Botas voltam ao centro da moda: couro ou materiais sintéticos?
Modelos de couro, materiais sintéticos e alternativas de menor impacto dividem espaço nas tendências de moda e na busca por peças duráveis

As botas continuam entre os itens mais versáteis do guarda-roupa, mas a escolha do material ganhou novos critérios nos últimos anos. Além do design, conforto e preço, consumidores passaram a encontrar no mercado opções de couro animal, materiais sintéticos e alternativas desenvolvidas com diferentes propostas ambientais.
A discussão ficou mais complexa porque termos como “couro ecológico”, “couro sintético” e “couro vegano” nem sempre significam a mesma coisa. A própria ideia de temporada também mudou. As coleções de moda estão menos presas à divisão tradicional entre verão e inverno, enquanto peças como botas aparecem em diferentes épocas do ano, dependendo do modelo, do clima e da combinação com outras roupas.
Para 2026, a moda internacional mantém as botas entre os destaques para os meses mais frios. A Elle, ao analisar as tendências de outono de 2026, aponta a presença de botas de couro em propostas que misturam referências românticas, texturas e silhuetas contemporâneas.
O cenário também influencia o comportamento de compra. O relatório The State of Fashion 2025, produzido pelo The Business of Fashion em parceria com a McKinsey, identificou consumidores mais atentos ao valor das compras e ao desejo de gastar melhor. Mais de 60% dos consumidores dos Estados Unidos e do Reino Unido disseram que procuram economizar com frequência ou o máximo possível em roupas, calçados e acessórios.
Couro sintético e couro ecológico não são a mesma coisa
Um dos principais pontos de confusão está justamente na nomenclatura. O couro tradicional é produzido a partir de pele animal submetida a processos de curtimento e acabamento. Já o chamado couro sintético costuma ser produzido a partir de materiais poliméricos, como poliuretano (PU) ou PVC, e não contém pele animal.
O termo “couro ecológico”, por outro lado, não deve ser tratado automaticamente como sinônimo de material sintético ou como garantia de menor impacto ambiental. Dependendo do produto e da legislação aplicada ao mercado, a expressão pode ser utilizada para diferentes tipos de materiais e processos. Por isso, observar a composição indicada na etiqueta é mais seguro do que escolher uma peça apenas pelo nome comercial.
Também é importante abandonar a ideia de que todo material sintético é necessariamente mais sustentável que o couro animal. O impacto ambiental de um calçado depende de uma cadeia extensa, que inclui matéria-prima, fabricação, energia, transporte, durabilidade e descarte.
Uma análise da McKinsey sobre a pegada ambiental de calçados estima que cerca de 60% das emissões associadas a um par representativo vêm das matérias-primas utilizadas em sua fabricação. O levantamento mostra por que a discussão sobre sustentabilidade não pode ser reduzida a uma simples comparação entre dois materiais.
Além disso, alternativas de base biológica e materiais reciclados vêm sendo desenvolvidos para substituir parte dos materiais convencionais. A análise Sustainable style: How fashion can afford and accelerate decarbonization, também da McKinsey, destaca a expansão de alternativas de menor impacto, incluindo materiais reciclados e alternativas de couro de origem biológica.

Como escolher uma bota além da aparência
Para quem pretende comprar uma bota, a durabilidade deve entrar na conta. Uma peça que combina com diferentes roupas e permanece em boas condições por mais tempo pode ter melhor relação entre custo e uso do que um modelo escolhido apenas pelo preço inicial.
O acabamento também merece atenção. Costuras, solado, zíperes, palmilha e estrutura do cano ajudam a determinar a resistência do calçado. Em modelos de couro, os cuidados recomendados pelo fabricante podem prolongar a vida útil. Já em materiais sintéticos, é importante observar as orientações específicas de limpeza e conservação, pois determinados produtos podem danificar a superfície.
A composição também deve ser consultada. Em vez de assumir que uma bota é “ecológica” por causa da descrição utilizada na publicidade, o consumidor pode verificar a etiqueta, procurar informações sobre a origem do material e observar se a marca apresenta dados sobre produção, rastreabilidade ou certificações.
Essa preocupação ganhou espaço na indústria da moda. Em 2025, uma análise da McKinsey sobre sustentabilidade na cadeia de produção destacou que mais de 80% dos profissionais consultados consideravam certificações ambientais e sociais, transparência, rastreabilidade e uso de materiais sustentáveis requisitos importantes na escolha de fornecedores.
No Brasil, a discussão acontece em um mercado calçadista de grande escala. Dados do Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, da Abicalçados, mostram que o país produziu 847 milhões de pares em 2025. O consumo aparente chegou a 786,7 milhões de pares, enquanto as importações cresceram 20,6% no período. Para 2026, a entidade trabalha com cenários que vão de uma queda de 1,2% a um crescimento de 1,4% na produção.
A Abicalçados também aponta avanço de práticas relacionadas a ESG na cadeia produtiva brasileira, mostrando que sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão de marketing e passou a fazer parte das discussões sobre competitividade, produção e posicionamento da indústria.
Moda cíclica favorece peças que atravessam temporadas
A bota é um exemplo de peça que acompanha a lógica da moda cíclica. Modelos que aparecem em uma temporada podem retornar anos depois, com pequenas alterações de formato, acabamento ou combinação.
Por isso, investir em uma peça versátil pode ser uma alternativa para quem deseja renovar o guarda-roupa sem depender exclusivamente de tendências passageiras. Botas de cano curto podem ser combinadas com calças, vestidos e saias, enquanto modelos de cano alto podem ganhar espaço em produções de inverno ou em composições mais sofisticadas.
Para quem busca economia, outlets, liquidações e mercados de segunda mão também podem ampliar as opções. O importante é avaliar o estado da peça, a qualidade dos materiais e a possibilidade de uso por diferentes ocasiões.
A discussão sobre couro, portanto, vai além da escolha entre “ecológico” e “sintético”. Não existe uma resposta única que determine qual material é sempre melhor em todos os aspectos. A composição, a procedência, o processo de fabricação, a durabilidade e o destino da peça depois do uso precisam ser considerados em conjunto.
Em um momento em que a moda combina nostalgia, novas tecnologias e maior atenção ao consumo, as botas continuam relevantes justamente pela capacidade de atravessar diferentes estilos e períodos. A escolha mais consciente começa por conhecer o produto antes da compra e priorizar aquilo que realmente terá espaço no guarda-roupa por mais tempo.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



