Mulheres na Urna: conheça Celina Guimarães, primeira mulher a votar no Brasil e que viveu em BH
Quase 100 anos depois do primeiro registro eleitoral de Celina Guimarães Viana, a Itatiaia visitou a casa onde ela viveu em BH e ouviu familiares sobre o legado de pioneirismo

Quem passa pela esquina entre as ruas Juiz de Fora e Rodrigues Caldas, no bairro Santo Agostinho, na Região Centro-sul de Belo Horizonte, talvez não imagine que uma casa neste endereço guarda parte da história do voto feminino no Brasil.
Foi ali que viveu Celina Guimarães Viana, professora potiguar que entrou para a história como uma das pioneiras na conquista do direito das mulheres à participação política. Celina, há quase 100 anos, foi a primeira eleitora do país.
Quase um século depois, a história repercutiu nas redes sociais por meio de um registro publicado pela neta e pela bisneta da própria Celina. As mineiras Gina Viana e Fernanda Viana, herdeiras diretas desse legado, relembraram com orgulho o feito da professora, que passou os últimos anos de vida na capital mineira.
A reportagem da Itatiaia decidiu mergulhar no assunto e descobrir mais sobre a vida e a trajetória de Celina Guimarães Viana. Essa é a primeira de uma série de reportagens da série “Mulheres na Urna”, que será publicada às sextas-feiras.
Mulheres na Urna: conheça Celina Guimarães, primeira mulher a votar no Brasil e que viveu em BH
📹 Itatiaia | Júlia Melgaço, Gabriela Neves e Caio Barros pic.twitter.com/i6pm7QM9fX
— Itatiaia (@itatiaia) September 25, 2026
Quem foi Celina Guimarães Viana?
Celina Guimarães Viana (1890-1972) foi a primeira mulher a votar no Brasil. Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, a professora mudou-se para Acari, em 1912, e, dois anos mais tarde, para Mossoró — na companhia do marido, também professor, Eliseu de Oliveira Viana (1890-1960). O casal teve um filho adotivo, Pedro Wilson Viana, que faleceu há cinco anos.
Inclusive, foi em Mossoró que a pioneira, aos 37 anos, com a autorização do marido, exerceu o direito ao voto pela primeira vez. Ao longo da apuração desta história, a reportagem encontrou divergências nas datas referentes a quando o voto foi, de fato, realizado.
Há registros de que Celina tenha se alistado como a primeira eleitora do Brasil e da América Latina em Mossoró, em novembro de 1927, após o Rio Grande do Norte aprovar uma lei que retirava a distinção de sexo para votar. No mesmo ano, ela teria votado em uma eleição complementar para a vaga de senador no estado, após Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956) deixar o mandato para concorrer ao governo, em uma disputa que terminou com sua vitória.
Em entrevista à Itatiaia, familiares da pioneira relataram comemorar o fato de que, em 2026, completam-se 99 anos do voto de Celina. Ao mesmo tempo, uma publicação do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) indica que Celina teria sido oficialmente eleitora, na verdade, na eleição realizada em 1928.

Fato é que o voto feminino no Rio Grande do Norte tornou-se possível antes do que no restante do país, seja em 1927 ou 1928. Oficialmente, o direito ao voto feminino foi reconhecido em 1932 e incorporado à Constituição de 1934, ainda que de forma facultativa.
Rio Grande do Norte
Juvenal Lamartine de Faria, responsável por provocar a eleição complementar em 1927, também teve papel importante para que o voto de Celina fosse autorizado. No mesmo ano, ele enviou um telegrama solicitando que homens e mulheres tivessem direito ao voto no Rio Grande do Norte, medida posteriormente formalizada pela Lei Estadual nº 660.
Foi também graças a essa legislação que o Partido Republicano conseguiu o alistamento eleitoral e lançou a candidatura da potiguar Luiza Alzira Soriano Teixeira à Prefeitura de Lages. Ela venceu as eleições de 1928, com 60% dos votos.
O mandato de Luiza Alzira foi curto, pois ela não apoiou a política de Getúlio Vargas após a Revolução de 1930. Entretanto, com o fim do Estado Novo, ela voltou à esfera política em 1945 e foi eleita vereadora por duas vezes. As informações são do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG).
Familiares relatam vivências de Celina
Celina e Eliseu eram professores. No Rio Grande do Norte, o casal frequentava diversas fazendas para compartilhar o conhecimento e a cultura que havia adquirido ao longo da vida. É o que conta Gina Viana, neta do casal, em entrevista à reportagem:
"Eles eram convidados para ir em fazendas porque tinham muito assunto, tinham muito o que contar e, em troca disso, ganhavam cesta básica. Naquela época, era tudo mais difícil, todo mundo morava precariamente e, pela localização em que eles estavam, era muita pobreza, muito abandono. Acho que nessas condições, ao eles verem essa realidade, quiseram mudar, fazer alguma coisa", relatou Gina.
Eliseu de Oliveira Viana, nascido em Pirpirituba, na Paraíba, trabalhou em escolas femininas. Para Gina e sua filha, Fernanda Viana, o avô (e bisavô) estava à frente de seu tempo:
"Na minha cabeça, ele viu a realidade em que mulheres eram oprimidas, dependiam de casamento, dependiam financeiramente. Eles conheciam muitas pessoas, naquela época todo mundo se conhecia, eram cidades pequenas, então o debate deles foi realmente buscando fazer com que mulheres pudessem ter o mínimo de autonomia", disse Gina.

