Dia Nacional de Combate ao Fumo: veja os efeitos do cigarro nos pulmões, pele, olhos e coluna
Especialistas destacam como o cigarro age no corpo e aponta benefícios de abandonar o tabagismo

O Dia Nacional de Combate ao Fumo é celebrado neste sábado (29). Neste ano, o tema escolhido pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) é: “Atividade física e saúde: treinar não combina com fumar”.
O Brasil tem cerca de 20 milhões de usuários de produtos derivados do tabaco e, segundo dados divulgados pelo INCA, aproximadamente 477 pessoas morrem por dia no país em consequência do tabagismo. São cerca de 145 mil mortes evitáveis por ano.
A médica pneumologista Michele Andreata reforça a importância da campanha: "Ainda existe a ideia de que praticar exercícios, correr ou frequentar a academia poderia, de alguma maneira, compensar os danos do cigarro. Não compensa. A atividade física faz bem ao coração, aos pulmões, aos músculos e ao organismo como um todo. O cigarro faz justamente o caminho contrário: prejudica a oxigenação, agride as vias respiratórias, compromete a função pulmonar e reduz o desempenho físico".
A especialista destaca que os malefícios do fumo vão além dos pulmões: “O tabagismo está associado a mais de 50 doenças. Aumenta o risco de DPOC, incluindo bronquite crônica e enfisema pulmonar, infarto, AVC e vários tipos de câncer, como os de boca, laringe, faringe, esôfago, bexiga, pâncreas e rim. Também favorece infecções respiratórias e traz repercussões para outros sistemas do organismo”.
Além disso, o hábito prejudica não somente o fumante. "Quem convive com a fumaça do cigarro também inala substâncias tóxicas e pode adoecer", afirma a médica Michele Andreata.
Impactos do fumo na coluna vertebral
O tabagismo também pode impactar a saúde da coluna vertebral do paciente. O médico ortopedista Daniel Oliveira explica a relação.
“A nicotina e diversas outras substâncias presentes no cigarro interferem na circulação, na oxigenação e no metabolismo dos tecidos. Os discos intervertebrais, que funcionam como amortecedores entre as vértebras, também podem sofrer com esse processo. A degeneração da coluna é multifatorial, mas estudos mostram que o tabagismo está associado ao maior desgaste das estruturas da coluna e ao maior risco de desenvolver ou manter quadros de dor lombar”, afirma o médico.
O cigarro também prejudica a saúde óssea e aumenta o risco de fraturas, especialmente em pessoas com osteoporose. Além disso, os cuidados devem ser redobrados após cirurgias em fumantes.
“O tabagismo interfere na cicatrização dos tecidos e na consolidação óssea. Nas artrodeses, cirurgias em que buscamos a fusão entre duas ou mais vértebras, os fumantes apresentam maior risco de a consolidação não ocorrer adequadamente, situação que chamamos de pseudoartrose. Também há associação com maior risco de algumas complicações e de necessidade de novas cirurgias”, destaca o especialista.
Efeitos do cigarro na pele
A pele também reflete os efeitos do tabagismo. Lucas Miranda, médico dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, destaca que as substâncias presentes no cigarro aumentam o estresse oxidativo. Isso acelera a perda de colágeno e elastina, componentes que dão sustentação e elasticidade à pele. Com o tempo, isso se traduz em sinais bastante visíveis: mais rugas, flacidez, perda do viço e uma pele com aspecto mais opaco".
Por reduzir a oxigenação dos tecidos, o cigarro prejudica a capacidade de recuperação da pele, atrasa a cicatrização e pode aumentar o risco de complicações após procedimentos dermatológicos. “Também está relacionado à piora de doenças como psoríase e hidradenite supurativa”, aponta o médico.
Consequências do tabagismo para a saúde ocular
O tabagismo prejudica a saúde ocularao afetar os tecidos do olho e promover estresse oxidativo, inflamação e alterações nos vasos sanguíneos.
“O tabagismo está associado a um risco maior de catarata, principalmente a catarata nuclear, e é um dos fatores de risco modificáveis mais importantes para a degeneração macular relacionada à idade (DMRI). Essa última merece atenção especial porque atinge justamente a região central da retina, que usamos para enxergar detalhes, ler, dirigir e reconhecer um rosto. Quando há perda de visão pela doença, parte desse dano pode ser irreversível”, destaca o oftalmologista Tiago César Pereira Ferreira, que é membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia.
O especialista afirma que os efeitos não precisam de anos para aparecer: “A própria fumaça irrita a superfície dos olhos e pode piorar a ardência, vermelhidão, o lacrimejamento e os sintomas de olho seco”.
Parar de fumar: benefícios começam logo após o último cigarro
A pneumologista Michele Andreata, pneumologista, afirma que parar de fumar é uma das decisões mais transformadoras para a saúde de uma pessoa. Ela destaca que a nicotina causa dependência e o tabagismo é uma doença crônica. Por isso, abandonar o cigarro pode ser difícil, mas vale a pena.
“Um bom começo é escolher uma data para parar e perceber quais situações estão mais ligadas ao cigarro. Para algumas pessoas, é o café. Para outras, a bebida alcoólica, o estresse, a ansiedade ou, simplesmente, aquele hábito automático de acender um cigarro em determinados momentos do dia. Tirar cigarros, isqueiros e cinzeiros de perto, contar com o apoio da família e incluir atividade física na rotina pode ajudar bastante. E, quando estiver difícil, é importante procurar ajuda”, orienta a médica.
Ela diz que recaídas são parte do processo, mas é importante não desistir. “Quem fuma há anos construiu uma dependência física e uma rotina em torno do cigarro. Pode ser necessário tentar mais de uma vez até conseguir parar definitivamente. O fundamental é não desistir. Não importa se a pessoa fuma há cinco, vinte ou quarenta anos: deixar o cigarro sempre vale a pena. O organismo começa a sentir os benefícios da interrupção muito cedo e, com o passar do tempo, vários riscos diminuem. Nunca é tarde para parar, mas quanto antes, melhor.”
O ortopedista Daniel Oliveira destaca os benefícios de parar de fumar para a coluna: “A boa notícia é que parar de fumar faz diferença. Isso não significa que um disco já degenerado voltará a ser como antes, mas interromper o tabagismo elimina uma agressão contínua ao organismo e cria melhores condições para a saúde dos tecidos, para a cicatrização e, principalmente, para a recuperação de quem precisa passar por uma cirurgia da coluna”.
A saúde da pele também melhora após abandonar o cigarro. “Já nas primeiras semanas, a melhora da circulação e da oxigenação cria condições para que a pele comece a se recuperar. Nos meses seguintes, é possível perceber melhora do viço, da textura e da capacidade de regeneração. Rugas profundas e flacidez que já se instalaram podem não desaparecer, mas, quando o paciente abandona o cigarro, ele retira um dos fatores que mais aceleram o envelhecimento da pele”, destaca o dermatologista Lucas Miranda.
Formada em Jornalismo pela Puc Minas, Paula Arantes produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil, Mundo, Orações e Entretenimento no portal da Itatiaia. Atualmente, colabora com a editoria Meio Ambiente. Antes, passou pelo jornal Estado de Minas.



