Crueldade contra pets: grupos online e falhas na supervisão familiar podem influenciar
‘Existe negligência dos pais e uma responsabilidade muito grande das empresas de tecnologia’, avalia especialista

Casos de crueldade contra animais têm ganhado visibilidade e preocupado especialistas, principalmente pelo envolvimento de jovens e adolescentes. Episódios recentes, como do Cão Orelha, mostram que a violência, além de persistente, vem sendo incentivada e compartilhada em ambientes digitais.
“Estamos vendo um crescimento muito grande desses grupos que não só promovem maus-tratos, mas maus-tratos com requinte de crueldade”, afirma Marcela Cerda, diretora do Instituto Ampara Animal.
De acordo com ela, há um aumento de práticas de maus-tratos associadas à busca por engajamento online, muitas vezes em grupos fechados que se comunicam pela plataforma Dischord.
O avanço desses casos está ligado a múltiplos fatores, incluindo a falta de acompanhamento familiar e a atuação limitada das plataformas digitais na moderação de conteúdo. “Existe negligência dos pais e uma responsabilidade muito grande das empresas de tecnologia”, avalia a diretora.
Segundo ela, o funcionamento dos algoritmos pode ampliar a exposição a conteúdos violentos. “Se a pessoa dá um like, só vai aparecer aquilo, conteúdos sobre aquilo insistentemente”, alerta Cerda.
O Brasil registrou cerca de 13 denúncias de maus-tratos por dia em 2025, totalizando quase 5 mil casos no ano. No ano passado, foram abertas quase cinco mil ações, aumento de 20% na comparação com 2024, quando o total de processos pouco passou dos quatro mil. Os dados do Conselho Nacional de Justiça.
Segundo especialistas, o conceito de maus-tratos é mais amplo do que agressões explícitas. Situações como abandono, falta de água e alimento ou exposição ao clima também configuram violência.
“Hoje, abandonar um animal é maus-tratos, com certeza”, explica a diretora do Instituto Ampara Animal. A especialista destaca que cães e gatos são totalmente dependentes dos humanos, e a negligência no cuidado básico pode trazer consequências graves.
Redes sociais e omissão agravam o problema
Educação e responsabilidade são caminhos
Especialistas apontam que o combate à crueldade animal passa por educação e conscientização desde a infância, além de maior fiscalização e responsabilidade coletiva.
Para Marcela Cerda, é essencial ensinar desde cedo o respeito aos animais e seus limites.
“É importante que as crianças aprendam a respeitar seus limites e espaços”, afirma.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.
