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A seleção perdeu a Copa. O Brasil corre o risco de perder algo ainda maior

Mais do que uma eliminação precoce, o Mundial expôs como identidade, cultura e propósito

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Lucas machado e a reflexãso sobre a copa do Mundo
A seleção perdeu a Copa. O Brasil corre o risco de perder algo ainda maior • Arquivo pessoal

A Copa do Mundo termina, mas algumas derrotas continuam produzindo reflexões muito depois do apito final. A eliminação precoce da seleção brasileira já foi analisada sob praticamente todos os aspectos possíveis: escolhas táticas, desempenho individual, planejamento e gestão. Ainda assim, a sensação que permanece vai além do resultado esportivo.

O que mais incomodou não foi apenas deixar o torneio antes da hora. Foi perceber que, pela primeira vez em muito tempo, a seleção saiu sem deixar uma história capaz de permanecer na memória coletiva. Houve uma época em que bastava vestir a camisa amarela para despertar uma expectativa sobre a forma como o Brasil jogaria. Existia uma identidade reconhecível antes mesmo do primeiro toque na bola. O futebol brasileiro representava criatividade, improviso, alegria e ousadia. Nesta Copa, essa impressão simplesmente desapareceu.

Identidade não vive apenas da memória

Essa percepção diz respeito não apenas ao esporte, mas também à maneira como construímos reputações. Marcas conseguem sobreviver por algum tempo apoiadas na força do passado, porém deixam de ser relevantes quando aquilo que entregam já não corresponde à promessa construída ao longo dos anos. O mesmo acontece com seleções, empresas, artistas e profissionais. História abre portas, mas não garante permanência.

Enquanto o Brasil buscava uma identidade que nunca se consolidava dentro de campo, outras seleções mostravam exatamente o contrário. Cabo Verde emocionou muito além dos resultados ao transformar sua campanha em uma demonstração de pertencimento. Marrocos confirmou que seu crescimento não foi obra do acaso, mas consequência de um projeto consistente. A Noruega apresentou uma equipe organizada, segura de sua proposta e transformou até suas comemorações em um símbolo nacional. A Inglaterra mostrou como cultura e futebol podem caminhar juntos ao fazer da música uma extensão da arquibancada e fortalecer o vínculo entre varias ferações incluindo a geraçào Z e seleção.

Nenhuma dessas manifestações decide uma partida. Mas todas ajudam a explicar por que algumas equipes mobilizam emoções muito maiores do que seus resultados. Futebol nunca foi apenas competição. Também é patrimônio simbólico, identidade coletiva, autoestima e uma poderosa ferramenta de construção da imagem de um país.

Talvez por isso a eliminação brasileira tenha provocado uma sensação tão difícil de explicar. Não parecia faltar talento. O Brasil continua formando alguns dos melhores jogadores do mundo. O que faltou foi enxergar uma ideia coletiva capaz de representar aquilo que, durante décadas, fez da seleção uma referência global.

A mesma lição vale para as marcas

Enquanto acompanhava essa Copa, não consegui deixar de pensar no mercado da comunicação. Nas últimas semanas, a criatividade brasileira voltou a ser reconhecida internacionalmente em importantes festivais. É motivo de orgulho. Mas também de reflexão.

Durante muitos anos bastava afirmar que criatividade era o maior diferencial de uma agência ou d eum profissional de comunicação.. Esse discurso já não responde às perguntas feitas por presidentes de empresas e conselhos de administração. Hoje, quem investe em comunicação espera crescimento, vantagem competitiva e geração de valor. Ninguém compra criatividade como fim. Compra aquilo que ela é capaz de produzir.

Essa lógica aproxima publicidade e futebol de uma maneira curiosa. Ambos dependem de talento, mas sobrevivem graças à capacidade de transformar talento em resultado. Um jogador extraordinário não muda sozinho o destino de uma seleção. Da mesma forma, uma campanha brilhante não sustenta uma marca se ela não fortalecer reputação, confiança e diferenciação.

A maior derrota não aparece no placar

Toda Copa do Mundo coroa um vencedor, revela novos heróis e deixa ensinamentos que caminham muito além das quatro linhas. Para o Brasil, talvez o mais valioso deles seja lembrar que identidade não é um troféu guardado na estante, mas uma chama que precisa ser alimentada todos os dias. Ela sobrevive das escolhas, dos gestos e da verdade presente em cada caminho percorrido. A glória construída ao longo da história permanece viva, mas perde parte de sua força quando o presente já não consegue refletir aquilo que um dia fez daquela marca um símbolo admirado pelo mundo.

O talento brasileiro nunca deixou de existir, dentro ou fora dos gramados. O verdadeiro desafio jamais foi formar pessoas extraordinárias, mas transformar esse dom em uma identidade capaz de atravessar o tempo. No futebol, isso significa voltar a emocionar por meio de uma forma de jogar que revele a alma do país. Na comunicação, significa construir marcas que permaneçam vivas muito depois que uma campanha termina. Porque as vitórias passam, os aplausos silenciam e os troféus envelhecem. O que realmente permanece é aquilo que continua habitando a memória, inspirando confiança e fazendo as pessoas reconhecerem, naquele símbolo, um pouco de si mesmas.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.