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Insatisfação na base, 'timing' na oposição: impeachment de Fuad ronda gabinetes na Câmara de BH

Aliados do prefeito estão irritados e grupo opositor começa a sondar construção de pedido

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O mês de agosto será de observação dos grupos. Se o vento continuar soprando para o lado da insatisfação, há quem aposte que talvez fique tarde demais para Fuad reparar a situação
O mês de agosto será de observação dos grupos. Se o vento continuar soprando para o lado da insatisfação, há quem aposte que talvez fique tarde demais para Fuad reparar a situação • Cláudio Rabelo/CMBH

A palavra impeachment passou a ser citada com mais frequência em conversas privadas na Câmara Municipal de Belo Horizonte. Uma junção de fatores, entre eles o descontentamento de parte da base do prefeito Fuad Noman (PSD) com o Executivo, tem seduzido a oposição a iniciar um movimento de sondagem para avançar e retirar o chefe do Executivo do cargo - o substituto, no caso, seria o presidente da Casa, Gabriel Azevedo (sem partido), que não só acompanha de perto os movimentos como já começa a atuar ativamente.

Durante esta quarta-feira (3), a oposição - que conta com cerca de 13 parlamentares, incluindo Gabriel - intensificou conversas com o tema impeachment. Um dos parlamentares do grupo, Ciro Pereira (PTB), chegou a passar horas no gabinete da presidência para tratar sobre a obstrução de pauta do plenário, capitaneada por ele para retaliar a prefeitura por reuniões canceladas. Neste gabinete, também foram feitos telefonemas para membros da base, especificamente para integrantes da chamada Família Aro, que compõe a ala governista da Câmara e, desde abril, tem sido a principal sustentação de Fuad no Legislativo.

A Família Aro é composta, hoje, por nove vereadores. O batismo foi dado porque todos esses parlamentares são ligados - e informalmente coordenados - pelo secretário de Estado de Casa Civil, Marcelo Aro. Em abril, Aro fechou acordo com Fuad para que o grupo integrasse a base e, em troca, indicou três nomes para assumir secretarias na prefeitura: colocou o ex-deputado Zé Reis no Meio Ambiente, o professor Charles Martins Diniz na Educação e Fernando Campos Motta na pasta de Desenvolvimento Econômico.

Desde o acordo, o grupo conseguiu aprovar e articular projetos de interesse da prefeitura na Câmara, "freou" avanços de CPIs que incomodavam o Executivo e deu fôlego para Fuad. Recentemente, um novo aceno do prefeito ao grupo foi feito, com a nomeação de dezenas de indicados pelos vereadores da Família Aro para cargos comissionados de assessoria na Secretaria de Governo.

Só que há insatisfação. Nas palavras de um interlocutor do grupo, a nomeação de secretários indicados por Marcelo Aro foi "entregar uma caneta banhada a ouro, muito bonita e imponente, mas sem tinta". A referência se dá porque os secretários sentem não possuir autonomia para atuar nas pastas Recentemente, na Educação, a prefeitura nomeou dois subsecretários na pasta, ligados ao PT, mas sem antes consultar o próprio secretário.

Na Meio Ambiente, para atender a demandas do PSD, partido do prefeito, foi nomeado o ex-deputado Osvaldo Lopes como secretário adjunto. Também sem a anuência do chefe da pasta. Essa nomeação em específico atingiu em cheio outro pilar da base do prefeito na Câmara: o então vice-líder do governo, Wanderley Porto (Patriota).

Porto deixou a vice-liderança em julho insatisfeito com a condução da prefeitura na nomeação de Lopes - os dois são ativistas com pautas de direitos dos animais e serão rivais na eleição do ano que vem. O movimento de nomear o ex-deputado justamente em um posto em que Lopes poderá aparecer com relevância para este setor deixou Porto irritado. Ele, apesar disso, permanece na base.

Outro aliado que tem se queixado do tratamento da prefeitura é o deputado federal Luis Tibé (Avante). Influente articulador na política da capital, Tibé tem sido um dos mais próximos auxiliares do prefeito na Casa, mas também tem demonstrado insatisfação com a falta de autonomia para atuar com o Executivo. O secretário de Assuntos Institucionais, Claudiney Dulim (Avante), por exemplo, foi o nome de Fuad para assumir a presidência da Câmara em janeiro. Ligado a Tibé, Dulim foi para o Executivo para auxiliar a articulação política, mas tem tido ideias barradas pelo núcleo mais próximo do prefeito.

Com a insatisfação crescente, mas ainda tímida em ser externada, a oposição começa a ganhar cada vez mais coragem para atuar e convencer colegas a seguirem com um pedido de impeachment. Um vereador do PSD, mais uma vez, o partido do prefeito, chegou a confessar aos pares que não votaria pela abertura de um processo, mas se seu voto fosse necessário para atingir os 28 para cassar, na votação final, ajudaria.

Apesar dos acenos e movimentos, mesmo que tímidos, vereadores 'firmes' da base do prefeito ainda não acreditam que a situação passe a ganhar esse nível de extremismo na Câmara. Há, de fato, insatisfeitos, como sempre aconteceu em qualquer administração pública, mas interlocutores da prefeitura acreditam que são situações contornáveis e que já estão sendo trabalhadas. "Há uma tentativa de se criar um clima péssimo, mas não está nesse nível. Longe disso", conta um articulador do prefeito, em anonimato.

O mês de agosto será de observação dos grupos. Se o vento continuar soprando para o lado da insatisfação, há quem aposte que talvez fique tarde demais para Fuad reparar a situação.

A propósito, na manhã desta sexta (3), Fuad afirmou que crises com vereadores não assustam. “Essas pequenas crises que acontecem não me assustam. A cidade precisa de trabalho. O povo é quem paga a conta no final”, minimizou o prefeito, após assinar a ordem de serviços para uma obra na Avenida Sebastião de Brito, na Zona Norte da capital mineira.

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Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.