Como as Havaianas conquistaram o Brasil e 'todo mundo usa'
As Havaianas conquistaram o mundo

Há algum tempo quero escrever sobre essas brasileirinhas, principalmente por serem um verdadeiro ícone nacional e por sua trajetória marcada por mais de seis décadas de sucesso. Estou falando das Havaianas, as legítimas, que há 64 anos acompanham gerações de brasileiros e continuam ganhando novos modelos e cores a cada estação.
Havaianas: uma história democrática que atravessa gerações
Elas são mineiras, paulistas, cariocas. Ou melhor, são do povo. Existem no mundo poucos produtos tão democráticos quanto as Havaianas, que calçam índios, ricos, pobres, artistas, príncipes e princesas. Além disso, são confortáveis e duráveis, características que as tornaram queridas por todos.
Quando morei na Califórnia, um parça de viagem, para variar, perdeu a mala no aeroporto. Portanto, demos queixa na companhia aérea e saímos para uma baladinha com os amigos. No outro dia, na ressaca de Jack Daniel's, voltamos ao aeroporto e encontramos a mala, mas as Havaianas não estavam lá.
Mas, a melhor história aconteceu quando eu estava passando uma temporada no Havaí. A moda entre surfistas e skatistas era virar as sandálias ao avesso. Um gringo parecia irlandês me parou e perguntou quanto eu queria para vender minha sandália. Nessa hora, meu lado comercial bateu mais forte e mandei o preço: "cem doletas". O resultado? Fui descalço de skate para a praia.
O nome Havaianas, dado em terras brasileiras, foi bastante sugestivo, pois a década de 1960 era sinônimo de sol, praia, surfe e gente bonita. Para iniciarmos essa história, é importante saber que, segundo o dicionário Aurélio, chinelo significa "sapato velho e acalcanhado". Já sandália, do latim sandálium, remete a um calçado formado por uma sola ligada ao pé por meio de correias.
No Japão, se vocês tiverem a oportunidade de assistir a algum filme épico de Akira Kurosawa, perceberão que sandálias semelhantes eram usadas com frequência em vestimentas tradicionais do país.
Mas décadas depois, as Havaianas foram inseridas no mercado oriental como produto de moda. Com design e cores variadas, associadas a um preço acessível para a classe média japonesa, transformaram-se em um verdadeiro case de sucesso.
O crescimento das Havaianas no Brasil
As sandálias foram lançadas no mercado nacional em São Paulo.
As Alpargatas, do grupo Camargo Corrêa, lançaram as Havaianas em 1962. A patente foi registrada em 13 de agosto de 1964. O texto apresentado ao Departamento de Propriedade Industrial continha os seguintes dizeres: "Modelo de palmilha com forquilha".
O slogan era simples: "Todo mundo usa".
Os primeiros modelos possuíam solado branco e tiras azuis ou pretas. Como a indústria brasileira ainda caminhava a passos lentos, algumas unidades saíram com as tiras esverdeadas. Na época, isso parecia apenas um erro de fabricação. Décadas depois, essas peças se transformaram em itens cobiçados por colecionadores.
As Havaianas praticamente criaram um novo padrão de merchandising e ajudaram a revolucionar a publicidade nacional. Diversas personalidades passaram a representar a marca em programas populares entre as décadas de 1960 e 1990.
Um dos exemplos mais marcantes foi Chico Anysio, responsável por eternizar o slogan: "Não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro".
A expansão global das Havaianas
O que nasceu como um produto popular brasileiro se transformou em uma das marcas mais reconhecidas do país no exterior. A internacionalização ganhou força no fim da década de 1990 e acelerou nos anos 2000, quando as Havaianas passaram a ser posicionadas não apenas como sandálias, mas como símbolo de estilo de vida.
Atualmente, a marca está presente em mais de 100 países distribuídos pelos cinco continentes. O produto conquistou mercados importantes como Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Reino Unido, Austrália e Japão, tornando-se presença constante em praias, centros urbanos e destinos turísticos.
Em 2003, as Havaianas presentearam todos os indicados ao Oscar com sandálias exclusivas. A ação chamou atenção da imprensa internacional e ajudou a consolidar a imagem da marca fora do Brasil.
No ano seguinte, uma parceria com a joalheria H.Stern resultou em uma edição limitada com ouro 18 quilates e diamantes, mostrando que um produto originalmente popular também poderia ocupar espaço no mercado de luxo.
Nos anos seguintes, a marca ampliou sua presença no universo fashion. Colaborações com marcas internacionais, estilistas e designers ajudaram a transformar as Havaianas em item recorrente de editoriais de moda e vitrines de grandes capitais.
A partir da década de 2010, a empresa passou a investir fortemente na diversificação do portfólio. Além das tradicionais sandálias, chegaram ao mercado bolsas, acessórios, vestuário, toalhas, óculos e coleções especiais desenvolvidas para diferentes públicos.
O avanço da marca também aconteceu por meio de colaborações que chamaram atenção do mercado internacional. Nos últimos anos, as Havaianas lançaram coleções ao lado de grifes como Dolce & Gabbana, marcas de moda contemporânea e artistas que ajudaram a reposicionar o tradicional chinelo brasileiro dentro do universo fashion.
O mundo das celebridades também abraçou a marca. Modelos, influenciadores e artistas internacionais passaram a utilizar Havaianas em campanhas, editoriais e eventos de moda. Entre os nomes ligados a ações recentes da empresa está a modelo Gigi Hadid, escolhida para campanhas globais voltadas ao público jovem.
