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Aves resgatadas do tráfico se reabilitam e reencontram a liberdade em MG

Enquanto muitos animais ainda são vítimas de exploração, ações mostram que é possível dar uma segunda chance à vida selvagem

Para que realidade se amplie, o combate ao tráfico de animais precisa ser firme, contínuo e coletivo

Elas chegam feridas, estressadas e muitas vezes desnutridas. Após serem retiradas ilegalmente da natureza, aves silvestres vítimas do tráfico enfrentam um longo processo de recuperação antes de voltar ao seu habitat.

Em Minas Gerais, o trabalho realizado pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetras) de Divinópolis (MG) tem possibilitado que muitas dessas histórias tenham um desfecho diferente com reabilitação e soltura.

Somente no primeiro semestre de 2024, cerca de 400 aves passaram pelo centro, mantido pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF).

Entre elas, espécies como trinca-ferro, coleiro, papagaio-verdadeiro e sabiá-laranjeira, todas frequentemente visadas por traficantes por conta do canto ou do valor comercial.

“O tráfico de animais silvestres é a terceira atividade ilícita mais lucrativa do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e armas”, destaca o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em relatório oficial.

Estima-se que cerca de 38 milhões de animais silvestres sejam retirados da natureza anualmente no Brasil.

Reabilitação exige tempo, cuidado e observação

O processo de reintegração à natureza é delicado e demanda avaliações clínicas, comportamentais e nutricionais.

As aves passam por quarentena, exames e são gradualmente estimuladas a recuperar habilidades naturais, como o voo e a busca por alimento. Só então são consideradas aptas para soltura.

Segundo o IEF, a triagem envolve múltiplos critérios, e nem todos os animais podem ser soltos.

Os que apresentam sequelas físicas, comportamentais irreversíveis ou dependência do ser humano podem ser encaminhados para mantenedores autorizados ou programas de educação ambiental.

“Nosso objetivo é sempre devolver o animal à natureza, mas com responsabilidade. Soltar um animal sem preparo é condená-lo à morte”, explica o órgão em nota técnica.

A soltura é feita, preferencialmente, em Unidades de Conservação ou áreas com vegetação adequada e monitoramento.

As operações, segundo o IEF, seguem protocolos estabelecidos pelo Ibama e respeitam critérios ecológicos e sanitários rigorosos.

Combater o tráfico é tarefa coletiva

Apesar do trabalho técnico desenvolvido por centros como o de Divinópolis, especialistas alertam que a solução passa pela mudança de comportamento da sociedade.

De acordo com o Projeto Fauna Brasil, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, a maioria dos animais traficados é vendida para criadores amadores e colecionadores, e muitos morrem ainda durante o transporte.

Para reduzir esse ciclo, é essencial que a população não compre animais silvestres sem origem legal.

Além disso, denúncias anônimas podem ser feitas pelo Linha Verde do Ibama (0800 61 8080).

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.