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O preço começa no campo: a relação entre oferta e valor final ajuda a explicar períodos em que alimentos ficam mais baratos

Rodolfo Molinari explica como clima, oferta, logística, impostos e perdas interferem no valor pago pelo consumidor

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Rodolfo Molinari, produtor rural e presidente da Comissão Técnica de Hortaliças e Flores da FAEMG
Rodolfo Molinari explica que o produtor muitas vezes toma decisões sem conhecer exatamente o comportamento futuro do mercado • Reprodução | Youtube Itatiaia

O preço que chega ao supermercado é resultado de uma cadeia que começa muito antes da exposição do produto na prateleira. No caso das hortaliças, essa cadeia é especialmente sensível porque o produtor trabalha com alimentos perecíveis, sujeitos às condições climáticas e sem possibilidade de armazenamento prolongado para esperar uma melhora nos preços.

Para Rodolfo Molinari, produtor rural e presidente da Comissão Técnica de Hortaliças e Flores da FAEMG, um dos principais problemas está justamente na falta de previsibilidade. O produtor precisa decidir o que plantar e em qual quantidade sem necessariamente saber como estará o mercado no momento da colheita.

A situação pode mudar rapidamente. “Na batata, por exemplo, dependendo da quantidade de caminhões que chegam à Ceasa e da demanda, o preço pode mudar no mesmo dia”, explica. Para ele, “o telefone tocando é um termômetro de preço”.

Nas hortaliças, o planejamento é ainda mais complexo porque a colheita não pode simplesmente ser adiada. “Amadureceu, você tem que colher e vender. Não dá para esperar”, afirma Rodolfo. Se existe excesso de oferta no momento da colheita, o produtor fica sujeito a preços menores. Quando a oferta é menor, a situação pode se inverter.

Esse cenário ajuda a explicar por que o produtor muitas vezes toma decisões sem conhecer exatamente o comportamento futuro do mercado. Segundo Rodolfo, existe um componente de experiência e tradição, mas também um efeito de repetição. Se determinado produto teve bom resultado em um ano, o produtor tende a ampliar a área plantada no período seguinte.

“Se determinado produto foi bom no ano passado, ele aumenta a área”, diz.

Uma das alternativas apontadas pelo produtor para reduzir essa imprevisibilidade é ampliar a utilização de contratos. No segmento de hortaliças, porém, esse tipo de relação ainda é pouco comum. Segundo Rodolfo, contratos são raros para produtos como folhosas, cenoura e cebola. A batata apresenta uma dinâmica diferente em determinados segmentos, especialmente quando existe ligação com a indústria de batata pré-frita.

A ausência de previsibilidade também está relacionada à distância entre quem produz e quem compra. Rodolfo defende uma maior conexão entre os diferentes elos da cadeia para que o produtor tenha acesso a mais informações sobre consumo, demanda e comportamento do mercado.

“Existe uma falta de conexão entre o campo e o mercado. Você não consegue saber quando vai ter um pico de consumo”, afirma.

Outro fator importante é o custo de produção. As hortaliças podem exigir investimentos elevados por unidade produzida, principalmente quando o objetivo é trabalhar em grande escala. Nesse cenário, infraestrutura, segurança jurídica e acesso a crédito aparecem como pontos fundamentais.

A mão de obra também pesa. No cultivo de alho, Rodolfo afirma que são necessárias de 12 a 14 pessoas por hectare. Considerando os 8 mil hectares de alho existentes em Minas Gerais, a demanda por trabalhadores ultrapassa 100 mil pessoas, segundo o cálculo apresentado por ele durante a entrevista.

Mesmo com o avanço tecnológico, a substituição da mão de obra ainda é limitada nas hortaliças. A tecnologia avançou principalmente em áreas como genética e embalagens, enquanto o trabalho diretamente no campo continua exigindo grande quantidade de pessoas.

A cadeia também acumula custos depois que o produto deixa a propriedade. O alimento pode passar por distribuidores e outros agentes até chegar ao supermercado, incorporando despesas com frete, logística, impostos, estrutura e operação.

Além desses custos, existe ainda o problema das perdas. Produtos como folhosas e alguns legumes são mais sensíveis e podem sofrer perdas durante a comercialização. Rodolfo afirma que, em alguns casos, essas perdas podem chegar a 15%.

Por isso, ele chama atenção para uma percepção comum do consumidor: a de associar automaticamente o preço elevado no supermercado ao ganho do produtor rural.

“Muitas vezes o consumidor chega lá e fala: ‘Ah, mas está caro’. E geralmente essa culpa cai no produtor rural. E não é o último, é o que menos recebe na estrutura toda da cadeia.”

Na visão de Rodolfo, a solução não está necessariamente em eliminar intermediários. Cada elo pode exercer uma função diferente dentro da cadeia, e a venda direta ao supermercado não é viável em todos os casos.

“Eu não acabaria com etapas. Eu buscaria regular melhor essas etapas e, principalmente, reduzir a carga de impostos.”

Além da redução de custos, ele defende uma relação mais próxima entre produtores e os demais agentes do mercado, com maior troca de informações.

A tecnologia pode contribuir também para aproximar o consumidor da origem dos alimentos. Rodolfo cita a rastreabilidade por QR Code, que permite identificar onde determinado produto foi produzido e quais procedimentos foram utilizados durante a produção.

Para ele, porém, ainda existe uma distância entre aquilo que já é feito no campo e aquilo que chega ao conhecimento do consumidor. Práticas relacionadas à economia de água, uso de produtos biológicos, sustentabilidade e segurança alimentar já fazem parte da produção, mas precisam ser melhor comunicadas.

“Isso já acontece muito no campo e, às vezes, a gente não está conseguindo transmitir isso ao consumidor final.”

A relação entre oferta e preço também ajuda a explicar a existência de períodos em que determinados alimentos podem ficar mais baratos. Rodolfo cita os meses de inverno, especialmente entre maio e agosto ou setembro, quando temperaturas mais amenas e menor volume de chuvas podem favorecer a produtividade das hortaliças.

Com maior oferta, o preço pode cair para o consumidor.

No fim da cadeia, a informação passa a ser tão importante quanto a produção. Para Rodolfo, o consumidor precisa conhecer a origem dos alimentos, entender os investimentos feitos no campo e perceber que existe tecnologia, segurança alimentar e controle por trás de produtos que parecem muitas vezes simples na prateleira.

“Tem muita tecnologia investida, tem muita segurança alimentar e tem muita segurança na questão de uso de insumos.”

A formação do preço, portanto, não começa no supermercado. Ela é resultado de uma sequência de decisões, custos, riscos e condições que acompanham o alimento desde o campo até a mesa.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todos os sábados, às 8h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio. Grandes nomes.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

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