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Novos casos de HIV caem no mundo, mas aumentam no Brasil, aponta relatório da ONU

Levantamento do Unaids mostra queda de 43% nas novas infecções por HIV desde 2010, enquanto o Brasil registrou alta de 21,9% no período e passou a integrar a lista de países com crescimento da doença

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Teste rápido de HIV • Rovena Rosa/Agência Brasil

Enquanto o mundo registra uma queda expressiva nas novas infecções por HIV, o Brasil segue na direção oposta. Um relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostra que os novos casos da infecção caíram 43% globalmente entre 2010 e 2025, mas aumentaram 21,9% no Brasil no mesmo período.

Os dados foram apresentados durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro. Segundo o levantamento, o número anual de novas infecções caiu de cerca de 2,1 milhões em 2010 para 1,2 milhão em 2025, o menor patamar registrado em três décadas, resultado da ampliação do acesso ao tratamento antirretroviral e das estratégias de prevenção.

No Brasil, porém, o cenário é diferente. O país aparece entre os 21 que registraram aumento de novas infecções nos últimos 15 anos, apesar de ser reconhecido internacionalmente pelo acesso gratuito ao tratamento e pelas políticas de prevenção.

De acordo com o Ministério da Saúde, a notificação compulsória de infecção por HIV passou a ser obrigatória apenas em 2014. Desde então, o número de novos diagnósticos aumentou. Em 2024, foram registrados 39,2 mil novos casos, alta de 21,9% em relação a 2014. Atualmente, estima-se que quase 1,7 milhão de brasileiros vivam com o vírus.

Especialistas apontam fatores para alta de casos

Segundo especialistas ouvidos durante o evento, o aumento das infecções no Brasil está relacionado a uma combinação de fatores sociais, econômicos e estruturais. Entre os principais motivos apontados estão o enfraquecimento das campanhas de conscientização, a persistência do estigma contra pessoas que vivem com HIV, as desigualdades no acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), a redução de investimentos e a percepção equivocada, sobretudo entre os mais jovens, de que o HIV deixou de representar uma ameaça.

O infectologista Estevão Portela, diretor do Instituto de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, defende o fortalecimento das ações de educação e prevenção. "Precisamos trabalhar melhor com comunicação e educação sobre formas de contágio e prevenção nas populações mais vulnerabilizadas", afirmou. Para o especialista, ampliar o acesso à PrEP é uma das principais medidas para reduzir a transmissão do vírus. Ele destaca que muitos estados ainda não conseguem levar a estratégia às populações mais vulneráveis e defende a expansão da PrEP injetável, que facilita a adesão ao tratamento.

Populações mais vulneráveis

O relatório do Unaids aponta que o crescimento das infecções no Brasil ocorre principalmente entre grupos mais vulneráveis, como homens gays e bissexuais, pessoas trans e profissionais do sexo. Apesar do aumento dos casos, o país acumula avanços importantes, como a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV — de mãe para filho — e a ampliação da oferta da PrEP pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

América Latina também registra alta

O aumento das infecções não é exclusivo do Brasil. Em toda a América Latina, o número de novos casos cresceu 25% entre 2010 e 2025, segundo o Unaids. Para a diretora-executiva do programa, Winnie Byanyima, o avanço da epidemia na região está ligado às desigualdades sociais, ao estigma e às dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Ela afirma que os avanços científicos, como medicamentos injetáveis de longa duração, podem transformar a prevenção ao HIV, mas alerta que o sucesso dependerá da ampliação do acesso aos tratamentos. "A ciência está nos entregando ferramentas extraordinárias, mas inovação sem acesso não é avanço, é injustiça", afirmou.

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