tumbas para acompanhar o falecido na vida após a morte.tr

Quem foi Sekhentiu-Ptah e seus cargos na corte egípcia

As inscrições hieroglíficas encontradas na tumba permitiram identificar Sekhentiu-Ptah e reconstruir a lista extensa de cargos que ocupou.

Ele exerceu funções como camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e chefe dos escribas. Um dos títulos, traduzido como "guardião dos segredos dos decretos reais", pode soar misterioso, mas provavelmente correspondia a uma função administrativa convencional.

Segundo a egiptóloga Ann Macy Roth, da Universidade de Nova York, o título era comum entre os escribas reais e indicava que, por lidar com documentos da corte, ele tinha acesso a informações confidenciais. Sekhentiu-Ptah viveu durante o Império Antigo, período em que foram construídas as grandes pirâmides, incluindo as de Gizé.

O que é a porta falsa e sua função no mundo espiritual egípcio

A "porta falsa" talvez seja o elemento mais impressionante da tumba. Esse componente era comum na arquitetura funerária egípcia, mas não tinha função prática de passagem física.

Ela não impedia a ação de saqueadores — de fato, a tumba foi violada em algum momento de sua história. O significado era religioso: os egípcios acreditavam que a porta funcionava como ponto de ligação com o além.

A estrutura permitia ao espírito do falecido transitar entre os dois mundos. Diante dela foram encontrados diversos objetos funerários: uma mesa de oferendas, uma peça destinada ao ritual de sacrifício, uma bacia de purificação, um jarro e uma esteira, todos com inscrições hieroglíficas.

Objetos funerários e o enxoval de Sekhentiu-Ptah

A escavação revelou materiais variados que acompanhariam o falecido no além. O Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito informou a descoberta de três sarcófagos de pedra que permaneciam lacrados desde a Antiguidade.

Também foi encontrada uma escultura de madeira em forma de falcão e grandes quantidades de cartonagem funerária colorida. Segundo o portal Live Science, a figura do falcão tem possível associação com Hórus, o deus egípcio representado com cabeça dessa ave.

O que ainda não foi encontrado é a própria múmia de Sekhentiu-Ptah. Ann Macy Roth explica que o espaço pode ter sido reutilizado após o sepultamento original, uma prática comum no Egito Antigo. Isso explicaria por que alguns dos ushabtis e fragmentos de cartonagem parecem pertencer a pessoas enterradas ali posteriormente.

Quando foi construída a tumba e características do período

Sekhentiu-Ptah viveu durante o Império Antigo, época em que foram erguidas as grandes pirâmides. Ann Macy Roth acredita que os elementos arquitetônicos da tumba datam do final da 5ª dinastia e início da 6ª.

Com base nas características, os achados teriam sido construídos há aproximadamente 4.350 anos. Esse período, entre 2700 e 2200 a.C., concentrou sepultamentos de membros da realeza e da elite egípcia em Saqqara.

Alguns governantes deixaram pirâmides como monumentos funerários. Outros integrantes da elite tiveram sepulturas mais discretas, embora nem por isso menos reveladoras sobre sua posição social.

Por que Saqqara é central para a arqueologia egípcia

Declarada Patrimônio Mundial pela Unesco, Saqqara é centro de pesquisas arqueológicas desde o século 19 e continua proporcionando novas descobertas.

A necrópole desempenhou papel central durante o Império Antigo. Seu uso funerário, no entanto, não terminou nesse período e se estendeu até a época romana.

Segundo Campbell Price, curador das coleções de Egito e Sudão do Museu de Manchester, em entrevista à revista Smithsonian Magazine, Saqqara era o lugar "onde se queria ser visto morto", devido à sua reputação como porta de acesso ao além.

O que Saqqara reúne além de tumbas de funcionários

Saqqara não abriga apenas tumbas de funcionários como a de Sekhentiu-Ptah. O sítio arqueológico também reúne pirâmides reais, incluindo a famosa Pirâmide de Degraus de Djoser.

Além disso, há uma vasta necrópole subterrânea dedicada a animais. Essa diversidade levou o arqueólogo Magdy Shaker a afirmar, em entrevista ao portal Al-Monitor, que Saqqara reúne boa parte da história do Egito Antigo.

Isso contrasta com o foco mais restrito das pirâmides da 5ª dinastia em Gizé. O potencial arqueológico e turístico da região levou as autoridades egípcias a investirem na melhoria dos acessos e da infraestrutura para visitantes. Ainda assim, Saqqara continua ofuscada por sua vizinha mais famosa: as pirâmides de Gizé.

Descobertas recentes em Saqqara e expectativas futuras

Segundo Mostafa Waziri, secretário-geral do Supremo Conselho de Antiguidades do Egito, entre os artefatos encontrados em escavações recentes está uma estátua do arquiteto Imhotep.

Considerado o primeiro grande construtor do Antigo Império, ele revolucionou a arquitetura da Antiguidade. Encontrar seu túmulo é uma das principais metas da missão arqueológica em Saqqara, revela Waziri.

Em apresentação na cidade de Gizé, visitantes admiraram achados espetaculares de uma equipe de arqueólogos egípcios na necrópole de Saqqara. Entre os tesouros trazidos à luz estão 250 sarcófagos com múmias bem conservadas.

Como o turismo se beneficia das descobertas arqueológicas

O governo no Cairo deposita grandes esperanças de que as descobertas recentes e o Grande Museu Egípcio ajudem a reanimar o turismo no país.

Esse setor, vital para o Egito, foi fortemente abalado pela pandemia de covid-19 e pela guerra russa contra a Ucrânia. Após numerosos adiamentos, o monumental museu foi inaugurado em 2022, na proximidade das pirâmides de Gizé.

Os sarcófagos, estátuas de bronze e adereços rituais serão levados para o Grande Museu Egípcio. Em um dos 250 sarcófagos, os arqueólogos descobriram um papiro intocado e selado. Eles supõem que o rolo escrito, estimado em nove metros de comprimento, contenha um capítulo do "Livro dos Mortos", a milenar coleção de fórmulas mágicas e evocações que indicava aos falecidos o caminho para o outro mundo.

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