O animal que consegue regenerar o próprio coração está perto de desaparecer da natureza
O axolote mexicano chama a atenção da ciência por sua impressionante capacidade de regenerar patas, partes do cérebro, medula espinhal e coração, mas a espécie está criticamente ameaçada de extinção em seu habitat natural

O axolote é um dos animais mais fascinantes estudados pela ciência. Essa salamandra originária do México tem uma capacidade extraordinária de regeneração: consegue reconstruir partes do corpo que foram perdidas, incluindo extremidades, segmentos da medula espinhal, do cérebro e até do coração.
Apesar dessa característica impressionante, o futuro da espécie na natureza é preocupante. Segundo especialistas ouvidos pela Wildlife Magazine, o Ambystoma mexicanum está praticamente desaparecendo de seu ambiente natural. Atualmente, sua presença está restrita a poucos locais no sul da Cidade do México.
A situação contrasta com a popularidade do animal em aquários domésticos e laboratórios científicos de várias partes do mundo. O pesquisador Richard Griffiths, da Universidade de Kent, resumiu o cenário ao afirmar que o axolote provavelmente é um dos anfíbios mais espalhados em lojas de animais e laboratórios, embora esteja quase extinto na natureza.
Uma salamandra que nunca deixa de ser 'jovem'
Uma das características que tornam o axolote diferente de outras salamandras é a neotenia. O fenômeno faz com que o animal mantenha durante toda a vida características normalmente associadas à fase larval.
Por isso, mesmo adulto, o axolote continua vivendo na água e conserva suas famosas brânquias externas, que têm aparência semelhante a pequenas estruturas em forma de penas ao redor da cabeça.
Essas brânquias ajudam o animal a retirar oxigênio da água e também participam da eliminação de resíduos metabólicos. O axolote possui ainda pulmões rudimentares e pode subir à superfície para respirar ar.
Na natureza, os animais apresentam principalmente uma coloração marrom escura, com manchas verdes ou douradas. Os exemplares brancos e rosados que aparecem com frequência em aquários são resultado de características genéticas específicas e de criação em cativeiro.
O poder de reconstruir partes do próprio corpo
É a capacidade de regeneração que transformou o axolote em um dos animais mais importantes para pesquisas científicas sobre regeneração.
Quando sofre determinadas lesões, ele pode reconstruir uma extremidade completa, incluindo ossos, músculos, nervos e outros tecidos. A habilidade também se estende a partes da medula espinhal, do cérebro e do coração.
Essa característica desperta interesse porque mamíferos, incluindo os seres humanos, não possuem uma capacidade semelhante de reconstruir estruturas complexas dessa maneira.
Por isso, cientistas estudam o animal para tentar entender quais mecanismos celulares e genéticos permitem que seus tecidos sejam reconstruídos. A sequência completa do genoma do axolote também já foi obtida, oferecendo novas informações para pesquisas sobre regeneração.
Popularidade aumentou com o Minecraft
O interesse pelo axolote também cresceu fora dos laboratórios. A inclusão do animal no jogo Minecraft ajudou a aumentar sua popularidade e, consequentemente, a procura por exemplares como animais de estimação.
O problema é que muitas pessoas podem não conhecer as necessidades específicas da espécie antes de comprá-la.
Steve Allain, da Sociedade Herpetológica Britânica, alertou que os axolote podem ser animais de estimação adequados, mas não deveriam ser adquiridos por impulso ou sem que o futuro tutor conheça as condições necessárias para mantê-los.
Temperatura da água, alimentação, iluminação e qualidade do ambiente são alguns dos fatores que precisam ser considerados. Além disso, um axolote pode viver por até 15 anos.
Por que o axolote está desaparecendo?
A principal ameaça está justamente no ambiente onde a espécie evoluiu.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica o axolote como criticamente ameaçado de extinção. A poluição, a perda de habitat e a pesca estão entre os problemas que afetam a espécie.
Em Xochimilco, um dos últimos grandes refúgios naturais do animal, a situação é agravada pela presença de espécies introduzidas. Carpas e tilápias foram colocadas na região na década de 1970 para criação comercial de peixes e passaram a competir com o axolote pelo ambiente e pelos recursos disponíveis.
A criação em cativeiro também apresenta desafios. Populações mantidas por várias gerações podem sofrer com endogamia, aumentando a vulnerabilidade a doenças e criando dificuldades para eventuais programas de reintrodução na natureza.
O risco de animais de estimação serem soltos
Outro problema apontado pelos especialistas é o possível abandono de axolotes mantidos como animais de estimação.
Quando um tutor perde o interesse ou percebe que não consegue manter as condições necessárias, existe o risco de o animal ser solto em rios ou lagos. Além de representar perigo para o próprio axolote, esse tipo de ação pode introduzir doenças ou alterações genéticas em populações selvagens.
O especialista Steve Allain afirmou que ainda não havia registros desse tipo de incidente no Reino Unido, mas demonstrou preocupação de que isso possa acontecer conforme a popularidade da espécie continue crescendo.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



