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Ultraprocessados, estresse e emoções: o que explica o avanço da obesidade?

Do consumo de ultraprocessados à alimentação emocional, especialistas apontam que a obesidade é uma doença complexa, influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

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Alimentos ultraprocessados, estresse e sedentarismo estão entre os fatores associados ao crescimento da obesidade em todo o mundo
Alimentos ultraprocessados, estresse e sedentarismo estão entre os fatores associados ao crescimento da obesidade em todo o mundo • Magnific

Nunca houve tanto acesso à informação sobre alimentação saudável. Aplicativos calculam calorias, redes sociais reúnem milhares de receitas e profissionais de saúde compartilham diariamente orientações sobre nutrição e qualidade de vida. Ainda assim, a obesidade continua avançando em praticamente todos os países.

O paradoxo chama a atenção da comunidade científica. Se hoje as pessoas conhecem melhor os riscos do excesso de peso, por que os índices continuam aumentando?

A resposta está longe de ser simples. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a obesidade como uma doença crônica e multifatorial, resultado da interação entre fatores genéticos, biológicos, comportamentais, psicológicos, ambientais e sociais. Ou seja, ela não pode ser explicada apenas pelo consumo excessivo de alimentos ou pela falta de atividade física.

Os números mostram a dimensão do problema. Dados da OMS, com base em um estudo publicado na revista científica The Lancet, revelam que 43% dos adultos do mundo estavam acima do peso em 2022, enquanto 16% viviam com obesidade. A prevalência mais do que dobrou desde 1990, e mais de um bilhão de pessoas convivem atualmente com a doença.

A obesidade vai muito além da alimentação

Durante muito tempo, o excesso de peso foi tratado como consequência exclusiva de escolhas individuais. Hoje, essa visão é considerada limitada.

Pesquisadores apontam que a obesidade está relacionada ao chamado ambiente obesogênico — um conjunto de fatores que favorecem o ganho de peso. Entre eles estão a ampla oferta de alimentos altamente calóricos, a rotina sedentária, jornadas de trabalho extensas, privação de sono, estresse crônico, marketing de produtos ultraprocessados e até características das cidades, que muitas vezes dificultam a prática de atividades físicas.

Isso significa que, embora hábitos individuais sejam importantes, eles acontecem dentro de um contexto que pode facilitar ou dificultar escolhas saudáveis.

Ultraprocessados estão no centro do debate

Entre os fatores mais investigados pela ciência está o crescimento do consumo de alimentos ultraprocessados. Esses produtos costumam apresentar grandes quantidades de açúcar, gorduras, sódio e aditivos industriais, além de baixo teor de fibras e micronutrientes. Diversos estudos observacionais têm associado seu consumo frequente ao aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outras condições crônicas.

Uma série de artigos publicada pela The Lancet destacou os ultraprocessados como um dos principais desafios atuais para a saúde pública, defendendo políticas para reduzir seu consumo e melhorar os ambientes alimentares. 

Apesar de ainda existirem discussões sobre causalidade em alguns aspectos, o conjunto das evidências reforça a associação entre esses alimentos e piores desfechos de saúde.

Comer também é uma resposta às emoções

Mas a alimentação não atende apenas às necessidades nutricionais. Para muitas pessoas, ela também funciona como conforto emocional.

Situações de ansiedade, estresse, tristeza, frustração ou até celebração costumam aumentar o desejo por alimentos ricos em açúcar e gordura. Isso acontece porque esses produtos ativam circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao prazer.

Além disso, o açúcar favorece a liberação de neurotransmissores associados ao bem-estar, como a serotonina e a dopamina, proporcionando uma sensação temporária de conforto.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que tantas pessoas recorrem ao chocolate, doces, pizzas ou fast food em momentos emocionalmente difíceis.

Entretanto, esse alívio costuma ser passageiro. Quando a emoção permanece, a tendência é repetir o comportamento, criando um ciclo de alimentação emocional que pode contribuir para o ganho de peso.

O estresse também interfere no peso

Outro fator importante é o estresse crônico. Quando o organismo permanece constantemente em estado de alerta, há aumento da produção de cortisol, hormônio que influencia o apetite e pode favorecer maior consumo de alimentos altamente calóricos.

Ao mesmo tempo, noites mal dormidas alteram hormônios ligados à fome e à saciedade, como leptina e grelina, dificultando ainda mais o controle alimentar.

Por isso, cada vez mais especialistas defendem que estratégias para prevenção da obesidade incluam também saúde mental, qualidade do sono e redução do estresse.

Existe um único culpado?

A resposta é não.

Embora os alimentos ultraprocessados tenham papel importante, eles representam apenas uma parte da equação. A própria Organização Mundial da Saúde destaca que genética, condições socioeconômicas, ambiente alimentar, acesso a alimentos saudáveis, atividade física, fatores psicológicos e políticas públicas influenciam diretamente o desenvolvimento da obesidade.

Isso ajuda a explicar por que duas pessoas com hábitos semelhantes podem apresentar resultados completamente diferentes em relação ao peso corporal.

O que realmente ajuda a prevenir a obesidade?

As evidências científicas mostram que não existe uma solução única. A prevenção depende da combinação de diferentes hábitos, como:

  • priorizar alimentos in natura e minimamente processados;
  • reduzir o consumo de ultraprocessados e bebidas açucaradas;
  • praticar atividade física regularmente;
  • dormir entre sete e nove horas por noite;
  • controlar o estresse;
  • buscar acompanhamento profissional quando necessário.

Mais do que contar calorias, especialistas recomendam observar a qualidade da alimentação e compreender a relação emocional com a comida.

Um desafio que vai além das escolhas individuais

A obesidade deixou de ser vista apenas como consequência da falta de disciplina alimentar. Hoje, ela é reconhecida como uma doença complexa, influenciada por fatores que vão muito além da força de vontade. Compreender essa realidade é essencial para reduzir preconceitos e construir estratégias mais eficazes de prevenção e tratamento.

Sem mudanças nos ambientes alimentares, nas políticas públicas e nos hábitos de vida da população, a tendência é que o número de pessoas com sobrepeso continue crescendo. Um estudo publicado na The Lancet projeta que, mantido o ritmo atual, mais da metade dos adultos do mundo poderá estar com sobrepeso ou obesidade até 2050, ampliando o impacto sobre os sistemas de saúde e a economia global.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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