'Dark Horse': produtora nega envolvimento com fundos e emendas
Karina Ferreira da Gama afirmou à CNN Brasil que não participava da gestão do fundo do filme e que seu papel era produzir, relatando ainda pressões por delação premiada

A produtora Karina Ferreira da Gama, responsável pelo filme "Dark Horse", afirmou em entrevista exclusiva à CNN Brasil que sua função no projeto era produzir o longa e que não participava da gestão do fundo responsável pelos recursos. Ela também falou sobre as dificuldades financeiras enfrentadas durante a produção, a suspeita de que recursos de Daniel Vorcaro tenham financiado o filme e as pressões que, segundo ela, sofreu para fazer uma delação premiada. Karina ainda negou que "Dark Horse" tenha recebido recursos de emendas parlamentares.
Ao longo da entrevista, Karina negou ter tido relação direta com Vorcaro ou com empresas ligadas ao banqueiro e afirmou que os contratos mantidos pela produtora são protegidos por cláusulas de sigilo e confidencialidade. A produtora reiterou que "Dark Horse" não recebeu recursos de emendas parlamentares e relatou ameaças que, segundo seu relato, teriam partido de pessoas com quem teve relações profissionais e pessoais.
Karina foi alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (10), que apura suposto desvio de emendas parlamentares. Duas investigações sobre o filme tramitam no STF (Supremo Tribunal Federal): uma, sob relatoria de Flávio Dino, trata das emendas; outra, com André Mendonça, apura os repasses de Daniel Vorcaro feitos a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Questionada sobre o investidor inicial do projeto, Karina afirmou que, para ela, sempre foi o fundo Havengate. Segundo a produtora, havia um investidor interessado no filme desde o início, mas o orçamento passou por ajustes conforme o roteiro avançava e a equipe definia atores, locações, câmeras e outros elementos da produção. Ela explicou que o primeiro orçamento era apenas uma estimativa e que o valor efetivo só poderia ser definido depois da decupagem do roteiro.
“Você faz um orçamento estimado, mas o que vai realmente valorar o orçamento é quando você vai decupar o roteiro. Porque até então eu não sei quantas câmeras são, eu não sei quantas locações vão ser, eu não sei quem são os atores, quantos atores, quais são os personagens que o diretor vai usar.”
Karina afirmou que, conforme o orçamento era reduzido, a equipe precisava adaptar o projeto para conseguir concluir a produção. Segundo ela, o fundo também realizou uma due diligence sobre a produtora e seus responsáveis. A produtora ainda revelou que apresentou documentos pessoais e empresariais, mas que não tinha como atribuição investigar a origem dos recursos do fundo.
“Eu não participei do fundo. Eu nunca participei do fundo e não era o meu papel. O meu papel ali era contratada do fundo.”
De acordo com o relato, depois de o projeto e o orçamento serem aprovados, sua responsabilidade passou a ser a execução da produção. “O fundo me validou, aprovou meu projeto, aprovou o orçamento, agora eu vou produzir.”
Karina afirmou que foi no fim de 2025 que a equipe começou a perceber problemas financeiros relacionados aos recursos disponíveis para o projeto. Segundo ela, naquele momento a produção já estava em andamento e havia uma estrutura grande envolvida nas filmagens.
A produtora disse que eram 40 dias de filmagem e que, diante das dificuldades orçamentárias, a equipe foi cortando e simplificando etapas para conseguir concluir o projeto.
Questionada sobre o custo total, Karina afirmou que foram gastos US$ 13,3 milhões. Ela disse que os recursos eram privados e, quando questionada se havia dinheiro público, respondeu que não.
"Tudo dinheiro privado."
Karina também foi questionada sobre a suspeita de que recursos repassados por Daniel Vorcaro poderiam ter sido utilizados para outras finalidades que não o filme. Na quarta-feira (9), o ministro André Mendonça homologou a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, que afirma ter feito sete transferências, somando US$ 12,3 milhões, ao fundo Havengate em 2025, por determinação de Vorcaro e após pedidos de Flávio Bolsonaro. A homologação, não obstante, não significa que as afirmações tenham sido comprovadas.
A produtora afirmou que não recebeu dinheiro diretamente de Vorcaro e que não existiu relação entre a produtora e empresas ligadas a ele.
“É porque o Vorcaro não deu nenhum centavo para a produtora. Não existiu nenhuma relação da produtora com o Vorcaro. Não existiu nenhuma relação da produtora com as empresas do Vorcaro, não existiu.”
Questionada se os recursos teriam ido para o fundo, Karina confirmou. Ela afirmou ainda que só soube pela imprensa qual empresa teria investido no fundo, já que não considerava essa uma informação que deveria ser repassada a ela como contratada.
A produtora também explicou que não poderia divulgar contratos e acordos comerciais à imprensa por causa de cláusulas de confidencialidade, mas afirmou que pode fornecer as informações às autoridades caso seja formalmente solicitada.
“Eu não posso divulgar o salário, o acordo comercial de empresas e prestadores de serviços, para a imprensa. Eu posso divulgar para as autoridades.”
Karina também negou que "Dark Horse" tenha recebido recursos de emendas parlamentares.
“"Dark Horse" não tem emenda. Não existe emenda para "Dark Horse", nenhuma emenda. Nunca foi feito projeto público para o "Dark Horse", nunca foi.”
