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Mulheres na Urna: geração carrega legado em 2026, quase um século após 1º voto feminino

Rute Silva, de 71 anos, e Marianna Jardim, de 19, vivem novas relações com a urna: de um lado, a primeira eleição, e, do outro, o primeiro voto facultativo

Por e 
MULHERES NA URNA
À esq. Marianna Jardim; ao centro, Rute Silva; à direita, Celina Guimarães. • Imagens cedidas | Arte elaborada pela reportagem.

Lá em 1927, quando Celina Guimarães Viana se tornou eleitora no Rio Grande do Norte, o direito das mulheres ao voto ainda não era reconhecido nacionalmente no Brasil. Quase um século depois, a presença feminina nas urnas faz parte da rotina democrática do país. Nas eleições de 2026, elas são maioria entre os eleitores aptos: 83,9 milhões de mulheres, o equivalente a 52,84% do eleitorado brasileiro.

Desde a conquista do voto até os dias atuais, nesse intervalo de quase cem anos, se encontram duas histórias que carregam o legado do voto feminino por diferentes gerações. De um lado está Marianna Jardim, jovem de 19 anos que vai votar pela primeira vez esse ano. Do outro, a história é de Rute Silva, que com 71 anos passa a viver uma nova relação com a urna: pela primeira vez, ela tem o voto dado como facultativo e poderá decidir se vai ou não participar das eleições. 

Essa é a segunda reportagem da série "Mulheres na Urna", publicada semanalmente no portal da Itatiaia às sextas-feiras. Na última semana, contamos a história de Celina Guimarães Viana, a primeira mulher a votar no Brasil, antes mesmo de o voto feminino se tornar um direito no país. A vida de Celina, inclusive, passa por Belo Horizonte — confira detalhes aqui.

A nova geração de eleitoras

Em entrevista à reportagem da Itatiaia, Marianna Jardim revelou que a estreia nas urnas representa a possibilidade de participar diretamente das decisões que afetam a sociedade ao seu redor. "É uma oportunidade para eu conseguir também ter algum tipo de decisão dentro da realidade em que eu vivo e conseguir fazer parte de algo maior", afirma a jovem.

Marianna conta que começou a compreender melhor o funcionamento da política por volta dos 15 ou 16 anos, principalmente a partir do contato com temas de geopolítica na escola. Embora pudesse ter participado do pleito aos 16 anos, quando o voto ainda seria facultativo, ela acabou deixando o título para depois e só passou a fazer parte oficialmente do eleitorado aos 18.

Ao relembrar o contexto em que o voto feminino se tornou uma realidade no Brasil, Marianna rejeita a ideia de que hoje votar seja algum tipo de privilégio. Para a jovem, trata-se de um direito que outras mulheres antes dela precisaram lutar para conquistar.

"Com certeza tenho mais direitos que as mulheres de antigamente, o que é muito bom. Mas, para mim, esse é o mínimo. Tem estado muito em debate essa questão do voto feminino. É um absurdo que isso esteja aberto à discussão, não parece real. Foi uma conquista, mas não foi a conquista de um privilégio, foi uma conquista do que deveria ser um direito básico de qualquer ser humano", alertou Marianna. 

'A gente nunca pode parar de lutar'

Como estreante, Marianna chega à urna com uma preocupação diferente daquelas mulheres que precisaram reivindicar a participação no processo eleitoral: a jovem precisa decidir como exercer um direito que já está garantido e, com ele, ajudar a construir o futuro do seu próprio país. Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. 

"Acho que é uma grande responsabilidade, porque eu não voto só por mim, eu voto pelas outras pessoas também. Eu não posso só pensar nos meus interesses. Quando eu vou escolher um candidato, tenho que pensar no interesse dos outros, da maior parte da população, e de outras minorias também", revelou a nova eleitora.

A jovem ressalta também a importância de que as mulheres, mesmo com o direito ao voto já conquistado, defendam sua posição dentro do cenário político. Segundo ela, a luta por espaço ainda deve continuar.

"O direito das mulheres nunca é algo garantido. Amanhã eles podem decidir tirar isso e pronto. A gente nunca pode parar de lutar para ocupar esse tipo de espaço", refletiu Marianna. 