Mudança para BH
Assim como há uma imprecisão sobre quando o voto de Celina foi realizado, há uma lacuna na história que explique por que Celina e Eliseu decidiram se mudar para Belo Horizonte. As familiares confirmaram que o casal, antes de chegar à capital mineira, morou em Teófilo Otoni, na Região Nordeste de Minas Gerais.
"Acredito que começou a ter mesmo intrigas políticas, até pela busca desse direito de Celina votar. Não era um ambiente tranquilo. Então acho que eles tiveram que falar 'chega, não vamos ter sossego aqui, então vamos para Minas', e eles realmente vieram, construíram essa casinha que é muito 'bonitinha'", contou a neta, Gina.
A casa a que Gina se refere foi construída na esquina das ruas Juiz de Fora e Rodrigues Caldas, no bairro Santo Agostinho, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O imóvel ainda é de propriedade da família, mas, hoje em dia, é alugado para terceiros.
Antes, entre as décadas de 1970 e 1980, Gina, quando criança, morou na residência, junto com o pai, Pedro Wilson Viana, os irmãos e a avó Celina. "Eu tinha uns 7 anos. A vovó Celina foi uma pessoa querida por todo mundo, pelos vizinhos, pelas pessoas com quem ela conviveu. Só que ela era bem quietinha, já estava em uma fase muito caseira", relatou.
Gina ainda compartilhou que, mesmo com Celina mais velha, a avó "chamava os netos para o quarto e entregava uma 'balinha', um 'bombonzinho', quando tinha festa de família".

Um gesto revolucionário
A neta de Celina relatou que, enquanto criança, não tinha noção da importância da própria avó para a luta feminina na política brasileira. Mas, ao longo da adolescência, tomou consciência. "Depois que a gente vai crescendo, chegando aos 15, 16 anos, vamos vendo que temos alguns direitos que outras pessoas conquistaram para você, eu comecei a dar valor".
Gina lembra exatamente quando foi votar pela primeira vez. "Percebi a importância disso, escolher quem vai nos representar, e que só consegui exercer essa função porque ela [Celina] foi a primeira mulher a poder pôr em prática essa mudança. Eu pensei: estou aqui por causa dela", declarou.
Foi a partir dessa consciência e da vontade de manter o legado de Celina vivo que Gina passou essa história adiante. Fernanda Viana (conhecida como Fefa), filha de Gina e bisneta de Celina, contou à reportagem que, desde criança, sabia sobre o feito da bisavó:
"Quando era muito nova, ainda no colégio, alguém sempre falava sobre o que os familiares deles tinham feito, e eu tinha duas coisas para falar: minha mãe é campeã mineira de natação e minha bisavó foi a primeira mulher a votar no Brasil. Sempre contei essa história como se fosse algo simples. Hoje eu, que sou feminista, não poderia estar mais feliz de poder ter ela na minha família".
Ao mesmo tempo, Fefa destaca um sentimento agridoce sobre o tema, relatando que, mesmo quase um século depois do voto de Celina, as mulheres ainda precisam lutar por reivindicações e igualdade de gênero:
"Cada vez mais me sinto orgulhosa desta história. Mas, pela minha própria vivência, estou aqui, em 2026, tendo que falar sobre isso. Não é um ponto histórico como se fosse uma coisa que aconteceu e a gente já tem esse direito e pronto. Como todos os direitos femininos, temos sempre que ficar voltando e mostrar que estamos aqui. Não podem nos tirar esse direito", disse.
Para Gina e Fernanda, ser uma mulher inserida e engajada na política é um "ato revolucionário". "Como mulher e brasileira, faço questão de estudar todas as pessoas que estão se candidatando e de preferência voto em uma mulher. Não tem nenhuma outra pessoa que saiba o que uma mulher sente do que uma outra mulher", destacou Fefa.
Quase um século depois, mulheres são maioria no eleitorado
No primeiro domingo de outubro de 2026, milhões de brasileiros vão às urnas para definir os seus próximos representantes políticos. Essa é a 33ª eleição desde a Proclamação da República, em 1889, e a 20ª com livre participação feminina.
Desde o primeiro voto, há quase 100 anos, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço. Hoje, o eleitorado brasileiro, inclusive, já é majoritariamente feminino. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 83,8 milhões de mulheres aptas a votar, o equivalente a 52,84% do eleitorado. O número aponta cerca de 9 milhões de eleitoras a mais que eleitores.
Por outro lado, o TSE aponta que, apesar de as mulheres representarem mais da metade do eleitorado, elas continuam sub-representadas entre candidatas e eleitas. Nas eleições municipais de 2024, por exemplo, as mulheres foram cerca de 34% das candidaturas e representaram 18% das pessoas eleitas.
E é diante desse cenário que o legado de Celina é lembrado por sua neta, Gina, e por sua bisneta, Fefa. Mãe e filha acreditam que, por meio do voto, as mulheres podem fazer a diferença.
"Acho que a mulher ainda não acredita que ela pode fazer essas diferenças. É uma luta que não é fácil”, afirmou Gina Viana. "Acredito que nossa real luta é se juntar com o masculino. Não é para ser mulheres contra homens, e sim nos juntarmos para ir contra o patriarcado, contra o machismo”, completou a bisneta de Celina, Fefa.

Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.


















