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CPI pode votar relatório, mas há indefinição sobre depoimento de Kalil

Câmara de BH investiga denúncias contra ex-prefeito há sete meses e documento não pede indiciamentos ao Ministério Público; Justiça determinou oitiva de Alexandre Kalil

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Relatório da vereadora Fernanda Altoé não pede indiciamento de investigados pela CPI do Abuso de Poder
Relatório da vereadora Fernanda Altoé não pede indiciamento de investigados pela CPI do Abuso de Poder • Cláudio Rabelo/CMBH

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Abuso de Poder chega ao fim nesta sexta-feira (21) em meio à votação do relatório final da vereadora Fernanda Altoé (Novo) e uma indefinição sobre o depoimento do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD). A CPI foi aberta pela Câmara Municipal em dezembro do ano passado para investigar suposto uso da máquina pública e favorecimento pessoal da gestão de Kalil à frente do Executivo municipal.

Uma das supostas irregularidades seria a liberação do pagamento de dívidas do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de imóveis ligados ao ex-prefeito.

O relatório tem 944 páginas e foi protocolado no fim da tarde desta quinta-feira (20). Apesar de citar o nome de Alexandre Kalil por 380 vezes, o ex-presidente do Atlético Mineiro não teve um pedido de indiciamento feito pela vereadora. O documento cita nomes de pessoas ligadas a Kalil e pede que órgãos como o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a Receita Federal e até o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprofundem as investigações iniciadas pela CPI.

Dentre os citados estão a empresária Eloá Starling, dona da agência de viagens Unitour, que recebeu mais de R$ 1 milhão dos cofres da prefeitura em um contrato que dispensou a realização de licitação. Em depoimento à CPI, em fevereiro deste ano, ela disse que seu marido - falecido em 2019 - era amigo pessoal de Kalil e que algumas despesas do ex-prefeito assumidas pela empresa foram pagas por Kalil com dinheiro vivo. 

Outro nome citado é o do ex-diretor financeiro do Galo, Carlos Fabel, também ligado a Kalil. O relatório também pede que o MP desarquive uma apuração contra o ex-procurador municipal Luiz Gustavo Levate pela prática de advocacia administrativa.

À reportagem, Fernanda Altoé disse que a Comissão levantou indícios de cometimento de crimes, que devem ser aprofundados por outros órgãos de investigação.

"O principal objetivo dela é conseguir levantar indícios, provas a respeito de eventuais práticas de crimes ou de atos de improbidade administrativa praticados no âmbito do município. E foi esse o trabalho que a gente desenvolveu. A gente pediu, na verdade, e apontou todos esses indícios, documentos e depoimentos relacionados a cada um dos fatos para que a investigação seja complementada pelo Ministério Público Federal ou pelo Ministério Público Estadual e até, eventualmente, pelas polícias porque faltam ainda elementos de convicção absoluta da prática desses crimes", afirmou.

Recomendações

Ao longo dos últimos sete meses, os vereadores realizaram diversas oitivas, incluindo pessoas ligadas a Kalil e servidores da Prefeitura de Belo Horizonte, e investigou o perdão de dívidas do ex-prefeito pelo Executivo municipal, como as relacionadas ao IPTU, além das contrapartidas impostas pela PBH à construção da Arena MRV.

O relatório recomendou, ainda, mudanças sobre a cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano e disse que provas colhidas ao longo da investigação "escancarou a possibilidade de manipulação dos processos de cobrança fiscal, pela desconexão das informações entre órgãos e Secretarias municipais".

Entre as recomendações que constam do texto estão a obrigatoriedade de tratamento de informações de imóveis antigos, a regularização de imóveis públicos na capital mineira e a atualização dos dados de cobrança do IPTU.

Kalil quer ser ouvido

Apesar de, na oitava reunião, a CPI do Abuso de Poder ter aprovado um requerimento para que o ex-prefeito Alexandre Kalil pudesse ser ouvido, ele nunca foi chamado. Às vésperas do término da comissão, ele acionou a Justiça para que a Comissão marcasse uma data para que ele pudesse dar sua versão dos fatos.

O pedido foi aceito, por meio de uma liminar, na tarde desta quinta-feira (20).

No ofício, Kalil alegou que a CPI foi aberta em seu desfavor com o objetivo de "apurar indícios de utilização da estrutura pública da Prefeitura do Município de Belo Horizonte para favorecimento pessoal e de terceiros em diversas oportunidades" e que a comissão aduz que ele "teria sido beneficiado por medidas tomadas pela Procuradoria-Geral do Município em execuções fiscais".

Ao conceder liminar em favor de Alexandre Kalil, o juiz afirmou que o princípio da ampla defesa é resguardado pelo artigo 5º da Constituição Federal e que, ao não ouvir Kalil, a CPI do Abuso de Poder pode incorrer em "perigo de dano, já que o depoimento do mesmo, ou a falta deste, pode influir diretamente na conclusão das investigações", diz trecho da decisão.

Com a sessão marcada para as 9h30 desta sexta-feira (21) para que os vereadores possam votar sobre o relatório, ainda não é certo se a decisão será cumprida.

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Editor de política. Foi repórter no jornal O Tempo e no Portal R7 e atuou no Governo de Minas. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem MBA em Jornalismo de Dados pelo IDP.