Cérebro: excesso de treino altera dopamina e compromete memória, aponta USP
Pesquisa de outubro de 2026 na revista Neuroscience revela mudanças nos níveis de dopamina associadas a problemas de memória e regulação das emoções

O excesso de exercícios físicos pode provocar alterações na química cerebral e comprometer funções ligadas à memória e à regulação das emoções. A conclusão é de uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicada em outubro de 2026 na revista científica Neuroscience.
O estudo identificou mudanças nos níveis de dopamina no hipocampo, região do cérebro associada à memória e ao controle emocional. Os pesquisadores investigaram os efeitos de treinos realizados até a exaustão e de períodos prolongados de esforço excessivo sobre a sinalização de dois neurotransmissores: a dopamina e a serotonina.
Dopamina no centro dos achados
Ao contrário do que prevê a teoria clássica da fadiga central, nenhuma mudança relevante foi detectada nos níveis de serotonina. As principais alterações observadas ocorreram na dopamina. Segundo os resultados, a oscilação desse neurotransmissor pode estar relacionada a sinais de sobretreinamento, como insônia, estado de alerta elevado no repouso e recuperação inadequada. Os cientistas também identificaram possíveis associações entre o aumento da atividade ligada à produção de dopamina, processos inflamatórios no cérebro e comportamentos semelhantes à ansiedade.
Os experimentos foram realizados com camundongos machos de oito semanas de idade, divididos em dois grupos. No primeiro protocolo, os animais completaram uma sessão de corrida até a exaustão. Após o esforço, os pesquisadores registraram aumento nas concentrações de dopamina no tecido cerebral e uma queda na atividade da tirosina hidroxilase, enzima responsável pela produção desse neurotransmissor.
Efeitos do treinamento prolongado
No segundo protocolo, os camundongos passaram por oito semanas de treinamento com intensidade progressivamente maior. A partir da quarta semana, os animais já apresentavam queda no rendimento físico. Mesmo 48 horas após o último teste, os pesquisadores observaram níveis elevados de dopamina durante o repouso e aumento na expressão da enzima ligada à sua produção.
Os próprios autores do estudo alertam para limitações importantes. A dopamina foi medida no tecido cerebral de forma ampla, sem que fosse possível identificar com precisão como o neurotransmissor estava sendo utilizado nas sinapses entre os neurônios. O fato de a pesquisa ter sido conduzida exclusivamente com camundongos machos impede a extrapolação dos resultados para fêmeas e para seres humanos. As relações entre inflamação cerebral e alterações comportamentais foram estabelecidas a partir de análises genéticas e ainda dependem de confirmação por novos experimentos.
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