Dopamine dressing mostra como as cores ganharam espaço na moda
Tendência que aposta em tons vibrantes e combinações ousadas ganhou força na moda e acompanha uma busca por mais expressão pessoal, enquanto estudos mostram que as cores estão associadas a diferentes emoções, embora não funcionem como uma fórmula para melhorar o humor

Vestir uma roupa colorida pode parecer uma escolha puramente estética, mas as cores também carregam associações emocionais e culturais. É nesse encontro entre moda, identidade e percepção que surgiu o chamado dopamine dressing, expressão usada para descrever a escolha de roupas e acessórios em tons vibrantes, combinações marcantes e visuais mais divertidos.
Apesar do nome, a tendência não significa que uma determinada peça seja capaz de aumentar diretamente a produção de dopamina no cérebro. A relação é mais simbólica: a ideia é usar a roupa como uma forma de expressão e, para algumas pessoas, como uma maneira de buscar uma sensação mais alegre ou estimulante ao se vestir.
A moda colorida também está longe de ser passageira. Em 2026, tons intensos aparecem novamente entre as principais tendências das passarelas, com azul-cobalto, vermelho, roxo, verde e outras cores saturadas ocupando espaço em diferentes coleções.
O que as cores têm a ver com as emoções
A relação entre cor e emoção é estudada pela psicologia há décadas. Uma revisão sistemática publicada em 2025 no periódico Psychonomic Bulletin & Review analisou 132 artigos publicados entre 1895 e 2022, reunindo dados de 42.266 participantes em 64 países.
O trabalho encontrou associações recorrentes entre determinadas cores e emoções. Amarelo e laranja, por exemplo, apareceram relacionados a emoções positivas e de maior ativação, enquanto azul e verde estiveram mais associados a emoções positivas de menor ativação. Rosa também apresentou associações positivas, enquanto vermelho apareceu relacionado tanto a emoções positivas quanto negativas de maior intensidade.
Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva importante: grande parte das evidências avaliadas trata de associações entre cores e emoções, e não de uma relação direta de causa e efeito. Ou seja, não é possível afirmar que vestir amarelo fará uma pessoa ficar feliz ou que usar azul necessariamente produzirá calma.
As associações também podem variar conforme cultura, contexto, experiência pessoal e preferência individual.
Por que o dopamine dressing ganhou força
A expressão ganhou notoriedade especialmente durante o período posterior aos primeiros anos da pandemia, quando cores fortes e estampas passaram a aparecer com mais frequência em coleções e produções de moda.
Em 2021, a Vogue Business já registrava o aumento da procura por roupas mais coloridas e otimistas após o período de restrições, com varejistas observando maior interesse por tons vibrantes, estampas e acessórios chamativos. A publicação também destacou que a relação entre roupa e bem-estar não estava necessariamente na cor em si, mas nas associações que cada pessoa construía com determinada peça.
Desde então, a estética colorida continuou aparecendo em diferentes momentos da moda. Em 2026, a presença de cores intensas ganhou novo impulso, inclusive em combinações que misturam tons aparentemente contrastantes.
Na prática, a tendência representa uma mudança em relação à ideia de que elegância precisa estar necessariamente ligada a preto, branco, bege e outras tonalidades neutras.
As cores vibrantes aparecem em diferentes propostas
Não existe uma única maneira de aderir ao dopamine dressing. A pessoa pode montar um visual completamente colorido ou acrescentar apenas um ponto de destaque.
O azul-cobalto, por exemplo, ganhou força nas coleções de 2026 e aparece tanto em looks inteiros quanto em acessórios. A tonalidade pode ser combinada com branco, jeans e outros neutros ou colocada ao lado de cores mais intensas.
O vermelho e o roxo também aparecem em combinações marcantes. Durante a temporada de outono de 2026, a Vogue destacou justamente o uso conjunto das duas cores em produções de fashionistas e convidados de semanas de moda.
Outras possibilidades incluem verde, laranja, rosa, amarelo e tons de azul. A escolha depende mais da personalidade e do efeito visual desejado do que de uma regra específica.
Como usar cores fortes sem mudar todo o guarda-roupa
Quem está acostumado a roupas neutras não precisa começar com um look totalmente colorido. A introdução pode acontecer aos poucos. Uma bolsa, um lenço, um sapato ou um brinco em uma cor intensa já pode modificar uma produção básica. Outra possibilidade é escolher uma peça vibrante e combiná-la com jeans, branco, preto, cinza ou bege.
Para quem quer experimentar mais, o color blocking permite combinar duas ou mais cores fortes no mesmo visual. Rosa e vermelho, azul e verde, laranja e roxo são algumas das possibilidades que aparecem na moda contemporânea.
Também existe a alternativa monocromática, na qual diferentes tonalidades de uma mesma cor são usadas juntas. O mais importante é considerar contraste, proporção e conforto. Não existe obrigação de usar uma combinação considerada tendência se ela não fizer sentido para quem está vestindo.
Roupa pode influenciar a percepção de quem veste
A relação entre roupa e comportamento também aparece no conceito conhecido como enclothed cognition, que investiga como as roupas podem influenciar sentimentos, pensamentos e comportamentos por meio de seus significados simbólicos.
Uma meta-análise publicada em 2025 avaliou a evidência disponível sobre esse conceito e mostrou que os resultados precisam ser interpretados com cautela. A literatura apresenta efeitos variados e algumas limitações metodológicas, portanto não é possível afirmar que uma roupa específica produzirá automaticamente mais confiança, concentração ou bem-estar.
Ainda assim, existe uma dimensão pessoal importante. Uma determinada peça pode estar associada a uma lembrança positiva, a uma ocasião especial ou simplesmente à sensação de estar bem vestido. Nesse caso, o significado atribuído à roupa pode fazer parte da experiência emocional.
É por isso que uma mesma cor pode produzir percepções completamente diferentes em pessoas distintas.
Moda colorida também é uma forma de identidade
Mais do que uma estratégia para tentar mudar o humor, o dopamine dressing pode ser entendido como uma forma de expressão.
Escolher uma roupa amarela porque ela lembra uma viagem, usar vermelho porque a pessoa gosta da intensidade da cor ou combinar tons diferentes simplesmente porque aquela composição representa seu estilo são formas de transformar o guarda-roupa em uma extensão da identidade.
Essa liberdade também ajuda a afastar a ideia de que existe uma combinação correta para cada pessoa. A moda pode servir tanto para criar contraste quanto para reforçar preferências que já fazem parte do estilo individual.
A tendência das cores vibrantes mostra justamente essa mudança. O objetivo não precisa ser parecer mais jovem, seguir uma cartela específica ou produzir uma determinada emoção. Pode simplesmente ser experimentar.
No fim, o verdadeiro potencial do dopamine dressing está menos em uma suposta ação química da roupa e mais na possibilidade de usar a moda de maneira consciente, criativa e pessoal. As cores podem comunicar, despertar lembranças e modificar a maneira como uma produção é percebida, mas quem dá significado a elas continua sendo quem veste.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