Em 2025 e 2026, a empresa reforçou sua presença internacional com novas coleções, linhas premium e produtos inspirados nas principais tendências globais de moda casual. A coleção Puffed ganhou destaque em campanhas internacionais, enquanto modelos como Square e Slim seguem entre os mais vendidos da marca.
A Copa do Mundo de 2026 também entrou na estratégia da empresa. Novas coleções inspiradas em países participantes do torneio e em referências ligadas ao futebol reforçaram uma conexão que acompanha a marca há décadas.
Mais do que um chinelo, as Havaianas se transformaram em um dos maiores símbolos da criatividade brasileira no mercado internacional.
A história dos modelos Havaianas
Nasce uma estrela (1962)
A inspiração veio da sandália de dedo japonesa chamada Zori. Feita de borracha e com o formato de grão de arroz como textura da palmilha, nascia um clássico.
A Kombi (1964)
Vendedores-viajantes levavam Havaianas para cada canto do país dirigindo Kombis. Estacionavam em frente ao comércio local e todos corriam para ouvir notícias da cidade grande e, sobretudo, comprar seu par de Havaianas.
De tão icônico, nos últimos anos a marca recriou esse "foot truck": uma Kombi itinerante que percorre o Brasil participando de eventos e ações promocionais.
As Legítimas (1966)
Sim, as Havaianas inventaram o chinelo de dedo de borracha. E a prova está na patente registrada em 1966. "As Legítimas", como dizia a campanha que ajudou a consolidar a marca entre os brasileiros.
Mais cores (1969)
Desde seu surgimento, as Havaianas Tradicional eram conhecidas principalmente pelas combinações clássicas. Em 1969, por um erro de maquinário, surgiram as primeiras versões com tiras verdes. O público aprovou a novidade e, pouco depois, chegaram outras cores, como amarelo e preto.
Item básico (1980)
As Havaianas se tornaram essenciais para os brasileiros, como arroz e feijão na mesa. Nos anos 1980, o Ministério da Fazenda incluiu os chinelos na lista de produtos com preço controlado, permitindo que continuassem acessíveis mesmo em um período marcado pela inflação elevada.
Paixão nacional (1998)
Em 1998, uma edição limitada foi lançada para celebrar a Copa do Mundo realizada na França. Nasciam as Havaianas Brasil Logo.
O modelo trazia uma pequena bandeira do Brasil aplicada às tiras e filetes verde-amarelos na sola. Essas características permanecem até os dias atuais e ajudaram a transformar a versão em um dos maiores sucessos da história da marca.
Reinventando clássicos (2000–Presente)
Afinal, Havaianas nunca parou de inovar. A partir dos anos 2000, a marca iniciou uma das maiores transformações de sua história. O que antes era visto apenas como um chinelo popular brasileiro passou a ocupar vitrines de grandes centros de moda e a disputar espaço com marcas internacionais de luxo.
Modelos como Slim, Square, plataformas, rasteirinhas, slides e versões premium ampliaram o alcance da marca para novos públicos. Ao mesmo tempo, as Havaianas passaram a investir em coleções especiais, estampas exclusivas, pedrarias, bordados e customizações artesanais em todas as gerações.
A estratégia também incluiu colaborações com alguns dos nomes mais influentes da moda mundial. Nos últimos anos, a marca lançou coleções em parceria com grifes internacionais, levando o tradicional chinelo brasileiro para passarelas, editoriais de moda e lojas de luxo.
O universo das celebridades também ajudou a impulsionar essa nova fase. Personalidades internacionais passaram a incorporar Havaianas em produções de moda fora do ambiente praiano, ajudando a consolidar a marca como peça de estilo e não apenas de conforto.
Em 2025 e 2026, a empresa reforçou sua presença no mercado fashion com novas coleções internacionais e linhas inspiradas nas principais tendências globais. A coleção Puffed ganhou destaque em campanhas internacionais, enquanto modelos como Square e Slim seguem entre os mais vendidos da marca.
A Copa do Mundo de 2026 também entrou na estratégia da empresa. Novas linhas inspiradas em seleções e países participantes do torneio chegaram às lojas, reforçando a ligação histórica das Havaianas com o futebol.
Mais de seis décadas depois do lançamento, a marca continua fazendo algo raro: permanecer presente no armário de diferentes gerações ao mesmo tempo. Do trabalhador ao empresário, do surfista ao artista de Hollywood, do consumidor que compra seu primeiro par ao colecionador de edições limitadas.
Digníssimas, democráticas e mundiais.
Talvez o maior segredo das Havaianas nunca tenha estado na borracha, nas cores ou nas campanhas publicitárias. Talvez esteja na capacidade de acompanhar histórias. Elas já caminharam por ruas de terra, atravessaram aeroportos, entraram em palácios, passaram por passarelas de moda e chegaram a praias em praticamente todos os continentes.
Algumas ficaram esquecidas na porta de casa. Outras viajaram o mundo dentro de uma mala. Muitas guardam lembranças de férias, encontros, despedidas e recomeços.
Poucos produtos conseguem atravessar tantas gerações sem perder sua essência. Enquanto marcas nascem e desaparecem, as Havaianas continuam seguindo seu caminho silenciosamente, nos pés de milhões de pessoas.
Não sei se você está lendo esta matéria usando uma agora. Talvez tenha apenas um par. Talvez tenha vários espalhados pela casa. Mas existe uma verdade que atravessa décadas, fronteiras e classes sociais e o digital.
As Havaianas conquistaram o Brasil, ganharam o mundo e continuam provando todos os dias que o antigo slogan estava certo:
Todo mundo usa.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.
