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Além da desidratação: onda de calor pode aumentar problemas de saúde, revela estudo

Pesquisa com quase 1 milhão de consultas médicas identificou aumento de doenças renais, problemas de pele, acidentes, agressões e alterações de saúde mental em dias de calor extremo

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sol calor
Temperaturas devem subir nos próximos dias • Freepik

As ondas de calor podem causar impactos no organismo muito maiores do que a conhecida desidratação. Um novo estudo realizado em Chicago, nos Estados Unidos, identificou aumento de diversos problemas de saúde quando as temperaturas ultrapassaram os 33,7 °C.

A pesquisa analisou quase 1 milhão de consultas médicas e encontrou relação entre os períodos de calor extremo e problemas renais, doenças de pele, alterações nas veias, acidentes, agressões, picadas de insetos e até transtornos de saúde mental associados ao consumo de cannabis.

O trabalho foi publicado na revista científica Science Advances e adotou uma abordagem mais ampla do que estudos tradicionais sobre os efeitos das altas temperaturas. Em vez de observar apenas diagnósticos diretamente relacionados ao calor, os pesquisadores analisaram 1.803 tipos de diagnósticos registrados durante os meses mais quentes do ano.

Ao todo, foram consideradas consultas de 372.140 adultos entre maio e setembro, no período de 2011 a 2023. Nesse intervalo, Chicago registrou 100 dias classificados como de calor extremo.

Calor extremo pode afetar os rins

Entre os resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores está o aumento de problemas relacionados aos rins. Segundo o estudo, o calor pode interferir na hidratação e no equilíbrio de líquidos e sais do organismo, aumentando a pressão sobre órgãos responsáveis por regular essas funções.

Também foram identificados aumentos em casos de insuficiência renal aguda, inchaço, erupções na pele e problemas venosos. Algumas condições preexistentes, como a esclerose múltipla, também apareceram entre os diagnósticos associados aos períodos de temperaturas elevadas.

Para Hyojung Jang, autor principal do estudo e pesquisador da Northwestern University Feinberg School of Medicine, considerar apenas as doenças tradicionalmente associadas ao calor pode esconder uma parcela importante dos impactos sobre a saúde.

“Se apenas registrarmos as doenças relacionadas ao calor mais conhecidas, subestimaremos a verdadeira carga de saúde associada ao calor”, afirmou o pesquisador.

Acidentes e agressões também aumentaram

Outro resultado surpreendente foi a relação entre os dias mais quentes e o aumento de lesões externas.

A pesquisa identificou crescimento de acidentes de trânsito, agressões e ferimentos acidentais. Em alguns casos, os registros chegaram a duplicar ou triplicar. As feridas acidentais provocadas por armas de fogo apresentaram um aumento superior a 30 vezes quando comparadas aos dias em que a temperatura ficou abaixo de 33,3 °C.

Os pesquisadores também encontraram aumento de picadas e mordidas de insetos.

Daniel Horton, cientista climático e um dos autores do estudo, explicou que os efeitos do calor podem atingir tanto o corpo quanto a mente.

“Quando está quente lá fora, o corpo fica estressado e a mente também”, afirmou.

Segundo os pesquisadores, o desconforto provocado pelas temperaturas elevadas pode dificultar a concentração e a capacidade de lidar com situações de estresse, o que pode contribuir para acidentes, conflitos e outros comportamentos de risco.

Calor também pode influenciar a saúde mental

O estudo ainda encontrou uma associação entre temperaturas extremas e problemas de saúde mental relacionados ao consumo de cannabis.

De acordo com Abel Kho, autor sênior da pesquisa, o estresse provocado pelo calor pode alterar a forma como o organismo reage a determinadas substâncias e medicamentos. Quando o corpo já está sobrecarregado pelas altas temperaturas, alguns efeitos podem se tornar mais intensos e aumentar o risco de complicações.

Os resultados reforçam a ideia de que os efeitos das ondas de calor não devem ser avaliados apenas pelo número de casos de insolação ou desidratação.

Alertas podem precisar ser ampliados

Para os pesquisadores, os resultados mostram que os sistemas de saúde precisam considerar uma variedade maior de problemas durante períodos de calor extremo.

Pessoas com doenças renais, problemas venosos, esclerose múltipla e outras condições crônicas podem precisar de atenção especial nesses períodos. Cuidados também são importantes para quem trabalha ao ar livre, dirige ou passa longos períodos em ambientes sem refrigeração adequada.

Jonathan Patz, pesquisador da University of Wisconsin, afirmou que a pesquisa reforça uma preocupação que já vinha sendo observada por especialistas.

“O estudo ajuda a confirmar que temos subestimado os riscos para a saúde causados pela exposição ao calor”, disse.

Courtney Howard, médica canadense citada no estudo, relacionou os resultados ao impacto das mudanças climáticas sobre os sistemas de saúde e os custos do atendimento médico.

Os pesquisadores acreditam que o método utilizado em Chicago também pode ser aplicado em outras cidades e países. A análise poderia ainda ser combinada com registros de chamadas de ambulâncias e certificados de óbito para identificar com maior precisão os efeitos das temperaturas extremas.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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