Molécula descoberta em cobras píton pode ajudar a reduzir o apetite
Estudo revela que composto presente no sangue de pítons diminui a fome em testes com camundongos e pode inspirar futuros tratamentos contra a obesidade

Uma descoberta curiosa vinda do mundo animal está chamando a atenção da ciência e pode trazer novas perspectivas no combate à obesidade. Pesquisadores identificaram uma molécula no sangue de cobras pítons capaz de reduzir o apetite sem provocar efeitos colaterais comuns em tratamentos atuais, como náuseas ou perda de massa muscular.
O composto, chamado 'para-tiramina-O-sulfato' (pTOS), foi destaque em um estudo publicado na revista Nature Metabolism. A pesquisa investigou como essas serpentes conseguem lidar com refeições extremamente grandes e passar longos períodos sem se alimentar.
Para entender esse mecanismo, os cientistas simularam o comportamento natural das pítons. As cobras ficaram 28 dias em jejum e depois consumiram uma refeição equivalente a cerca de um quarto do próprio peso. Horas depois, análises de sangue revelaram mudanças intensas no organismo.
Mais de 200 substâncias tiveram aumento significativo, mas uma em especial chamou atenção: o pTOS, cuja concentração cresceu mais de mil vezes após a alimentação.
Ao testar a molécula em camundongos obesos, os pesquisadores observaram um efeito direto no comportamento alimentar. Os animais passaram a comer menos e, após quatro semanas, perderam cerca de 9% do peso corporal. Não houve alterações no gasto de energia, na ingestão de água ou no nível de atividade, o que indica que a perda de peso está ligada principalmente à redução do apetite.
Diferente de medicamentos já conhecidos, o pTOS não atua retardando o esvaziamento do estômago nem altera hormônios clássicos relacionados à fome. O caminho é outro. A substância é produzida a partir da tirosina, um aminoácido presente nas proteínas, com participação de bactérias intestinais. Depois, segue até o hipotálamo, região do cérebro responsável por regular a fome, onde ativa neurônios que influenciam o comportamento alimentar.
Os testes também mostraram que a microbiota intestinal tem papel essencial nesse processo. Quando as cobras receberam antibióticos antes da alimentação, o aumento do pTOS simplesmente não ocorreu.
Embora essa molécula também exista em humanos, o aumento após as refeições é muito menor, geralmente entre duas e cinco vezes, o que pode explicar por que seu efeito passa despercebido no organismo.
Para os cientistas, o estudo reforça a importância de explorar modelos fora do padrão tradicional. Enquanto mamíferos, incluindo humanos, mantêm hábitos alimentares mais constantes, animais como as pítons vivem extremos metabólicos que podem esconder respostas valiosas.
A equipe agora busca mapear outras substâncias que surgem após a alimentação dessas serpentes. Muitas delas apresentam características semelhantes a hormônios, mas ainda não têm equivalentes conhecidos em humanos.
A aposta é que, assim como compostos de outros animais já deram origem a medicamentos importantes, novas moléculas descobertas em espécies com fisiologia incomum possam inspirar tratamentos inovadores no futuro.
Entretanto, os pesquisadores ressaltam que, apesar dos resultados promissores, ainda é cedo para afirmar se o pTOS se tornará um remédio contra a obesidade em humanos.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