Na entrevista, ela diferenciou o filme de outros projetos sociais que menciona como parte de sua atuação. Karina citou o Lutando pela Vida, voltado a artes marciais para crianças, adolescentes e idosos, e o Jovem Empreendedor, ligado a iniciativas de empreendedorismo.
A produtora também falou sobre conflitos envolvendo um projeto de Wi-Fi e afirmou ter sofrido ameaças. Segundo o relato, os episódios envolveram um ex-marido e um ex-fornecedor.
Karina contou que um fornecedor teria deixado de cumprir obrigações relacionadas ao projeto e que, em determinado momento, o sinal foi desligado. Depois disso, segundo ela, começaram pressões relacionadas à continuidade da iniciativa. Ela afirmou que as denúncias que posteriormente chegaram à imprensa tiveram relação com esse contexto e confirmou, ao ser questionada, que atribuía o início delas ao ex-marido e ao ex-fornecedor.
Segundo Karina, o ex-fornecedor teria pedido R$ 2,5 milhões para não prejudicar o projeto. “Esse ex-fornecedor queria ali um valor: 2 milhões e meio.”
Karina afirmou ainda ter sido procurada por um advogado que ofereceu apoio jurídico e mencionou relações no STF (Supremo Tribunal Federal). Segundo ela, esse advogado também teria oferecido auxílio caso ela quisesse fazer uma delação.
“Falou assim: ‘Olha, se precisar de uma delação, se você quiser oferecer uma delação, eu posso te ajudar nisso, porque eu tenho bom relacionamento no Supremo e posso te auxiliar’.”
Posteriormente, de acordo com a produtora, um pastor amigo também entrou em contato e afirmou que havia pessoas dispostas a ajudá-la. Karina disse que ele também mencionou a possibilidade de uma delação.
Questionada se o pastor havia citado nomes de pessoas às quais teria acesso, ela confirmou. Quando perguntada especificamente sobre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, Karina afirmou que não poderia revelar o nome.
A produtora afirmou que atribui o que vem enfrentando a preconceito, perseguição política e ganância. Segundo ela, a situação teria feito com que se sentisse pressionada a apresentar uma versão dos fatos que atendesse às expectativas de terceiros.
“Eu fico numa situação que me deixa com medo. Porque eu não estou falando do projeto, eu tenho que falar o que querem ouvir, senão vão fazer da minha vida um inferno. Senão vão misturar tudo da minha vida e vão falar que é a mesma coisa.”
Karina voltou a dizer que sua função era produzir o filme, e não captar os recursos utilizados no projeto.
“Eu fui contratada para produzir. Eu não fui contratada para captar recursos. Eu fui contratada para produzir.”
Durante a entrevista, Karina também falou sobre sua trajetória política e afirmou que já foi eleitora de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Eu já fui eleitora do Lula. Eu já votei no Lula. Eu acreditei nos projetos do Lula. Eu já acreditei.”
Ela disse que definiu o seu voto após o atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro (PL), em 2018. Segundo Karina, o episódio fez com que passasse a conhecer mais sobre a trajetória do ex-presidente e mudasse sua posição política.
“E quando eu fui mergulhar na história do Jair, do presidente Bolsonaro, eu conheci um homem e uma história que me chamou muita atenção.”
Karina também afirmou considerar que existe censura em relação ao projeto e comparou a situação com a possibilidade de produzir um filme sobre Lula.
“Se eu estivesse fazendo o filme do Lula, alguém estaria me censurando? Eu tenho certeza que não.”
Ela argumentou que a mesma distribuidora responsável pelo filme de Bolsonaro também trabalhou em uma produção sobre Lula. Para Karina, impedir a produção por se tratar de um filme sobre Bolsonaro configuraria censura.
Questionada sobre a previsão de lançamento de "Dark Horse", Karina afirmou que havia uma data, mas que atualmente não consegue trabalhar para viabilizar o lançamento.
“A gente tinha uma data de lançamento, mas a gente não consegue trabalhar. Eu não consigo trabalhar.”
No fim da entrevista, Karina foi questionada sobre a condução das investigações e se ela acreditava que poderia se tornar uma espécie de “novo Mauro Cid”. A produtora afirmou que essa é a sensação que tem diante das pressões que diz estar sofrendo.
“Quando você me pergunta a minha sensação da operação e da condução das investigações, eu entendo que é como se eu fosse o próximo Mauro Cid. Que eu preciso incriminar pessoas.”
Questionada diretamente se seria o próximo Mauro Cid, Karina afirmou que não tem informações que possam incriminar outras pessoas e que sua participação no caso se limitou à produção do filme e de projetos sociais.
“Não vou [ser o próximo Mauro Cid], (...) porque eu não tenho como incriminar ninguém. Eu não tenho, eu não vi, eu não participei de nada que incrimine pessoas. Tudo que a gente fez foi um filme.”
Karina ainda disse que pretende colaborar com as autoridades, desde que isso ocorra dentro dos procedimentos legais.
“Essa é a minha função: contribuir com as autoridades. Mas desde que as autoridades possam nos dar o direito legal. (...) Mas parece que não existe justiça. Parece que a justiça está franqueada e o meu direito, roubado.”
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