Na foto, Marianna Jardim, de 19 anos • Imagem cedida à Itatiaia
Na foto, Marianna Jardim, de 19 anos • Imagem cedida à Itatiaia

Maioria das mulheres 70+ não votaram em 2022

No Brasil, o voto é facultativo por idade para jovens de 16 e 17 anos e para pessoas com mais de 70 anos. De acordo com a Constituição Federal (artigo 14, parágrafo 1º), as faixas etárias com voto opcional compreendem:

  • Jovens de 16 e 17 anos: o alistamento e o voto são uma escolha do jovem. Caso decida emitir o título de eleitor, ele pode votar, mas não tem nenhuma obrigação legal de comparecer às urnas.
  • Maiores de 70 anos: a partir dos 70 anos de idade, o voto deixa de ser um dever obrigatório e passa a ser facultativo. O idoso não precisa pagar multas nem justificar a ausência caso não vá votar.

A possibilidade de deixar de votar a partir dos 70 anos não significa que as pessoas idosas tenham deixado de ter participação política. No entanto, a dispensa da obrigatoriedade do voto é acompanhada por índices elevados de abstenção entre essa parcela da população — especialmente em um recorte de gênero: o feminino.

Em 2022, ano marcado pela última eleição presidencial, o número de abstenções entre idosas, entre 70 a mais de 100 anos, foi de 62,89%, segundo os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

(Confira no fim desta reportagem mais dados sobre a participação de mulheres nas eleições). 

É neste contexto que surgiu o movimento Voto70+ uma iniciativa cívica criada pelo Data 8, consultoria e hub de pesquisas voltado à população com mais de 50 anos, para fortalecer a participação da população idosa nas eleições.

A atuação do Voto70+ começa a partir das redes sociais, com a campanha adotando uma linguagem acolhedora, afirmativa e pedagógica. Os conteúdos divulgados reforçam o lema de que a "experiência constrói o futuro", unindo a valorização do papel democrático da terceira idade a orientações sobre acessibilidade, prioridade no atendimento e direitos políticos.

A estratégia de mobilização do movimento combina ações virtuais com o engajamento comunitário, buscando conectar o eleitor idoso a familiares e redes de apoio. Por meio de seu portal, a iniciativa disponibiliza recursos como o "Guia de Mobilização", molduras digitais para fotos de perfil, guias de narrativa e materiais para impressão, além de contar com a adesão de figuras públicas de destaque, a exemplo do médico Drauzio Varella e da atriz Tânia Maria.

Na prática, o movimento fomenta o diálogo intergeracional ao convocar filhos e netos a apoiarem o deslocamento e a logística dos idosos até as seções eleitorais, transformando o ato de votar em uma demonstração coletiva de cidadania e pertencimento.

Em entrevista à reportagem da Itatiaia, a sócia-fundadora do Data 8, Cléa Klouri, destacou que o cenário entre as mulheres com mais de 70 anos ganha características próprias: questões históricas relacionadas à participação feminina na política, a influência familiar, a responsabilidade pelo cuidado de outras pessoas e o etarismo estão entre os fatores apontados como obstáculos à presença das eleitoras mais velhas nas urnas.

"A mulher tem um nível de abstenção mais baixo que o dos homens antesdos 70 anos. A partir desta idade, as mulheres votam menos", disse Cléa, indicando que o Data 8 levantou quatro hipóteses para o dado:

  • Mulheres entre 80 e 85 anos, que não tiveram uma participação política durante a juventude, devido ao contexto em que viveram, cercadas por machismo e por falas como "política é coisa de homem".
  • Falta de incentivo da família, em que parentes afirmam que pelo voto ser facultativo, não é mais importante exercer tal direito.
  • O papel da mulher, mesmo que 70+, de cuidar de pessoas da família e, consequentemente, não ter a possibilidade de ir votar.
  • Etarismo, com a mulher sofrendo mais deste preconceito do que os homens, e o sentimento de desvalorização.

Os fatores citados acima estão relacionados com a baixa autoestima eleitoral: a percepção de que o voto, a opinião e a participação na vida pública teriam perdido importância com o avanço da idade. Mas, o afastamento das urnas pode representar uma perda de espaço deste grupo que segue fazendo parte da sociedade e sendo afetado pelas decisões políticas.

Neste sentido, é importante destacar que, segundo os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a expectativa de vida das mulheres no Brasil é de 79,9 ao nascer. O número mostra uma evolução histórica: em 1940, a expectativa de vida feminina era de 45,5 anos.

