Calor e poluição podem elevar em até 40% o risco de AVC em idosos, aponta estudo da USP
Pesquisa realizada em São Paulo identificou aumento da probabilidade de acidente vascular cerebral a cada dia adicional de exposição à combinação de temperaturas elevadas e poluentes no ar

A exposição prolongada a ondas de calor, principalmente quando acompanhada de altos níveis de poluição atmosférica, pode aumentar o risco de acidente vascular cerebral (AVC) em pessoas com 65 anos ou mais. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que identificou uma elevação de 40,4% na probabilidade do problema a cada dia adicional sob a combinação dos dois fatores.
Os resultados preliminares foram apresentados pela pesquisadora Alessandra Carvalho Goulart, professora da Faculdade de Medicina da USP, durante a FAPESP Week Países Baixos, evento realizado na Universidade de Leiden.
A investigação considerou como onda de calor a ocorrência de pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas máximas iguais ou superiores a 33,1 °C. Os pesquisadores também avaliaram a presença de PM10, material particulado fino formado por partículas microscópicas no ar, associado principalmente à queima de combustíveis de veículos e à poeira.
Como o calor e a poluição afetam o organismo?
Para avaliar a relação entre as condições ambientais e os casos de AVC, a equipe utilizou informações do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA), desenvolvido na USP. Foram analisados 769 pacientes que tiveram AVC agudo. Desse total, 65,5% tinham 65 anos ou mais e 54,2% eram mulheres. Os pesquisadores compararam as condições meteorológicas e a qualidade do ar nos dias anteriores aos episódios.
Quando considerado isoladamente, o efeito das ondas de calor já indicava aumento da probabilidade de AVC. Entretanto, a associação entre temperaturas elevadas e concentração de PM10 apresentou um resultado mais expressivo: a razão de chances chegou a 1,404, correspondente a uma elevação de 40,4% por dia adicional de exposição à combinação.
Segundo a pesquisadora, o calor intenso pode provocar desidratação e reduzir a quantidade de líquido no sangue, tornando-o mais espesso. A sobrecarga térmica também interfere no controle da temperatura corporal e no funcionamento do sistema cardiovascular, alterações que podem favorecer a ocorrência de eventos vasculares.
Atividade física pode ajudar a proteger o cérebro
Além dos fatores ambientais, os pesquisadores investigaram a relação entre hábitos de vida e a preservação da saúde cerebral durante o envelhecimento. Em outra frente de pesquisa, vinculada ao Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), foram acompanhados 1.285 participantes entre 2008 e 2024. Os resultados indicaram que, a cada aumento de dez pontos no índice de saúde cardiovascular utilizado na análise, houve redução de 14% na chance de desenvolver lesões graves nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro.
A prática regular de exercícios físicos também apresentou associação com benefícios. Entre aproximadamente 1.200 participantes avaliados, níveis moderados a elevados de atividade física estiveram relacionados a uma redução de 21% a 22% no risco de apresentar marcadores de doença dos pequenos vasos cerebrais.
Essas alterações podem estar associadas a problemas como declínio cognitivo e demência. A pesquisa também identificou menor risco de perda de volume em uma região cerebral importante para a memória entre os participantes mais ativos.
Em entrevista à Agência FAPESP, a pesquisadora Alessandra Goulart apontou que os resultados reforçam a importância de combinar cuidados individuais com medidas de adaptação das cidades às mudanças climáticas. A pesquisadora destacou também que a prevenção cardiovascular e a atividade física são estratégias importantes para proteger a saúde cerebral da população idosa.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



