Lorazepam pode ajudar a prevenir novas obstruções urinárias em gatos, mas ainda há cautela
Estudo investigou o uso do medicamento após episódios de obstrução uretral felina e reforçou a importância do controle da dor e da redução do estresse

Um estudo publicado no 'Journal of the American Veterinary Medical Association (JAVMA)' avaliou se o lorazepam poderia ajudar a prevenir novos episódios de obstrução uretral em gatos. Os resultados chamaram a atenção, mas ainda não são suficientes para recomendar o uso rotineiro do medicamento com essa finalidade.
A obstrução uretral é uma emergência comum na clínica de felinos e pode voltar a acontecer mesmo depois que o primeiro episódio é resolvido. Segundo a médica-veterinária Michele Vieira de Azeredo, uma das principais condições relacionadas ao problema é a cistite idiopática felina (CIF).
"Não considerá-la como base desse processo gera um manejo incompleto visando somente a resolução do quadro obstrutivo imediato e favorece a recidiva", explica a especialista ao site Cães e Gatos.
Por que o lorazepam foi estudado?
O lorazepam pertence à classe dos benzodiazepínicos e pode promover relaxamento da musculatura da uretra distal. A hipótese dos pesquisadores é que esse efeito poderia diminuir a possibilidade de uma nova obstrução.
"A proposta tem sentido já que é geralmente nessa região, uretra distal, que temos a maioria dos processos obstrutivos", afirma Michele à publicação especializada.
Apesar disso, os resultados precisam ser analisados com cuidado. Mais de 85% dos gatos avaliados também receberam medicamentos para controle da dor, como gabapentina ou buprenorfina. Todos receberam ainda orientação sobre dieta urinária e adequação do ambiente.
Por esse motivo, não é possível afirmar que a ausência de novos episódios entre os animais que receberam lorazepam tenha ocorrido exclusivamente por causa do medicamento. Também não está claro se um eventual benefício estaria relacionado ao relaxamento da musculatura, ao efeito ansiolítico ou à combinação dos dois.
Controle da dor e redução do estresse são fundamentais
Para a especialista, o tratamento não deve se limitar à desobstrução. A CIF é uma condição dolorosa, e o controle da dor tem papel importante principalmente no curto prazo.
No médio e longo prazo, a redução do estresse também merece atenção. A adequação do ambiente pode incluir esconderijos, locais altos para observação, brinquedos que estimulem comportamentos naturais de caça e liberdade para o gato escolher quando interagir com pessoas ou outros animais.
"Precisamos entender que os gatos necessitam 'exercer sua natureza' para se manter em equilíbrio", destaca Michele.
A dieta urinária pode contribuir para o manejo, mas é considerada uma medida complementar e não substitui o controle da dor, a avaliação veterinária e as mudanças necessárias no ambiente.
Medicamento pode ser considerado em casos específicos
De acordo com a profissional, o lorazepam pode ser avaliado como recurso complementar em alguns pacientes, principalmente quando há episódios recorrentes.
“Eu indicaria para pacientes com recidivas frequentes, nos quais o manejo analgésico e anti-inflamatório não está surtindo efeito a curto prazo”, reitera.
Ainda assim, o estudo não permite afirmar que o medicamento seja a solução para prevenir novas obstruções. Novas pesquisas serão necessárias para determinar quais estratégias oferecem maior segurança e eficácia.
“Ainda não sabemos como se desenvolve a fisiopatologia detalhada da CIF e nem qual tratamento é o ideal”, pontua a veterinária.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



