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Sem controle na Câmara e crise com aliados: o que levou Valadão a pedir demissão da secretaria de Governo

Escolha de Castellar Neto contou com reunião reservada

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A saída de Valadão do posto é resultado de meses de crise política com a Câmara Municipal e até com aliados do prefeito
A saída de Valadão do posto é resultado de meses de crise política com a Câmara Municipal e até com aliados do prefeito • Divulgação

Coube ao próprio Josué Valadão tomar a decisão de deixar o comando da articulação política da Prefeitura de Belo Horizonte e sugerir ser substituído na Secretaria de Governo. Nesta segunda-feira (7), Valadão comunicou ao prefeito Fuad Noman (PSD) que sentiu ser hora de deixar o posto, mas se colocando à disposição para continuar ajudando - ele, agora, vai coordenar as regionais, a pedido do prefeito.

A saída de Valadão do posto é resultado de meses de crise política com a Câmara Municipal e até com aliados do prefeito. Embora mantenha boa relação com a maioria das lideranças partidárias, Valadão vinha tendo dificuldades de atender a base e, principalmente, de lidar com as investidas do presidente da Câmara, Gabriel Azevedo (sem partido), que chegou a citar, reservadamente, o impeachment do prefeito como uma possibilidade real nos últimos dias.

No início do ano, Valadão chegou a entregar o cargo ao prefeito depois de perder a disputa pela presidência da Câmara. Na época, Fuad rejeitou a ideia e disse que o então secretário deveria trabalhar para conduzir os interesses da prefeitura mesmo com Gabriel no comando. Não deu certo. Valadão, ao tentar agradar separadamente diversos aliados, gerou turbulências entre eles. Ao tentar prestigiar o PSD, desagradou o Patriota. Aumentou a presença do PT na prefeitura e, em consequência, gerou uma disputa interna com o Avante. Entregou pastas importantes ao grupo liderado pelo secretário de Estado de Casa Civil, Marcelo Aro, coordenador de uma bancada de nove parlamentares, e mesmo assim não conteve ânimos exaltados.

Vai além: Valadão também preferiu concentrar a articulação sempre em seu nome e acabou minando potenciais aliados. Em fevereiro, o PSD chegou a indicar a ex-vereadora Luzia Ferreira para auxiliar o secretário no contato com a Câmara. Já nas primeiras semanas, comunicou Ferreira que ela não teria autonomia para negociar espaços na prefeitura e suas regionais. Ela deixou o cargo em pouco tempo depois.

Em situação parecida, Claudiney Dulim se licenciou do cargo de vereador para assumir a Secretaria de Assuntos Institucionais e ajudar Valadão nas conversas políticas. Dulim também sofreu com a "falta de tinta" na caneta dada e pouco conseguiu avançar.

À coluna, o chefe de gabinete do prefeito, Daniel Messias não deu detalhes sobre a saída, mas elogiou o trabalho de Valadão na pasta de Governo. “Josué Valadão contribuiu muito para Belo Horizonte. Eu digo sempre que não conheço alguém que conheça mais a cidade de Belo Horizonte que Josué Valadão. É preciso respeitar a história das pessoas, e fico muito feliz que ele seguirá contribuindo e entregando seus conhecimentos, agora como consultor junto ao gabinete do prefeito”, pontuou.

A propósito, o novo papel de Valadão, em atuar diretamente com as regionais, já tem gerado discussão interna na prefeitura: as regionais são constantemente alvos de pedidos de parlamentares e é sempre possível, até provável, que o secretário de Governo ou outros interlocutores da articulação política precisem promover mudanças nas estruturas. Há um temor que aconteçam ruídos entre Valadão e o novo secretário sobre isso.

Ao comunicar que era hora de sair, Valadão também participou do pequeno brainstorm para o substituto. A reunião decisiva contou com poucas pessoas. Daniel Messias e o próprio Fuad pontuaram questões para chegar a um interlocutor que conseguisse reconstruir a relação com Gabriel ao mesmo tempo em que tivesse o aval de aliados importantes.

E assim foi formada uma unidade em torno do advogado Castellar Neto. Amigo pessoal de Daniel Messias, da confiança de Fuad e também muito próximo de lideranças políticas, como o próprio Aro.

Além da boa relação com políticos, Castellar tem bom trânsito nas instituições de poder de Minas. É advogado de muitos personagens da classe política mineira e seu pai, o ex-procurador-geral Castellar Filho, já atuou como procurador da prefeitura na gestão Alexandre Kalil.

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Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.