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Brasil mostra ao mundo como tenta trazer animais de volta a lugares onde desapareceram

Projetos brasileiros de reintrodução de espécies e restauração da fauna foram apresentados em conferência internacional na Europa, com destaque para iniciativas realizadas em Santa Catarina

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papagaio de peito roxo
O papagaio-de-peito-roxo foi uma das espécies utilizadas como exemplo pelos pesquisadores brasileiros • Snowmanradio via Wikimedia Commons

Experiências brasileiras para recuperar populações de animais que desapareceram de determinadas regiões foram levadas à Europa neste mês. Projetos de reintrodução de espécies e restauração da fauna desenvolvidos em Santa Catarina foram apresentados na quarta Conferência Internacional de Conservação e Translocação, realizada em setembro, em Edimburgo, no Reino Unido.

O encontro reuniu pesquisadores, profissionais e gestores de diferentes países para discutir os avanços e os desafios envolvidos na chamada translocação para conservação. O termo se refere à movimentação planejada de organismos, como animais, plantas e fungos, de uma área para outra com o objetivo de contribuir para a conservação.

Uma das possibilidades é devolver uma espécie a uma região onde ela foi extinta localmente. Outra é reforçar uma população que ainda existe, mas está pequena ou ameaçada.

Papagaio e bugio fazem parte dos projetos

A bióloga Vanessa Kanaan, representante do Instituto Fauna Brasil, participou da conferência e apresentou três trabalhos, sendo dois pôsteres e uma apresentação oral.

Entre os projetos está a reintrodução do papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), iniciativa que começou em 2010 com o objetivo de recuperar a presença da espécie em uma região onde ela havia desaparecido. O projeto está previsto no Plano de Manejo do Parque Nacional das Araucárias.

Outro trabalho envolve o bugio-ruivo (Alouatta guariba), que está sendo reintroduzido na Ilha de Santa Catarina, onde fica Florianópolis. Segundo o projeto apresentado, a espécie estava extinta localmente na região havia mais de 260 anos.

O Instituto Fauna Brasil também passou a estudar a possibilidade de realizar translocações de pequenos felinos silvestres como parte de uma estratégia mais ampla de restauração ecológica da ilha.

Da perda de animais à tentativa de recuperar a fauna

Na apresentação oral, Kanaan abordou o processo de recuperação da fauna da Ilha de Santa Catarina, partindo da perda de espécies e chegando às iniciativas para tentar restaurá-las.

A experiência com o bugio-ruivo e os estudos envolvendo pequenos felinos mostram como os resultados de um projeto podem ajudar a produzir informações para orientar futuras ações de conservação.

A existência de áreas protegidas na ilha também abre espaço para a recuperação de parte das espécies que desapareceram e das funções ecológicas que elas desempenhavam.

Para a bióloga, animais silvestres que chegam a centros de reabilitação como consequência de ações humanas podem, quando tecnicamente aptos, representar uma oportunidade de contribuir para a conservação.

"Existe ainda uma oportunidade muito importante de integrar bem-estar animal e conservação. Muitos animais silvestres chegam aos processos de reabilitação como consequência direta ou indireta de ações humanas. Quando tecnicamente adequado, avaliar esses animais para translocação pode representar uma oportunidade não apenas para que retornem à vida livre, mas também para contribuir com a recuperação de espécies e com a restauração de funções ecológicas em locais onde elas desapareceram", afirmou a especialista ao site de notícias G1.

Reintroduzir animais exige planejamento

Apesar dos resultados obtidos, devolver animais à natureza não é uma tarefa simples. Os projetos precisam considerar riscos, condições sanitárias, aspectos genéticos e comportamentais, além de exigir acompanhamento por longos períodos.

A troca de experiências entre pesquisadores também permite identificar o que funcionou, quais problemas surgiram e o que pode ser modificado em novas iniciativas.

Segundo Kanaan, uma das preocupações apresentadas durante a conferência foi a diferença entre a velocidade da perda da biodiversidade e o ritmo das ações de recuperação.

Entre as ameaças estão a destruição e fragmentação de habitats, as mudanças climáticas, os atropelamentos e os conflitos envolvendo pessoas e animais domésticos.

"Existe também uma diferença de velocidade que me inquieta muito. As ameaças à biodiversidade acontecem rapidamente, perda e fragmentação de habitat, mudanças climáticas, atropelamentos, conflitos com pessoas e animais domésticos e tantas outras pressões. Enquanto isso, nossas tentativas de recuperação e restauração muitas vezes avançam muito mais lentamente do que poderiam. Precisamos de responsabilidade e cautela, mas também precisamos desenvolver a capacidade de agir, monitorar, aprender e adaptar", disse a bióloga.

Brasil enfrenta desafios para avançar

A participação brasileira na conferência também trouxe uma reflexão sobre as dificuldades enfrentadas no país. De acordo com Kanaan, ainda existem situações em que animais são soltos sem planejamento, recursos, monitoramento ou critérios técnicos suficientes.

Ao mesmo tempo, projetos estruturados podem enfrentar burocracia, resistência e dificuldades para conseguir autorizações.

A pesquisadora ressaltou que defender mais agilidade não significa abandonar o rigor. Para ela, as translocações precisam continuar baseadas em avaliação de riscos e evidências científicas, mas também devem considerar que não é possível eliminar completamente todas as incertezas antes de uma decisão.

"Depois de tantos anos trabalhando com reintroduções, continuo aprendendo que precisamos ter coragem para agir e humildade para reconhecer as incertezas, aprender com os resultados e mudar quando for necessário. Conservação não acontece em condições perfeitas e, diante da velocidade com que estamos perdendo biodiversidade, precisamos encontrar maneiras responsáveis de transformar conhecimento em ação", afirmou.

Segundo o G1, ao retornar ao Brasil, Vanessa pretende compartilhar com a equipe do Instituto Fauna Brasil os resultados e os debates do encontro internacional. Para ela, a participação também mostrou que as experiências desenvolvidas em Santa Catarina estão alinhadas a discussões realizadas atualmente em outros países.

A bióloga também destacou a importância de fazer o conhecimento produzido no Brasil circular internacionalmente, especialmente diante da grande biodiversidade existente no país.

"Volto com a responsabilidade ainda maior de ajudar a aproximar essas discussões internacionais da nossa realidade e, ao mesmo tempo, mostrar ao mundo o que estamos aprendendo e construindo aqui", concluiu.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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