Estudo revela por que a urina dos gatos é uma forma de 'identidade'; entenda
Pesquisa identificou 13 compostos na urina dos felinos que permanecem relativamente estáveis e podem funcionar como uma espécie de assinatura química individual

A urina dos gatos pode carregar muito mais informação do que apenas uma marca deixada no ambiente. Um novo estudo identificou 13 ácidos graxos de cadeia ramificada presentes na urina dos felinos que apresentam características diferentes entre os animais e permanecem relativamente estáveis ao longo do tempo. A descoberta ajuda a explicar como os gatos conseguem reconhecer quem deixou determinada marca de cheiro.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Japão, Alemanha e Espanha e combinou análises químicas com testes de comportamento. Ao todo, foram utilizadas amostras de urina de 44 gatos e testes comportamentais com 27 animais domésticos. Os resultados foram publicados na revista científica Current Biology.
Urina funciona como uma espécie de assinatura
Os pesquisadores descobriram que a composição dos 13 ácidos graxos identificados variava consideravelmente entre os gatos, mas permanecia relativamente constante em cada indivíduo. Por isso, a combinação pode funcionar como uma espécie de "assinatura química", capaz de fornecer informações sobre qual animal deixou a marca.
Outro ponto chamou a atenção dos cientistas. Os compostos continuaram detectáveis por pelo menos 24 horas em determinadas condições, enquanto outras moléculas presentes na urina desaparecem ou se modificam mais rapidamente. Essa característica pode ser importante para a comunicação entre os felinos, já que permite que uma marca continue transmitindo informações mesmo depois que o animal deixou o local.
O estudo também constatou que os perfis químicos de gatos que tinham algum grau de parentesco eram mais semelhantes. Mesmo assim, as diferenças individuais permaneciam, reforçando a possibilidade de que cada animal apresente uma identidade olfativa própria.
Gatos conseguem diferenciar os cheiros
A equipe não analisou apenas a composição química da urina. Os pesquisadores também observaram o comportamento dos gatos diante de diferentes amostras.
Quando os animais eram expostos repetidamente ao mesmo cheiro, o tempo dedicado à exploração diminuía. Quando uma amostra diferente era apresentada, o interesse aumentava novamente. Para os cientistas, esse comportamento indica que os gatos conseguem perceber diferenças entre os odores produzidos por indivíduos distintos.
Os pesquisadores também observaram a chamada resposta de flehmen, comportamento em que o gato entreabre a boca ao analisar determinados odores. A reação apareceu com maior frequência diante da urina de outro animal do que diante da própria urina.
"Depois de confirmar que os gatos podem distinguir os odores urinários de diferentes indivíduos, usamos a resposta de flehmen como pista para identificar moléculas urinárias que poderiam contribuir para o reconhecimento olfativo entre indivíduos", afirmou Masao Miyazaki, bioquímico da Universidade de Iwate e um dos autores do estudo.
Mistério de mais de um século
A pesquisa também levou os cientistas até os rins dos gatos. Os 13 ácidos graxos foram encontrados nesse órgão, mas não nos outros tecidos analisados.
A descoberta pode ajudar a explicar a função de pequenas reservas de gordura encontradas nos rins dos gatos. Essas estruturas são conhecidas há mais de cem anos, mas seu papel ainda não estava completamente esclarecido.
"As gotas lipídicas no rim do gato são conhecidas há mais de um século, mas ainda não estava claro por que esses animais têm tantas", explicou Miyazaki. Segundo ele, os resultados sugerem que uma das funções dessas estruturas pode ser justamente ajudar a manter uma assinatura química estável na urina.
Os pesquisadores também encontraram compostos semelhantes em outros felinos, incluindo leões, leopardos, tigres, linces e onças-pintadas. A descoberta, portanto, pode abrir novas linhas de investigação sobre comunicação química, saúde renal e até formas não invasivas de estudar felinos selvagens.
Ainda são necessários novos estudos para entender exatamente como essas substâncias armazenadas nos rins chegam à urina.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



