Investigação contra Discord segue mesmo após suspensão de transmissões ao vivo, diz ANPD
Diretor da Agência Nacional de Proteção de Dados afirmou que pôr fim às transmissões ao vivo era uma 'medida urgente'

O diretor da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), Iagê Miola, afirmou, nesta quarta-feira (12) que a suspensão de transmissões on-line realizadas no Discord no território brasileiro, não encerra a investigação contra a plataforma social de jogos.
A determinação de pôr fim às lives acontece após a abertura de um processo de fiscalização, na última sexta-feira (7), para apurar falhas na proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Em entrevista à CNN, Miola destacou que a suspensão das transmissões foi uma medida "contra o que era mais urgente". Entretanto, "não encerra o processo de investigação". "Estamos olhando a plataforma como um todo e observando as vulnerabilidades da plataforma perante o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] digital", disse.
Suspensão de transmissões ao vivo no Discord
A medida atinge o recurso "Go Live", que permite a transmissão on-line, e ferramentas equivalentes de compartilhamento de vídeo. Vale destacar que a plataforma não será bloqueada no país.
A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) informou que a suspensão acontece porque usuários ficam expostos a "conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes no âmbito do seu serviço, sobretudo indução, incitação, instigação ou auxílio à violência, à automutilação e ao suicídio".
Para Iagê Miola, a plataforma não comprovou garantias de segurança aos menores, principalmente o aliciamento para a prática das atividades denunciadas.
"Há uma prática de aliciamento de crianças que são trazidas para o Discord, que permite essas lives em servidor privado. Esta funcionalidade em particular, da maneira que está apresentada hoje, não oferece segurança às crianças e adolescentes, não tem um recurso para impedir essas práticas ou conteúdos de automutilação e suicídio", disse o diretor da ANPD.
A suspensão da funcionalidade permanece em vigor até que a plataforma demonstre a implementação de medidas de segurança para crianças e adolescentes.
A decisão anunciada nesta quarta-feira (12) determina um prazo de três dias úteis para a aplicação da medida. Caso não seja cumprida, a ANPD pode aplicar sanções que incluem multa de até R$ 50 milhões por infração.
O Discord afirmou, em nota, que "cuidadosamente analisando" a determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados. Segundo a plataforma, "a caracterização do Discord feita pela ANPD não reflete a plataforma que construímos nem os investimentos que temos feito na segurança dos usuários".
Por fim, a empresa indicou que "não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência".
Investigação contra Discord

As investigações envolvendo a plataforma Discord no Brasil abrangem ações policiais, sanções administrativas do governo e discussões sobre regulação digital. Os trabalhos ganharam força após cinco adolescentes serem apreendidos e um homem preso por induzir o suicídio de uma adolescente de 13 anos, de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, por um grupo formado na plataforma.
Na última quinta-feira (6), durante sanção do projeto de lei que endurece penas por violência sexual contra crianças, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, pediu o banimento do Discord. "Precisamos atuar junto com o Judiciário para tirar essa rede horrorosa do ar", disse.
Dias antes, o Ministério da Justiça realizou a "Operação Lívia" contra redes criminosas que utilizavam plataformas digitais, como o Discord, para promover violência contra mulheres e meninas. A pasta acusa o Discord de descumprir as regras de verificação etária previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital.
Desde a entrada em vigor da norma, a autodeclaração de idade deixou de ser aceita como mecanismo de verificação no Brasil. A investigação aponta que um dos adolescentes alvo da operação conseguiu acessar a plataforma após informar ter 148 anos.
O governo indica, ainda, que as transmissões eram realizadas por crianças e adolescentes. Por isso, o Executivo entende que a plataforma tinha o dever de interromper as lives e comunicar imediatamente as autoridades policiais.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.



