Ter um cachorro tratado como “de madame”, com roupas, carrinho, rotina de beleza e até cardápio especial, parece um sinal de amor e cuidado. No entanto, especialistas alertam que a humanização excessiva pode trazer consequências negativas à saúde física e emocional dos cães. O problema não está em oferecer conforto, mas em confundir afeto com substituição de necessidades naturais, como exercício, socialização e limites.
De acordo com a médica-veterinária e especialista em comportamento animal Caroline Rossi, em entrevista ao portal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), “o cachorro precisa ser tratado como cachorro. Ele tem necessidades próprias da espécie, como cheirar, correr, brincar e interagir com outros cães. Privá-lo disso pode gerar frustração e ansiedade”.
A humanização excessiva pode desencadear problemas comportamentais como agressividade, dependência emocional e fobias. Isso ocorre quando o tutor projeta no pet emoções humanas, transformando o convívio em uma relação de dependência, explica o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) em nota técnica.
A linha entre o cuidado saudável e o exagero é tênue, mas tutores precisam diferenciar: vestir o animal em dias frios, oferecer alimentação de qualidade e garantir acompanhamento veterinário são atitudes positivas. Já restringir o contato com outros cães, impedir o animal de se sujar ou forçá-lo a participar de rotinas humanas, como festas ou desfiles, pode ser prejudicial.
Para manter o equilíbrio entre carinho e bem-estar, especialistas recomendam:
- Estimular o comportamento natural, com passeios diários, brincadeiras e socialização com outros animais.
- Estabelecer limites claros para o cão, para que ele entenda regras e rotinas, o que o ajuda a se sentir seguro.
- Cuidar da saúde mental e física, por meio de enriquecimento ambiental, com brinquedos e desafios cognitivos.
- Evitar exageros estéticos, como roupas, perfumes e acessórios, que devem ser usados apenas quando realmente forem necessários.
A veterinária comportamentalista Heloísa Fonseca, em entrevista à Revista Crescer, reforça que “o bem-estar animal não está no luxo, mas em atender às necessidades biológicas e emocionais da espécie. Um cão feliz é aquele que pode ser cão, sem pressões humanas”.
O vínculo entre tutor e animal deve promover saúde, segurança e respeito às características individuais, reforça o Guia de Boas Práticas do CFMV.