Hoje, as mulheres vivem, em média, 6,6 anos a mais que os homens no país, cuja expectativa de vida é de 73,3 anos. Os dados, e o aumento da expectativa de vida ao passar dos anos, podem destacar a importância de continuar participando da vida social e política do país.

Geração 'herdeira' de Celina

A geração que possui, hoje em dia, 70 anos ou mais, presenciaram ou tiveram familiares que viveram parte da história que engloba a luta feminina pelo direito ao voto e à participação política. Essas mulheres vieram depois do primeiro voto feminino ser registrado no Brasil, protagonizado por Celina Guimarães Viana.

"Toda essa conquista é extremamente importante e não pode ser abandonada agora. A nossa campanha chama 'O voto da experiência', porque elas viveram muitos momentos aqui no Brasil, com ditadura militar, redemocratização, impeachment, com várias coisas que aconteceram ans últimas décadas. Então, deixar de ouvi-las agora é quase que um absurdo", declara Cléa Klouri.

A conquista do voto feminino e da eleição de mulheres na política brasileira foi alcançado oficialmente em 1932. Desde então, o eleitorado feminino tornou-se o maior. Ao mesmo tempo, apenas uma mulher conseguiu chegar ao cargo de Presidência da República: Dilma Rousseff, eleita duas vezes em 2011 e 2015, sofrendo um impeachment em 2016.

No Brasil, até as eleições de 2022, nove mulheres foram eleitas (por voto direto) para o cargo de governadora de estado. No âmbito de Minas Gerais uma mulher nunca foi eleita no estado, nem de forma titular nem interina.

Votar para o presente e o futuro

Mesmo em um cenário em que a maioria das mulheres com mais de 70 anos tenham se abstido de votar em 2022, Rute Silva, de 71, vai contra essa maré. Em entrevista à Itatiaia, ela conta que "faz questão" de participar das eleições.

"É a minha obrigação. É o meu dever ir votar, votar em quem a gente quer. Antes, quando era jovem, não gostava [de participar das eleições], mas comecei a me conscientizar e entender que deve ser visto como um dever, temos que cumprir para o bem do Brasil, um país que já passou por coisas muito ruins", contou dona Rute.

Para ela, a decisão de as mulheres idosas continuarem votando é uma decisão de honrar e garantir os direitos: "As mulheres devem ter todos os direitos quanto os homens. Eles pensam que fazem melhor do que a gente, mas estamos no mesmo patamar, ou até melhor (risos)".

"Todo mundo que vai votar tem que ver o que é melhor para nós mesmos, para os nossos filhos, nossos netos, porque o que vem para frente tem que ser o melhor para eles. Não adianta você anular, votar em branco", finalizou dona Rute Silva.

Na foto, Rute Silva de 71 anos • Imagem cedida à Itatiaia
Na foto, Rute Silva de 71 anos • Imagem cedida à Itatiaia

Mulheres na urna: juventude cresce, mas terceira idade se abstém

Os dados das últimas eleições gerais, realizadas em 2022, revelam a força e importância da participação feminina entre as eleitoras mais jovens. Naquele pleito, 9.906.389 mulheres de 18 a 24 anos estavam aptas a votar.

Dessas, 8.069.602 compareceram às urnas, o equivalente a 81,46%. Os números de comparecimento se destacam quando comparados ao índice apresentado por homens da mesma faixa etária, que marcaram 75,60% nas urnas. Compare: 

O cenário, porém, se inverte quando o voto deixa de ser obrigatório e passa a ter caráter facultativo, é o que ilustra os dados apresentados pelo TSE para eleitores com idades acima de 70 anos. Nesse contexto, mulheres idosas tendem a se abster mais que os homens.

Em 2022, foram contabilizados os votos de mais de três milhões de mulheres acima dos 70. O montante, porém, equivale a apenas 37,11% daquelas aptas a votar. O percentual de abstenções alcançou 62,89%, com mais de cinco milhões de faltantes. 

Já entre os homens dessas faixa etárias, a adesão é bem maior. Os dados apontam que nas últimas eleições gerais, 46,44% dos aptos compareceram as urnas, contra 53,56% de abstensores. Veja o gráfico:

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

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Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

 

 

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