Tensão, desculpas e ligação escondida: os bastidores da reunião entre Fuad e Gabriel sobre a tarifa do ônibus
Encontro terminou com acordo apontando que sejam aportados R$ 512 milhões no sistema de transporte
A reunião de quase quatro horas entre o prefeito Fuad Noman (PSD) e o presidente da Câmara, Gabriel Azevedo (sem partido), na noite da última quinta-feira (18), terminou com o encaminhamento de acordo entre as partes para viabilizar mudanças no transporte público da capital e pela tentativa de manter o preço de tarifa em R$ 4,50, mas momentos de discussão acalorada, tensão e críticas mútuas marcaram o encontro.
Já de início, Gabriel e Fuad não se cumprimentaram com cordialidade, o que já sinalizava os rumos da conversa. Em certo momento, o prefeito afirmou que Gabriel tentava invadir prerrogativas do Executivo, como a definição e estudo do valor da tarifa, e chegou a afirmar que o vereador queria "mandar na prefeitura". O episódio iniciou um breve momento de troca de ofensas entre os dois.
Em outra parte da reunião, Azevedo criticou empresários do transporte público que participavam do encontro - o vereador afirmou que deles, só queria informações sobre o custo total do sistema, afirmando que a separação de quanto seria arrecadado via tarifa e quanto por subsídio ao sistema não seria "problema" deles. Um dos empresários protestou, afirmando que quem decidia sobre a reunião era Fuad, uma vez que o encontro acontecia "na casa" do prefeito - a sede da prefeitura.
Pouco depois, integrantes do Conselho do Setra afirmaram que, preservado o custo total do sistema estudado, não tinham interesse em saber de onde o recurso viria - daí, deixaram a reunião. Antes de saírem, Fuad pediu desculpas ao grupo pela fala anterior do presidente da Câmara, vista como deselegante. O prefeito voltou a dizer que Gabriel tentava mandar na prefeitura, mas não conseguiria.
A reunião seguiu com a presença de Fuad, Gabriel, o consultor especializado da prefeitura, Jorge Luiz Prym, o subprocurador Caio Perona, o assessor da presidência da Câmara, Alberto Lage, e o Superintendente de Mobilidade da SUMOB, André Dantas.
Aliás, Dantas também acabou atingido pelas falas de Gabriel. O chefe da SUMOB não gostou nada ao ouvir que a conta feita pela prefeitura sobre o valor do subsídio necessário estava incorreta. Mesmo com a insatisfação pela fala ter sido exposta na mesa, não houve discussão.
O presidente da Câmara protagonizou ainda outra situação curiosa. Durante a reunião, deixou a mesa para ir ao banheiro e, de lá, ligou para o secretário de Fazenda, Leonardo Colombini, para tentar novas informações para a negociação.
Sobrou ainda um início de falas ríspidas de Azevedo para o consultor Jorge Luiz Prym. O vereador disse que Prym aconselhava Fuad "ao abismo".
Apesar da tensão na maior parte, também houve minutos de conversas pessoais. Fuad e Gabriel chegaram a falar sobre questões familiares, como a dor de perder parentes e até cirurgias.
No fim das contas, a reunião terminou com acordo apontando que sejam aportados R$ 512 milhões no sistema de transporte, verba que seria suficiente para baixar a passagem dos atuais R$ 6 para R$ 4,50 - valor que era cobrado até 23 de abril.
Agora, a discussão é encontrar formas da PBH conseguir custear o subsídio neste patamar. Conforme nota conjunta divulgada pelo Executivo e pelo Legislativo, os empresários concordaram com o valor do subsídio e a consequente redução da passagem para R$ 4,50.
Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.
