Quem foi Gloria Steinem, ícone do feminismo que morreu aos 92 anos
Jornalista transformou o debate sobre os direitos das mulheres

Gloria Steinem passou mais de seis décadas fazendo algo que marcou sua trajetória: levar discussões sobre a vida das mulheres para espaços onde elas frequentemente não chegavam. Jornalismo, política, direitos reprodutivos, desigualdade no trabalho e violência doméstica fizeram parte de uma carreira que transformou a americana em um dos nomes mais conhecidos do feminismo mundial.
Steinem morreu aos 92 anos em sua casa, em Nova York. A confirmação de sua morte provocou homenagens e trouxe novamente ao centro das atenções uma trajetória que atravessou mudanças profundas na sociedade americana.
Jornalista, escritora e ativista, ela se tornou uma das principais figuras do movimento pelos direitos das mulheres a partir do fim dos anos 1960. Sua influência, porém, não ficou restrita àquela geração. Steinem continuou escrevendo, participando de manifestações e dialogando com mulheres mais jovens décadas depois de alcançar projeção internacional.
Quem foi Gloria Steinem
Nascida em Toledo, no estado americano de Ohio, em 25 de março de 1934, Steinem estudou no Smith College e passou um período na Índia antes de construir sua carreira jornalística em Nova York.
Um dos episódios mais conhecidos aconteceu em 1963. Para investigar as condições de trabalho das mulheres no Playboy Club de Nova York, ela conseguiu um emprego como garçonete e trabalhou disfarçada durante 11 dias. A experiência originou uma reportagem que expôs baixos salários, exigências relacionadas à aparência e situações enfrentadas pelas funcionárias.
O trabalho ganhou enorme repercussão, embora a própria jornalista tenha relatado posteriormente que a reportagem também dificultou sua busca por trabalhos mais sérios durante algum tempo.
Sua aproximação com o movimento feminista cresceu nos anos seguintes. Em 1969, Steinem participou de um encontro sobre o direito ao aborto em Nova York. Ela própria havia realizado um aborto quando tinha 22 anos, período em que o procedimento ainda era ilegal em grande parte dos Estados Unidos.
A experiência ajudou a aproximar sua atuação jornalística da militância pelos direitos das mulheres. Steinem passou a participar de manifestações, palestras e debates e ganhou projeção como uma das vozes mais reconhecidas da chamada segunda onda do feminismo americano.
A revista que colocou novos assuntos nas bancas
Um dos capítulos decisivos dessa trajetória foi a criação da Ms. Magazine. A publicação surgiu no início dos anos 1970 e abriu espaço para discussões que raramente apareciam com profundidade nas revistas destinadas às mulheres naquele período.
Aborto, igualdade salarial, violência doméstica, participação política e discriminação no trabalho estavam entre os assuntos abordados.
Steinem permaneceu ligada à revista por décadas e também participou da criação de organizações voltadas à participação feminina na política, representação das mulheres na mídia e defesa de direitos civis.
O National Women's History Museum registra ainda sua participação na criação do National Women's Political Caucus, ao lado de nomes como Bella Abzug, Shirley Chisholm e Betty Friedan. A organização nasceu com o objetivo de ampliar a presença das mulheres na política americana.
Essa combinação entre comunicação e mobilização ajudou Steinem a ultrapassar o papel tradicional de uma escritora ou comentarista. Seu trabalho buscava colocar experiências femininas no debate público e transformá las em questões políticas.
Por que Gloria Steinem continuou influente por décadas
A longevidade de sua presença pública é uma das características mais marcantes de sua história. Steinem atravessou diferentes gerações do feminismo e continuou participando de debates sobre direitos reprodutivos, igualdade racial, representação política e violência contra mulheres.
Também publicou diversos livros. Entre os mais conhecidos está My Life on the Road, lançado em 2015, no qual reuniu experiências acumuladas em décadas de viagens, encontros e ativismo.
Em 2013, recebeu do então presidente Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, considerada a mais alta condecoração civil dos Estados Unidos.
Sua trajetória também chegou ao cinema, ao teatro e à televisão. Em 2020, o filme The Glorias, dirigido por Julie Taymor, apresentou diferentes fases de sua vida. Documentários e peças já haviam explorado sua história e sua participação no movimento feminista.
Steinem continuou ativa mesmo depois dos 80 anos. Participou da Marcha das Mulheres em Washington, em 2017, escreveu, produziu projetos audiovisuais e manteve contato com novas gerações de ativistas.
Sua morte encerra uma trajetória pessoal, mas não as discussões das quais participou. Muitas das questões que ajudou a colocar no debate público, da igualdade no trabalho aos direitos reprodutivos, permanecem presentes na política e na sociedade.
Entender quem foi Gloria Steinem, portanto, ajuda também a compreender parte das transformações ocorridas na vida das mulheres ao longo das últimas seis décadas e por que seu nome permaneceu ligado à história contemporânea do feminismo.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



