Dirofilariose: verme do coração ameaça cães e gatos e pode evoluir sem sintomas
Transmitida pela picada de mosquitos, doença não está restrita às cidades litorâneas. Veterinários alertam para a importância do diagnóstico precoce e da prevenção

O que era para ser um passeio por uma das praias de Alagoas, no Nordeste do país, acabou se transformando em uma história de resgate e superação. Em outubro de 2021, Marcelo Cabral encontrou uma cachorrinha abandonada, extremamente debilitada e desnutrida. Com feridas na orelha e falhas no pelo, ela precisava de cuidados urgentes. Foi adotada, recebeu o nome de Chica e, durante uma avaliação veterinária, teve o diagnóstico de duas doenças: dirofilariose e leishmaniose.
Conhecida popularmente como verme do coração, a dirofilariose é uma doença parasitária transmitida pela picada de mosquitos infectados. A enfermidade pode atingir cães e gatos e evoluir silenciosamente, sem apresentar sinais evidentes nas fases iniciais.
No caso de Chica, o tratamento exigiu acompanhamento constante. Segundo o tutor, a adaptação aos medicamentos também foi um desafio.
“No começo do tratamento era realmente acompanhar ela de perto, porque também os remédios, no começo, ela começou a vomitar. Então foi uma melhora gradativa”, conta Marcelo.

Verme não fica necessariamente no coração
Apesar do nome popular, o parasita responsável pela dirofilariose se instala principalmente nas artérias pulmonares, vasos sanguíneos que levam o sangue do coração aos pulmões. Em quadros mais avançados, pode atingir o coração e provocar complicações graves.
A médica-veterinária Andréia Turchetti explica que a localização do parasita é uma informação importante para compreender a evolução da doença. “Esse verme é conhecido popularmente como verme do coração. Aqui a gente já faz a primeira informação importante para a população: geralmente, ele fica dentro dos vasos sanguíneos do pulmão. Quando a infestação é muito grande, esses vermes podem entrar dentro do coração”, explica.
Transmissão acontece pela picada de mosquitos
A dirofilariose é transmitida por mosquitos infectados, que funcionam como intermediários na disseminação do parasita. Entre os gêneros que podem participar da transmissão estão Aedes, Culex e Anopheles.
O médico-veterinário Breno Lima, assessor da Diretoria de Gestão da Saúde Animal da Subsecretaria de Bem-Estar Animal da Prefeitura de Belo Horizonte, explica que o mosquito adquire formas jovens do parasita ao picar um animal infectado. Depois do desenvolvimento das larvas no inseto, elas podem ser transmitidas a outro animal durante uma nova picada.
O especialista ressalta que a doença não passa diretamente de um animal para outro. “O contato, a convivência e o compartilhamento de água ou alimento não transmitem a doença”, esclarece.
Doença pode passar despercebida
A dirofilariose tem registros no Brasil desde 1878, mas não existem estatísticas nacionais oficiais consolidadas, já que a doença não integra a lista de enfermidades de notificação compulsória.
Um dos principais desafios é identificar a infecção antes do aparecimento de sintomas. Segundo Andreia Turquete, o ideal é realizar testes preventivos, mesmo quando o animal aparentemente está saudável.
“A gente precisa diagnosticar essa doença antes de ter uma quantidade grande de larvas, porque o tratamento fica muito mais fácil. O ideal é testar sempre, uma vez por ano, para ver se o animalzinho é positivo ou negativo, antes dos sinais clínicos”, orienta.
Quando a doença avança, os sintomas podem incluir cansaço excessivo, tosse, dificuldade respiratória e desmaios. Em situações graves, o animal também pode apresentar alterações na circulação e na oxigenação do sangue.
Dirofilariose não está restrita ao litoral
Embora seja frequentemente associada às praias e cidades litorâneas, a dirofilariose já foi registrada em diferentes regiões do Brasil. A presença de mosquitos transmissores em ambientes urbanos e rurais reforça a necessidade de prevenção durante todo o ano.
Entre as medidas de proteção estão o uso de coleiras repelentes, pipetas e outros produtos veterinários específicos. A escolha deve ser feita com orientação profissional, considerando a espécie, a idade e as condições de saúde do animal.
A veterinária Andreia Turquete destaca que existem diferentes alternativas para reduzir o risco de picadas.
“Os repelentes em animais têm inúmeras formas. O mais tradicional é o uso de coleira repelente, que pode ter duração de quatro a oito meses, dependendo da marca. Também temos pipetas e sprays”, afirma.
Combate aos mosquitos começa dentro de casa
Além dos cuidados diretamente com os animais, a prevenção depende do combate aos focos de mosquitos. A eliminação de água parada, a limpeza de quintais e a manutenção adequada de caixas-d'água são medidas importantes.
Vitor Dias, gerente de Operações de Campo da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, alerta que pequenos descuidos podem favorecer a proliferação de mosquitos. “Às vezes o churrasco do final de semana vira o vilão da semana, com a garrafa que fica exposta ou o lixo colocado de forma indevida. A pessoa pode corrigir isso com dez minutos de atenção no seu imóvel”, explica.
A história de Chica mostra a importância de procurar atendimento veterinário e investigar possíveis doenças, mesmo quando os sintomas não são evidentes. Depois de enfrentar a dirofilariose e a leishmaniose, a cachorrinha segue em acompanhamento e hoje está alegre e cheia de vida.
A prevenção, o diagnóstico precoce e o acompanhamento veterinário são fundamentais para proteger cães e gatos contra doenças transmitidas por mosquitos.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



