Estilo não tem idade e pode sobreviver à obsessão pela juventude
Ideia de que moda e envelhecimento não combinam passa a ser questionada e reforça que personalidade, repertório e liberdade de escolha podem ser mais importantes do que seguir padrões associados à juventude

Durante décadas, a moda esteve fortemente associada à juventude. Passarelas, campanhas publicitárias e editoriais frequentemente apresentaram corpos jovens como referência de beleza, novidade e desejo. O envelhecimento, por outro lado, foi muitas vezes tratado como algo que precisava ser disfarçado ou corrigido.
Essa relação começa a ser questionada com mais força. A ideia de que existe uma maneira “adequada” de se vestir depois de determinada idade perde espaço diante de mulheres e homens que continuam experimentando tendências, misturando referências e construindo uma identidade visual própria ao longo da vida.
Mais do que uma questão de idade, o debate envolve a própria definição de estilo. Se vestir pode ser uma forma de expressão pessoal, e não uma tentativa permanente de parecer mais jovem.
A moda construiu uma relação antiga com a juventude
A associação entre moda e juventude não é recente. O próprio estudo da história da moda mostra como diferentes períodos transformaram a juventude em símbolo de novidade, rebeldia e renovação.
Uma exposição do Fashion Institute of Technology, por exemplo, identifica uma forte valorização da juventude em momentos como as décadas de 1920 e 1960, quando roupas, cabelos e comportamentos associados aos jovens passaram a representar mudanças culturais.
Na indústria contemporânea, essa lógica também foi questionada por pesquisadores e críticos. Um artigo publicado no Fashion Studies Journal observa que a representação limitada de pessoas mais velhas na moda pode reforçar a associação entre juventude, beleza e valor social.
O problema não está em valorizar a juventude, mas em transformá-la em uma espécie de requisito para permanecer relevante. Quando isso acontece, envelhecer passa a ser interpretado como perda de espaço, inclusive para experimentar roupas, acessórios e tendências.
Estilo pessoal não precisa acompanhar a idade
Uma das mudanças mais interessantes está na diferença entre seguir tendências e construir estilo. Tendências mudam rapidamente. Uma cor aparece em uma temporada, determinada modelagem ganha destaque e depois perde espaço, enquanto referências de décadas anteriores retornam constantemente. O estilo pessoal, por sua vez, pode permanecer, se transformar ou incorporar novas referências sem precisar obedecer a um calendário.
É possível que uma pessoa de 50 anos goste de alfaiataria, outra prefira roupas esportivas e uma terceira escolha estampas, cores intensas ou peças consideradas tradicionalmente jovens. Nenhuma dessas escolhas precisa ser justificada pela idade.
A criadora de conteúdo Grece Ghanem, por exemplo, tornou-se conhecida justamente por uma abordagem que mistura cores, estampas, peças clássicas e silhuetas marcantes. Em entrevista ao Remix Magazine, ela resumiu sua visão dizendo que estilo está relacionado à personalidade e que ele pode evoluir com a pessoa ao longo dos anos.
Essa perspectiva também aparece em outros espaços da moda. Em 2025, o South China Morning Post destacou nomes como Martha Stewart, Vera Wang e Grece Ghanem ao abordar a influência de pessoas acima dos 60 anos no universo fashion.
A presença de pessoas mais velhas muda a imagem da moda
A representação também tem papel importante. Durante muito tempo, envelhecer significou desaparecer dos editoriais de moda ou aparecer apenas em contextos muito específicos. A presença de modelos, celebridades e criadores de conteúdo mais velhos amplia as possibilidades de representação.
Em 2026, veículos de moda e comportamento continuam acompanhando esse movimento. Uma publicação da Elixuer Magazine destacou modelos com mais de 50 anos como parte de uma transformação na maneira como a indústria discute idade, beleza e representação.
Nas redes sociais, essa mudança também ganhou força.
Criadores mais velhos passaram a mostrar roupas do cotidiano, combinações de peças, acessórios e maneiras diferentes de interpretar tendências. O resultado é uma imagem da maturidade menos associada à discrição obrigatória e mais ligada à individualidade.
Isso não significa que a indústria tenha abandonado completamente o culto à juventude. A crítica permanece relevante justamente porque a preferência por modelos muito jovens ainda é uma característica importante de parte do mercado. O que mudou foi a existência de outras imagens disputando espaço.
Envelhecer não significa abandonar a moda
A ideia de “se vestir de acordo com a idade” pode parecer simples, mas costuma carregar uma série de expectativas. Determinadas roupas são consideradas apropriadas para jovens, enquanto outras são destinadas a pessoas mais velhas. O resultado pode ser uma espécie de código informal sobre o que alguém deveria ou não usar depois de determinada fase da vida.
Esse código, porém, não leva em consideração diferenças de personalidade, profissão, contexto cultural, corpo ou preferência individual.
Uma pessoa pode adaptar uma tendência à própria realidade sem necessariamente reproduzir o visual visto na passarela. Uma saia curta pode ganhar outra leitura com uma terceira peça; uma cor vibrante pode aparecer em um acessório; uma roupa esportiva pode ser combinada com alfaiataria; uma peça antiga pode voltar ao guarda-roupa depois de décadas.
A experiência também pode ampliar o repertório. Quem acompanha a moda há muitos anos acumula referências de diferentes períodos e pode misturar elementos de épocas distintas. O resultado nem sempre é seguir a tendência mais recente, mas criar uma aparência que tenha relação com a própria história.
O futuro da moda pode ser menos preocupado com idade
Questionar o etarismo na moda não significa dizer que idade deixou de existir ou que todas as pessoas precisam se vestir da mesma maneira. A proposta é justamente ampliar as possibilidades.
A moda pode acompanhar as transformações do corpo e da vida sem transformar essas mudanças em limitações. Conforto, qualidade, praticidade e personalidade podem conviver com tendências, cores, estampas e experimentações.
A discussão também acompanha uma mudança cultural mais ampla. À medida que pessoas mais velhas permanecem visíveis na publicidade, nas redes sociais, no entretenimento e no mercado de trabalho, torna-se mais difícil sustentar a ideia de que determinados interesses têm prazo de validade.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja “qual roupa combina com a minha idade?”, mas “qual roupa combina comigo?”.
A juventude pode continuar sendo uma referência estética, mas não precisa ser uma condição para ter estilo. Afinal, tendências passam. A capacidade de escolher como se apresentar ao mundo pode permanecer por muito mais tempo.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



